Estratégia é incluir rebeldes na polícia

A atual estratégia da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) para o Afeganistão tem como objetivo transformar milícias em forças policiais que aumentarão o contingente reduzido da Polícia Nacional. Mas muitos funcionários afegãos temem que o plano dê legitimidade aos grupos. Para eles, seria como colocar uniformes em bandidos que só devem lealdade ao seu senhor local.

NYT, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Conhecidos como "arbekais", estes grupos armados incluem milícias semioficiais organizadas e pagas pelo governo; outros são simplesmente gangues que vagam de aldeia em aldeia exigindo comida, abrigo e dinheiro ou, particularmente na Província de Takhar, grupos de proteção dos senhores da guerra que se dedicam ao narcotráfico.

Os abusos dos grupos armados contribuíram para tornar o Taleban mais atraente para os que estão decepcionados com o governo. "É por causa da negligência do governo que os taleban voltaram", disse Mahboobullah Mahboob, presidente do Conselho Provincial de Kunduz. "Eles começaram a crescer e o governo não deu atenção", afirmou.

Hajji Aman Uthmanzai, também integrante do conselho provincial acredita que o Taleban oferece uma Justiça mais rápida, diferentemente do governo, que não protege a população nem dos taleban nem das milícias. "O governo afirma que criou os arbekais para proteger a aldeia, mas se você perguntar aos aldeões, alguns afirmarão até mesmo que preferem o Taleban, pois os arbekais os atormentam, os exploram", acrescentou.

A proliferação de grupos armados faz com que as organizações humanitárias, como a Cruz Vermelha, tenham de lutar para manter os projetos funcionando. Como trabalham sem uma segurança armada, precisam convencer os líderes locais a permitir que suas equipes operem sem ser molestadas. Os Médicos Sem Fronteira pensavam em abrir uma clínica, mas se sentiram desestimulados pelo número de grupos armados, disse Michiel Hofman, representante no país.

Anteriormente, as negociações eram lentas, mas possíveis. Agora, os trabalhadores de ajuda humanitária afirmam que há tantos grupos armados que é difícil obter garantias de todos. "A cada cinco quilômetros há um comandante diferente sem nenhuma estrutura de comando central", afirmou Hofman.

O chefe da polícia de Kunduz, o ex-militante Abdul Rahman Sayid Khali, colocou em dúvida a possibilidade de os insurgentes deixarem de extorquir e ameaçar a população quando usarem uniformes. "Seus salários serão inferiores aos da polícia regular. Não sabemos quanto ganham agora."

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