''Estratégia no Afeganistão está certa e reduz ameaça terrorista''

Missão afegã ?não busca impor democracia suíça?, mas atender ao interesse nacional da Grã-Bretanha, diz ministro da Defesa

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Os britânicos não têm escolha em relação ao Afeganistão, argumenta o ministro da Defesa da Grã-Bretanha, Bill Rammell. Somente o envolvimento no país centro-asiático pode "conter novos atentados dentro do território britânico", disse em entrevista exclusiva ao Estado. "Lutamos, assim, por nosso interesse nacional", completa. Rammell, que esteve na semana passada em Brasília e no Rio de Janeiro, rebateu ainda acusações de que teria atuado nos bastidores para repatriar à Líbia Abdelbaset al-Megrahi - condenado na Escócia pelo atentado de Lockerbie - e defendeu uma aproximação com o Brasil. "Também queremos um assento brasileiro no Conselho de Segurança."

O ano de 2009 já é o mais sangrento para tropas da Otan no Afeganistão e o número de mortes de militares britânicos passou a marca dos 200. Qual é exatamente o objetivo da missão, construir uma democracia afegã ou derrotar o Taleban?

Não é possível separar essas duas coisas. Mas é fundamental que se entenda que estamos no Afeganistão para defender o interesse nacional britânico. Em 2001, o Taleban tinha controle total do país e treinava terroristas para lançar ataques contra a Grã-Bretanha. Apesar de difícil, nossa presença reduz essa ameaça.

Mas há, sim, um elo com a democracia. Não se trata da defesa de um modelo democrático do tipo suíço para o Afeganistão. Mas eleições fortalecem os progressos no campo da segurança. Sem esse pano de fundo, afegãos comuns não se apropriarão do futuro de seu país. Fizemos progressos, mas ainda há grandes desafios.

O sr. falou da importância da luta em território afegão para conter o terrorismo na Grã-Bretanha. Mas, se observarmos os ataques de 2005 em Londres, por exemplo, eles foram cometidos por cidadãos britânicos. Não é contraditório?

Alguns ataques que tiveram sucesso e outros que fracassaram foram cometidos por britânicos e há uma preocupação nesse sentido. Mas não estamos falando de uma ameaça teórica. Com um espaço do tamanho do Afeganistão livre para terroristas, há um enorme risco para os interesses britânicos. Estou certo de que, se não estivéssemos no Afeganistão, o perigo para o povo britânico e para a comunidade internacional seria muito maior.

Caso o governo americano solicite, a Grã-Bretanha enviará mais tropas ao Afeganistão?

Já aumentamos nossas tropas de 5.500 para 9 mil. Se houver um pedido, nós o analisaremos. Mas devemos lembrar que há uma coalizão de 42 países por trás do esforço de guerra. Não é apenas nossa responsabilidade contribuir.

Alguns analistas defendem uma mudança na estratégia.

Nossa estratégia está certa. Como qualquer plano, porém, ela precisa evoluir com o tempo. E não se trata apenas de uma campanha militar. Temos de criar condições de segurança, combater a papoula, criar um Judiciário. Não estamos no Afeganistão para sempre e queremos investir em recursos locais. Tropas afegãs já somam 90 mil e chegarão em breve a 130 mil, por exemplo.

Segundo o jornal ?The Guardian?, o sr. disse a um diplomata líbio que a Grã-Bretanha não queria ver Megrahi, condenado pelo atentado de Lockerbie, "morrer na prisão". Isso teria levado à libertação dele.

É preciso olhar o panorama geral, pois isso foi tirado de contexto. Deixamos claro aos líbios que a decisão de libertar Megrahi competia, exclusivamente, ao gabinete escocês, dentro do sistema britânico de compartilhamento de poder. Em uma reunião, representantes líbios disseram que não gostariam de vê-lo morrer preso. Respondi que não estávamos buscando sua morte na prisão. Mas enfatizei que a decisão envolvia o governo escocês e não queríamos - nem poderíamos - interferir.

Então o sr. garante que não houve nenhuma interferência do governo Gordon Brown na soltura.

Absolutamente. Foi uma decisão exclusiva da Escócia.

Londres atualmente pressiona, pela via diplomática, Teerã a congelar seu programa nuclear. E se a diplomacia não funcionar?

Estamos 100% comprometidos com uma solução diplomática. Mas não queremos menosprezar o problema que o programa nuclear iraniano representa. Nós apoiamos a iniciativa do presidente Barack Obama de engajar, diplomaticamente, o Irã. Mas cabe aos iranianos tomar a decisão: ou aceitam os benefícios da tecnologia nuclear civil, como prevê a oferta, ou enfrentam sanções ainda mais severas.

O Brasil atualmente tenta se aproximar do Irã. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, para vir ao Brasil.

Espero que o Brasil reforce a visão da comunidade internacional de que o Irã deve se submeter à autoridade da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e aceitar o diálogo. Essa é a chave para a questão e acredito que o Brasil apoiará esse movimento.

O sr. esteve entre os membros do Partido Trabalhista que apoiaram a invasão do Iraque, em 2003. Como o sr. avalia o conflito seis anos depois, com a retirada das tropas britânicas já concluída?

A decisão de ir à guerra foi extremamente difícil. Mas acredito que fizemos a coisa certa. O Iraque é hoje um país melhor sem Saddam Hussein no poder. Há uma democracia em progresso, como vimos nas eleições regionais de janeiro. Os iraquianos estão finalmente se apropriando do país. O fato de termos retirado nossas tropas é prova disso.

O gasto com defesa na América do Sul aumentou rapidamente desde o fim dos anos 90. Mas a Grã-Bretanha não está entre os principais fornecedores de armamento para a região (eles são EUA, Rússia, França e Alemanha). Como o sr. analisa esse cenário? Há vontade de alterá-lo?

Queremos que isso mude e parte da minha visita é dedicada a esse objetivo. O Brasil é um país particularmente importante para nós e apoiamos decididamente a intenção brasileira de integrar o Conselho de Segurança da ONU. Vemos o Brasil não só como uma voz estabilizadora na América Latina, mas também como um país com vocação global. E é com base nessa premissa que queremos incrementar nossa relação militar. Parte desse esforço envolve mobilizar empresas britânicas e fazê-las entender como fazer negócios no Brasil. Observamos com cuidado o plano de defesa brasileiro e acho que empresas britânicas podem aumentar sua participação no mercado brasileiro.

Há algum projeto definido?

Há vários projetos que interessam empresas britânicas. Não explorarei os detalhes pela sensibilidade comercial do tema.

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