Estratégia sem apoio

Em nenhum país, nem nos EUA, a opinião pública se mobilizou para tornar prioridade o desarmamento nuclear e o objetivo de Obama não tem seguidores

George Perkovich, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Em Praga, há um ano, o presidente Barack Obama afirmou o "compromisso dos EUA com a busca da paz e da segurança de um mundo sem armas nucleares". O discurso provocou fortes reações em todo o mundo. As elites e a mídia, favoráveis ao desarmamento nuclear, aplaudiram. Outros zombaram de suas palavras, alertando que um mundo sem armas nucleares representaria a desestabilização do equilíbrio de poder nos âmbitos regional e global, aumentando o risco de guerra entre as principais potências.

Mais importante: os países cuja cooperação seria necessária para a adoção da pauta definida em Praga opõem-se a ela ou fizeram pouco para alcançar as metas previstas. Em nenhum país, nem mesmo nos EUA, a opinião pública se mobilizou para fazer do desarmamento nuclear e da não-proliferação temas da mais alta prioridade. O resultado é um presidente pronto para assumir uma campanha de longo prazo para acabar com a ameaça existencial que as armas atômicas representam, mas desprovida de seguidores em número suficiente para concretizar esse objetivo.

Propositores e críticos do desarmamento interpretaram de forma seletiva a visão definida por Obama em Praga - às vezes distorcendo-a.

Na esquerda, há quem espere (e na direita há quem tema) que a intenção dele seja o estabelecimento de um acordo para proibir definitivamente as armas nucleares, ou que ele tenha em mente um desarmamento nuclear unilateral por parte dos EUA. Alguns acreditam que todos os obstáculos ao desarmamento global finalmente cederão de alguma forma, agora que os EUA têm um líder esclarecido. Alguns alegam que com isso ele deixará seus aliados na Europa e na Ásia vulneráveis à Rússia, China, Coreia do Norte e Irã.

Na verdade, Obama não tinha em mente nem a caricatura da esquerda nem a da direita. Como ele enunciou claramente em Praga, é provável que as armas nucleares não possam ser eliminadas nas próximas décadas, e os EUA manterão sua capacidade de dissuasão nuclear enquanto outros países possuírem ou ameaçarem adquirir tais armas. A estratégia divulgada pelo Pentágono na terça-feira nega claramente a possibilidade de um desarmamento nuclear unilateral dos EUA. A mensagem é reforçada pelo aumento do orçamento destinado à reforma da infraestrutura dos laboratórios de armas atômicas.

Passos. Em vez disso, Obama menciona a necessidade de todos os países que atualmente possuem armas nucleares ou delas dependem para manter seu poder de dissuasão adotarem os passos necessários para sublimar o sentimento de ameaça que os leva a buscar a posse dessas armas. O documento reafirma o interesse dos EUA num mundo sem armas atômicas e claramente reduz o papel que elas desempenham na política de segurança americana. A estratégia estabelece a necessidade de debates de alto nível com Rússia e China para promover a estabilidade e a cooperação que poderiam levar a uma redução global no número de armas nucleares e à cooperação na construção da segurança regional. Esse é um desafio multilateral.

É apenas realista imaginar que a eliminação final dos arsenais atômicos deve ocorrer dentro de um processo coevolutivo. Melhorias nas relações de segurança entre os principais países facilitarão o controle de armas e a adoção dos passos para o desarmamento, o que por sua vez produzirá mais avanços nas relações de segurança e assim por diante.

O novo acordo Start ajuda a melhorar as relações entre a Rússia e os EUA, mas as diferenças na capacidade destes países e as dúvidas sobre suas intenções tornarão os próximos passos mais difíceis. Os países da Otan temem as provocações russas e as chamadas "armas nucleares táticas", enquanto a Rússia pretende mantê-las em seu arsenal até que o equilíbrio militar convencional seja reajustado e o país receba garantias sobre a capacidade dos futuros sistemas americanos de defesa antimísseis.

EUA e China apenas começaram a explorar como suas relações estratégicas podem estabelecer uma cooperação no longo prazo. China, Índia e Paquistão ainda não imaginaram o tipo de processo de construção de confiança e controle de armamentos que seriam necessários para reverter a corrida armamentista regional. No Oriente Médio, a disposição de Israel de avançar para o desarmamento nuclear depende do estabelecimento de uma paz duradoura com seus vizinhos e de garantias verificáveis de que o Irã e outros países da região não possam adquirir armas nucleares.

Público. Sob muitos aspectos, os países desprovidos de armas nucleares foram o principal público que Obama buscou influenciar com o discurso feito em Praga. Até certo ponto ele foi bem sucedido. Ainda assim, os líderes do Brasil, África do Sul, Indonésia, Malásia e outros países influentes e desprovidos de armas nucleares não aceitaram a lógica de Obama, segundo a qual o avanço no desarmamento precisa ser acompanhado por um avanço no fortalecimento do regime de não-proliferação. A nova estratégia reforça a garantia feita pelos americanos aos países desprovidos de armas atômicas, de que os EUA "não usarão e nem ameaçarão usar armas nucleares" contra eles.

Dois eventos que serão realizados em breve indicarão se Obama obteve progresso com os países desprovidos de armas nucleares. Na semana que vem, ele será o anfitrião de uma reunião de líderes de 40 países para aumentar a cooperação na prevenção do terror atômico. Em maio, os signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear serão reunidos em Nova York para revisar o pacto. Será pedido a todos que se comprometam em vigiar seu material atômico e a impedir o contrabando e o terrorismo nuclear. Será que eles corresponderão? Será que tomarão medidas para construir os sistemas de verificação e controle do material necessários não só para impedir o terrorismo atômico, mas também para viabilizar a fiscalização do desarmamento nuclear? A conferência de revisão da não-proliferação em maio exigirá um consenso entre os quase 200 países participantes para possibilitar a criação de novas regras ou o reforço das atuais.

Será que o consenso expressará um apoio forte e duradouro ao regime de não-proliferação, ou em vez disso manifestará sua contrariedade em relação à posição americana de contenção e recriminação? Será que os principais países desprovidos de armas nucleares vão apoiar a adoção universal de protocolos de inspeção mais fortes por parte da Agência de Energia Atômica Internacional, necessários para aumentar a confiança de todos em relação à impossibilidade de a proliferação ocorrer na medida em que a tecnologia nuclear se espalha para novos mercados? Em palavras e atos, Obama mostra que gostaria de exercer uma maior pressão pela redução dos perigos nucleares, coisa que ele sabe que não pode ser realizada com critérios ambíguos e acordos que beneficiem apenas aos EUA. Na ausência de forças determinadas a dar sequência à ofensiva iniciada por ele, o presidente corre o risco de ver-se isolado. A pergunta mais importante é se aqueles que apoiam o programa do presidente vão se tornar mais ativos ou se vão se afastar da causa, resignados e passivos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É VICE-PRESIDENTE DO FUNDO CARNEGIE PARA A PAZ INTERNACIONAL

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