Estratégia visa a reduzir baixas e amputações

Hospitais de guerra são vitrine do sofrimento de soldados mutilados em ações que poderiam ter sido feitas à distância

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Era quase 1 hora da tarde do dia 11 de agosto de 2009. O tenente Joseph Guyton tinha acabado de sair de sua base, em Kandahar, província que é o reduto do Taleban no Afeganistão. Guyton estava no banco do passageiro do tanque Stryker, quando sentiu a explosão bem debaixo de seu assento. Era uma bomba das grandes, um explosivo improvisado que foi acionado quando o tanque passou por cima das placas de pressão. Foi um barulho muito alto e veio um monte de poeira. Guyton não sentiu nenhuma dor. "Não foi tão mau", pensou, em um primeiro momento. Ele olhou para baixo, e viu que suas pernas estavam "bagunçadas". Havia sangue. Viu o branco do osso da sua canela esquerda. Não conseguiu ver a perna direita. Tentou usar o rádio para pedir ajuda.

Sua lembrança seguinte veio só dois dias depois. Guyton acordou em um hospital na Alemanha. Suas duas pernas haviam sido amputadas. A direita, acima do joelho. A esquerda, abaixo.

Guyton é um dos 967 soldados americanos que sofreram amputações por causa de ferimentos de guerra no Iraque e no Afeganistão. Os feridos de guerra vão todos para o Walter Reed Army Medical Center, em Washington, um centro de excelência em tratamento e reabilitação para veteranos desde a 1.ª Guerra. Mais de 8 mil feridos das guerras do Iraque e do Afeganistão passaram pelo Walter Reed. Quase 300 tiveram dois membros amputados.

Um dos objetivos da disseminação no uso de aeronaves não-tripuladas no Afeganistão é reduzir o número de feridos e, principalmente, de amputados.

Guyton foi mandado para o Afeganistão para ficar 12 meses. Voltou depois de um mês e meio, direto para o Walter Reed.

"Quando acordei na Alemanha e olhei para as minhas pernas, só conseguia pensar: minha mulher não vai gostar disso", conta. Ele havia acabado de se casar, aos 29 anos.

No início, Guyton só andava de cadeira de rodas. Em outubro, pôs as próteses e, com muita fisioterapia, começou a andar.

Guyton formou-se em história pela Universidade de Virgínia. Agora, está pensando em prestar direito para arrumar um emprego que pague melhor e não exija muita mobilidade. Tem um carro Honda CRV adaptado, financiado pelo Exército.

Sente muita falta de fazer esportes. Outro dia, foi esquiar. Usou um monoesqui, foi sentado e não achou tão divertido. Também tentou jogar golfe e agora está animado porque foi liberado para começar a correr.

"Mas o duro é que, no final das contas, eu não tenho pernas. Depois que tiro as próteses, ou me arrasto pelo chão, ou vou para a cadeira de rodas. O fato é que não terei pernas pelo o restante da vida."

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