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Estrela cadente mexicana

Faz quatro semanas que as autoridades do México vasculham a Tierra Caliente (Terra Quente, em tradução do espanhol), como a região sul do país é conhecida popularmente. A operação mobiliza milhares de policiais e cães farejadores, voluntários e até as Forças Armadas.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2014 | 02h01

Todos os envolvidos buscam pistas dos 43 estudantes que foram para a rua em protesto cívico, desagradaram a um cacique político de Iguala, no Estado de Guerrero, e simplesmente evaporaram no deserto mexicano.

O procurador-geral, Jesús Murillo Karam, não tem dúvida: os estudantes foram presos pela polícia local e entregues a traficantes que dominam a região a mando da classe política local. Do paradeiro dos alunos, ninguém sabe - e poucos falam no assunto. As buscas concentram-se nos cemitérios clandestinos que brotam nesse cantinho da Terra Quente como cactos no agreste. Já foram desenterrados dezenas de corpos carbonizados, mas nenhum deles foi identificado como sendo dos estudantes desaparecidos até a sexta-feira.

Protestos varreram o país e, na semana passada, um grupo de manifestantes ateou fogo na sede do governo municipal em Iguala. Seu alvo era o prefeito José Luis Abarca Velázquez, que teria ordenado a prisão e o sumiço dos estudantes - tudo para que não tumultuassem um evento patrocinado pela sua mulher, María de los Ángeles Pineda. Foi ela, segundo Karam, que conduziu toda a operação, entregando os militantes ao cartel Guerreros Unidos, a quem a primeira-dama recorria com frequência para serviços especiais.

A história abalou a opinião mexicana, que dificilmente se choca após os sete anos de guerra contra o narcotráfico que já deixou 70 mil mortos e estendeu ainda mais o caminho para a paz. Os detalhes do caso de Iguala ainda são escassos, mas os mexicanos já viram esse filme. Trata-se - tudo indica - de mais um flagrante de promiscuidade entre políticos e bandidos, que compartilham os dividendos da droga para se encastelar no poder, cada qual em seu palácio.

Também abateu em pleno voo o governo de Enrique Peña Nieto, jovem presidente reformista que colheu aplausos internacionais pela ousada bateria de reformas econômicas aprovadas em agosto. Sua iniciativas pretendem revolucionar a indústria de petróleo e de telecomunicações, abrindo o mercado para investidores de porte global. Empolgados com a modernização, os analistas já anteciparam um novo "momento mexicano" nas Américas.

Não que Peña Nieto ou seu partido, o PRI, estejam implicados no caso. O prefeito Abarca, que fugiu após o desaparecimento dos estudantes, era da legenda opositora, o Partido da Revolução Democrática, que acaba de expulsá-lo. No entanto, esses são detalhes. Para os mexicanos, o crime de Iguala é um sinal de que o velho México, loteado por caudilhos e criminosos, desbastado pela impunidade, acossado pela violência, ainda está vivo.

Peña Nieto não é o único idealizador de reformas a esbarrar no paredão da realidade política. Os últimos presidentes peruanos - Alejandro Toledo, Alan García e, agora, Ollanta Humala - conseguiram a duras penas equilibrar a economia, aumentar o investimento e criar empregos. Mas também antagonizaram todas as classes políticas e deixaram o poder pela porta dos fundos.

O empresário Sebastián Piñera assumiu o Chile com fama de supergerente. Esqueceu-se da política e viu-se cercado por milhões de universitários, que foram às ruas contra o diploma caro e a favor do ensino gratuito. Foi o suficiente para paralisar Piñera, que saiu do palácio com popularidade semelhante à do ditador Augusto Pinochet.

Eleito em 2012, Peña Nieto está longe de se entregar. Mas em sua pressa de modernizar a economia, preteriu o México: o crime, a corrupção e as instituições corroídas. Sem essas reformas, nem o mais brilhante momento mexicano deve durar.

É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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