Felipe Frazão
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Estrutura de atendimento do Hospital Geral de Roraima está à beira de um colapso

Em menos de 24 horas a unidade recebeu 18 pacientes venezuelanos, vítimas de fogo, quase todos em estado grave

Ascom/Sesau, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 19h08

"Isso não é um problema só de Roraima, é um problema do Brasil". Foi assim que o governador do Estado, Antonio Denarium, classificou a situação gerada pelos conflitos na Venezuela, e que estão impactando gravemente o sistema de saúde de Roraima. Por isso, na manhã deste domingo, 24, Antonio Denarium anunciou o decreto de calamidade na Saúde.

"Já estive em contato com o ministro da Saúde que se mostrou sensível à situação e com isso, esperamos contar com o apoio do Governo Federal nos próximos dias. Decretamos a situação de calamidade na saúde de Roraima. Precisamos de ações urgentes para abastecer o HGR e fazer com que a Unidade possa prestar um atendimento digno a todos", disse o governador do Estado, Antonio Denarium.

O maior Hospital do Estado está à beira de um colapso. Em pouco mais de 24 horas, o HGR (Hospital Geral de Roraima) recebeu 18 pacientes venezuelanos em estado grave, vítimas dos conflitos que ocorrem na Venezuela. A cidade de Santa Elena de Uairén não possui qualquer estrutura que comporte esse tipo de atendimento, e por isso todos os feridos atravessam a fronteira em ambulâncias venezuelanas e são atendidos, num primeiro momento, em Pacaraima para estabilização.

Como são pacientes graves, praticamente todos com ferimentos provocados por arma de fogo, eles precisam de cuidados mais específicos, e por isso são transferidos para Boa Vista.

Uma das nossas preocupações das autoridades de Saúde do Estado é que no momento a fronteira está fechada, e os feridos não estão sendo transportados para o Brasil. No momento em que ela for reaberta, toda essa demanda reprimida virá de uma só vez, impactando ainda mais na oferta dos serviços de saúde.

COLAPSO NA SAÚDE - De acordo com o secretário estadual de Saúde, Ailton Wanderley, a lotação do HGR está acima da capacidade. "Por isso precisamos alocar pacientes nos corredores das enfermarias para que o Grande Trauma tenha condições de atender pacientes venezuelanos e brasileiros em estado crítico de saúde. Nossa prioridade é para os casos mais graves, independente da nacionalidade. A prioridade é a vida", detalhou Ailton Wanderley, secretário estadual de Saúde.

Além disso alguns pacientes devem ser transferidos para o Hospital das Clínicas. Roraima vivencia uma crise no abastecimento das Unidades de Saúde provocada pela falta de contratos de aquisição de materiais na gestão passada. "Estamos concluindo as compras emergenciais e anuais, mas agora com essa situação, muita gente em estado grave está vindo para o HGR, impactando mais ainda o atendimento de saúde no nosso Estado", complementou Wanderley.

No começo da noite deste sábado, 23 de fevereiro, das seis salas de cirurgia do HGR, quatro estavam ocupadas por venezuelanos feridos nos conflitos do lado de lá da fronteira, com a previsão da chegada de outros pacientes também em estado grave. Além disso todos os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) estão ocupados.

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"Quando esses pacientes saírem do centro cirúrgico podem precisar de um leito de UTI, e já não temos mais. Se a situação na Venezuela piorar e não recebermos nenhum tipo de apoio, a saúde em Roraima vai colapsar", disse Roger Caleffi, diretor geral do HGR.

Por conta dessa superlotação, pacientes em coma e que precisam respirar com a ajuda de aparelhos estão em leitos no Trauma, aguardando uma vaga na UTI.

"Mesmo com todas as dificuldades do Hospital, nesses dois dias nós temos um empenho muito grande de todos os profissionais, além do envolvimento total dos setores administrativo e assistencial do HGR. Somos o único hospital de retaguarda e porta aberta do Estado que realiza esse tipo de serviço, e mesmo com a demanda da Venezuela precisamos garantir condições de atendimento dos brasileiros", destacou Roger Caleffi.

APOIO EM PACARAIMA - A demanda por insumos também é uma preocupação para o município de Pacaraima. O Hospital Délio Oliveira Tupinambá é a primeira Unidade de Saúde do lado brasileiro da fronteira, onde esses pacientes recebem os primeiros atendimentos e são estabilizados para a remoção até Boa Vista.

Além de já sentir os impactos da migração de venezuelanos para o Brasil, as equipes do Hospital estão contando com apoio de profissionais e insumos da secretaria de Saúde de Pacaraima, além de outros municípios, como Boa Vista, para o transporte de pacientes.

A estrutura do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) também está sendo utilizada para reforçar as ações em Pacaraima. "Recebemos apoio de Alto Alegre, Pacaraima, Boa Vista e da Central do Samu. São viaturas e profissionais que se voluntariaram para ajudar, devido ao agravamento da situação na fronteira", explicou Roger Caleffi.

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"Estamos em contato com o Exército e com o ministro da Saúde. Caso a situação piore ainda mais, vai ser preciso transferir esses pacientes mais graves para Unidades fora do Estado, ou para unidades particulares", finalizou Ailton Wanderley.

NOVOS CASOS - Já passavam das 22h deste sábado quando outros quatro pacientes venezuelanos, vítimas dos conflitos na Venezuela, deram entrada no HGR. São eles: Carlos Adrian Herrera Bedoya, 16 anos; Carlos Eduardo Farias, 45 anos; Yitzy Josefina Arrieta Aular, 35 anos; e Jorge Javier Gonzalez Parra, de 40 anos.

RETROSPECTIVA - Em pouco mais de 24 horas o HGR recebeu 18 pacientes venezuelanos em estado grave, a maioria com ferimentos provocados por arma de fogo. Além desses que deram entrada na Unidade na noite de sábado, 23, outros cinco pacientes foram atendidos no Brasil. Os primeiros procedimentos foram realizados em Pacaraima, no Hospital Délio Oliveira Tupinambá.

Omar Fernando Casique Ortega, 59 anos; Chei Alexis Fernandez Suarez, 40 anos; Anderson Francisco Rojas Casado, 19 anos; Carlos José da Silva Salazar, 27 anos; e Luis Jose da Silva Salazar, de 27 anos deram entrada no HGR no início da noite desse sábado. Quatro deles precisaram passar por cirurgia.

Nesta sexta-feira, 22 de fevereiro, o HGR recebeu 9 pacientes da Venezuela, vítimas de conflito em uma localidade distante cerca de 70 quilômetros da fronteira com o Brasil.

São eles: Fidel Gabriel Pulido Fernandez, 36 anos; Geber Alfredo Perez Rivero, 21 anos; Kliver Alfredo Perez Rivero, 24 anos; Rolando Garcia Martinez, 52 anos; Alfredo Perez, 48 anos; Evencio Sosa, 44 anos; Onesimo Rigoberto Fernandez, 48 anos; Alger Romero, 28 anos; e Lino Benavides, de 34 anos.

Lino Benavides teve traumatismo craniano moderado, devido a um foco de sangramento evidenciado na tomografia de crânio. Ele está em observação no Grande Trauma, com quadro estável. Alger Romero teve um trauma de face leve, foi avaliado e já liberado pela equipe do HGR.

Em relação aos demais pacientes, dois estão em estado grave. Um deles, Kliver Perez, está na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Ele teve lesão no tórax por arma de fogo e no abdômen com múltiplas lesões no fígado e intestino.

O outro paciente grave, Rolando Garcia Martinez, está no Grande Trauma. Ele está sedado e respira com ajuda de aparelhos. O quadro de saúde é considerado grave. Os demais seguem internados e o estado de saúde é considerado estável. 

Em Pacaraima, no Hospital Délio Tupinambá, foram atendidos dois pacientes nessa sexta-feira, 22. Eles estavam com escoriações leves e foram liberados.

No total, até o momento, 20 pacientes venezuelanos receberam atendimento médico em Hospitais Públicos de Roraima e nenhuma morte foi registrada. /ASCOM E SESAU

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