Reprodução/Facebook
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Estudante sueca evita deportação de afegão ao impedir decolagem de avião

Elin Ersson comprou passagem para o mesmo voo em que homem de 52 seria enviado para a Turquia e se recusou a sentar até que ambos fossem retirados do avião; iniciativa irritou alguns passageiros, mas acabou apoiada pela maioria dos que estavam na aeronave

O Estado de S.Paulo

25 Julho 2018 | 10h38

GOTEMBURGO, SUÉCIA - Em todo o mundo, de Chicago a Munique e passando por pequenas cidades, como Roskilde, na Dinamarca, aeroportos se tornaram centros de protestos políticos contra a deportação de imigrantes que buscam asilo.

Ativistas usam diferentes estratégias, como bloquear entradas dos aeroportos, protestar nos arredores e nas cercas de segurança dos terminais e até mesmo invadir a pista em suas tentativas de impedir a decolagem de aviões com deportados.

Nesta semana, uma estudante sueca tentou com sucesso uma abordagem diferente. Quando Elin Ersson descobriu que um afegão seria deportado da cidade de Gotemburgo, na Suécia, na segunda-feira, ela comprou uma passagem para o mesmo voo. Uma vez dentro da aeronave, Elin se recusou a sentar, resistindo de pé no corredor do avião, até que o homem de 52 anos fosse removido da aeronave.

O dramático ato de desobediência civil de Elin, transmitido ao vivo em sua página no Facebook, fez com que o voo fosse atrasado em duas horas, segundo a Swedavia Airport, companhia responsável pelo terminal de Gotemburgo. No fim, os esforços da jovem tiveram o efeito desejado, pelo menos por enquanto.

"Não vou me sentar até que esta pessoa seja removida do avião", diz Elin durante a transmissão pela internet, que já foi vista mais de 2,5 milhões de vezes. "O piloto tem o direito de dizer que ele (o passageiro) não será autorizado a continuar no avião."

A estudante afirmou para os demais passageiros do voo, que seguia para a Turquia, que se o homem fosse deportado para seu país de origem, "provavelmente seria morto". Enquanto ela continuava com a filmagem e se recusava a sentar, algumas aeromoças e alguns passageiros tentaram convencê-la a desistir. "Sente-se, nós queremos voar", diz uma voz ouvida no vídeo.

"Eu não quero que este homem perca sua vida só porque você não quer perder o seu voo", respondeu a estudante em determinado momento. Elin também insistiu que o que estava fazendo era legal. Na maior parte do tempo, ela mostrou apenas seu rosto, evitando expor outras pessoas.

Em determinado momento, um passageiro conseguiu retirar o telefone de Elin, mas uma aeromoça devolveu o aparelho para a estudante. "São as regras do seu país", reclamou outra pessoa.

"Estou tentando mudar as regras do meu país. Não está certo enviar uma pessoa para o inferno", responde Elin.

Já perto do fim da transmissão, de quase 14 minutos, é possível ouvir também uma salva de palmas em apoio à iniciativa da jovem. "Estamos com você", disse, em inglês, um homem turco. 

Pouco depois, a estudante começou a chorar ao perceber que um grupo de jogadores de futebol que estava no fundo do avião também se levantou para apoiar seu protesto. "Não sei se eles estão tentando ouvir o que eu estou dizendo, mas enquanto estivermos de pé, este avião não pode decolar."

Pouco depois, uma das aeromoças disse que "tanto a estudante quanto o passageiro (afegão) não seriam mais autorizados a continuar na aeronave".

Segundo um porta-voz da Swedavia Airports, o afegão foi escoltado por autoridades suecas e a jovem deixou o avião por conta própria.

Não está claro o que aconteceu com os dois depois, mas no Facebook a estudante afirmou que a deportação foi "interrompida temporariamente". "Só havia uma pessoa neste voo hoje, mas isso acontecerá mais vezes."

De acordo com a emissora alemã Deutsche Welle (DW), o homem afegão permanece sob custódia das autoridades, mas será, eventualmente, deportado para seu país.

Apesar da alegação da estudante de que seu protesto era legal, autoridades suecas afirmaram à DW que Elin pode ser multada ou até mesmo presa por se recusar a obedecer as ordens do piloto do avião.

O protesto da estudante foi apenas o mais recente do tipo em um momento em que muitos países da União Europeia (UE) estão intensificando cada vez mais o controle em suas fronteiras em meio a uma crise global de refugiados.

Os afegãos continuam entre os principais grupos de requerentes de asilo. Entre o primeiro trimestre de 2017 e primeiro trimestre deste ano os países da UE receberam 37.795 novos pedidos de asilo de pessoas provenientes do Afeganistão, segundo o EuroStat. Apenas Iraque e Síria tem cifras maiores. / WASHINGTON POST

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