Estudantes acampados pedem mediação da ONU na crise

Barracas diante da sede das Nações Unidas em Caracas têm posto médico e alimentação para os manifestantes

CARACAS, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2014 | 02h05

Universitários de várias partes da Venezuela se mantêm em vigília há 14 dias na frente do prédio da ONU em Caracas. Ocupam a calçada diante do edifício e uma das pistas da Avenida Francisco de Miranda com mais de cem barracas e uma estrutura para atender os manifestantes. Opositores ao governo de Nicolás Maduro, os estudantes pedem envolvimento das Nações Unidas na crise.

"Já tivemos duas reuniões com representantes da ONU, em que nos prometeram o envio de uma missão de direitos humanos. Vamos ficar aqui acampados até que a missão chegue", afirmou ao Estado Wilner Colmenares, de 23 anos. O estudante viajou de San Cristóbal, capital do Estado de Táchira, a Caracas para se engajar no Movimento Nacional de Jovens Venezuelanos - mais conhecido como "Resistência" - desde seu primeiro dia.

O movimento afirma ser pacífico. Na noite da quarta-feira, porém, seu acampamento foi atacado pela Guarda Nacional Bolivariana (GNB), que usou canhões d'água, blindados, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para tentar dispersar o protesto. Os estudantes responsáveis pela segurança da ocupação se ajoelharam com as mãos para o alto.

Jesús Galantón, aluno de artes gráficas de 19 anos, foi um dos 12 presos. O estudante relatou que os detidos foram agarrados pelos guardas e jogados no chão, para serem fotografados. Depois, de acordo com Galantón, os agentes os levaram ao comando da GNB e os manifestantes foram trancados em uma capela sem receber água nem comida. No dia seguinte, passaram por interrogatório, foram fichados e liberados. "Tomei um banho em casa e voltei para cá. Nós temos razão."

O grupo acampado toma suas precauções. Há câmeras instaladas em vários pontos, para a gravação de eventuais abusos. Em caso de ataque das autoridades, a recomendação dos líderes é que todos se sentem, com as mãos para cima, cantem o hino nacional e, por fim, rezem o Pai Nosso até que as forças de segurança deixem o local.

No acampamento há um altar e, todas as noite, os estudantes rezam juntos. Foram instaladas barracas de alimentos e de assistência médica, além de banheiros químicos. O espaço público é varrido e mantido limpo pelos manifestantes.

Um médico especializado em traumatologia, que não quis se identificar por temer represálias, afirmou que atende ali também aos manifestantes concentrados na Praça Altamira, a cerca de 200 metros. Os casos mais comuns são de intoxicação por gás lacrimogêneo e ferimentos ocasionados por disparos de balas de borracha.

Embora apoiado pelos partidos de oposição, o Movimento Nacional dos Jovens Venezuelanos não se alia oficialmente a nenhuma legenda e se distancia, de forma cordial, de líderes estudantis engajados na política, como Gaby Arellano, militante do Vontade Popular. "Não confiamos em todos os líderes políticos da oposição, só nos mais jovens, como Leopoldo López", afirmou o estudante de música Pedro Jesús Gómez, de 21 anos. / D.C.M.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.