Estudantes aceitam diálogo no Chile

Após manifestações da semana passada, líderes universitários se reunirão com presidente Piñera para discutir reforma educacional

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

SANTIAGO

Depois de uma greve geral de dois dias e da morte de um adolescente, o Chile viveu um domingo de trégua à espera do diálogo entre estudantes e governo. Amanhã, líderes universitários estarão frente a frente com o presidente Sebastián Piñera no Palácio de La Moneda para discutir a reforma no sistema educacional.

O diálogo foi proposto pelo próprio Piñera, presidente mais impopular desde a redemocratização, em 1990 - apenas 26% dos chilenos aprovam seu governo. O convite foi aceito ontem por Camila Vallejo, líder da Confederação dos Estudantes do Chile, e pelo representante dos professores, Jaime Gajardo.

Camila, no entanto, disse que o encontro não é uma "mesa de trabalho, de diálogo ou de negociação". "É só um encontro com o presidente", afirmou Camila. Antes mesmo de começar, a reunião já está marcada pela desconfiança entre os interlocutores. Os estudantes já declararam que querem a cabeça do ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter.

Caso o diálogo prospere, o Chile será o primeiro pais latino-americano a formular uma nova política de educação após uma grave crise política. Os estudantes exigem um ensino público, gratuito e de qualidade.

Piñera já se manifestou sobre o tema, afirmando que "nada é de graça". Economistas do governo já tentaram atenuar o impacto de sua frase, dizendo que toda a sociedade tem de pagar pelos estudantes.

Desde o fim da greve geral, no entanto, o leque de reivindicações foi ampliado e inclui o esclarecimento da morte do jovem Manuel Gutiérrez, de 16 anos, que levou um tiro no peito, aparentemente de policiais - ele foi sepultado ontem em Santiago.

Mesmo que não haja uma grande demonstração marcada para os próximos dias, os chilenos estão vivendo um dos momentos mais críticos do país desde a queda de Salvador Allende, em setembro de 1973.

Desta vez, porém, o movimento popular tem uma base muito maior e mais diversificada de ações. Flashmobs, panelaços, corridas, comícios relâmpagos, tudo está sendo feito com aviso aos participantes pela internet.

A greve da semana passada envolveu principalmente funcionários públicos. A esquerda apoia o movimento, mas há um certo constrangimento, porque as reivindicações não foram atendidas nos 20 anos em que a coalização centro-esquerdista, a Concertação, esteve no poder.

Os tradicionais partidos de centro-esquerda tentam justificar a falta de reformas e colocam a culpa no bloqueio parlamentar realizado pelos conservadores. Isabel Allende, senadora e filha do ex-presidente, também disse, em entrevista ao jornal uruguaio El Observador, que as reformas não saíram porque os conservadores não quiseram - mas pediu diálogo aos estudantes.

O clima é de trégua, mas as barricadas dos estudantes rebeldes foram mantidas. Nas ruas de Santiago, o cenário ainda guarda resquícios da turbulenta greve geral. A Universidade Tecnológica ainda tem várias cadeiras largadas na porta, assim como colégios secundários. Apesar do diálogo entre Piñera e os estudantes, tudo indica que a semana será difícil. A experiência dos ingleses, contudo, mostra que o tempo joga sempre a favor das grandes mobilizações de rua.

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