Estudantes da Venezuela

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Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2014 | 02h07

As palavras também acabam se desgastando com o uso. Frequentemente, falamos em liberdade, democracia, direitos humanos, solidariedade, mas essas palavras não significam quase nada porque as utilizamos para expressar tantas coisas, ou tão poucas, que se desvalorizam e esmaecem a ponto de se converterem em meros ruídos. No entanto, de repente, circunstâncias sociais e políticas agora voltam a carregá-las de conteúdo e de verdade, a impregná-las de sentimento e razão, como se ressuscitassem e expressassem novamente os sentimentos de todo um povo.

É o que vivo nestes dias, na Venezuela, ouvindo dirigentes estudantis e líderes da oposição, homens e mulheres comuns, e correntes que nunca fizeram política e agora a fazem, pondo em risco o trabalho, a tranquilidade, a liberdade e até a vida, impelidos pela consciência de que, se não houver um sobressalto democrático nacional que o desperte e mobilize, seu país acabará na ruina, numa ditadura totalitária e irá ao encontro da pior catástrofe econômica de toda a sua história.

Embora o processo tenha começado no passado - as últimas eleições viram crescer de maneira gradual a oposição ao regime chavista -, a mudança qualitativa se deu no início de fevereiro, em San Cristóbal, no Estado de Táchira, quando a tentativa de estupro de uma jovem na Universidade dos Andes levou os estudantes a convocar uma grande manifestação contra a falta de segurança, os sequestros, os desmandos dos sicários e a sistemática restrição das liberdades cívicas.

O regime decidiu aplicar o punho de ferro. A Guarda Nacional e as forças paramilitares - indivíduos mascarados armados de pistolas, facas e paus, montados em motocicletas - atacaram os estudantes, os espancaram e balearam, matando vários deles. Dezenas foram detidos, levados a quartéis distantes, onde foram torturados com choques elétricos, sodomizados com paus e fuzis, e as moças violadas.

A ferocidade da repressão revelou-se contraproducente. A mobilização estudantil estendeu-se por todo o país e gigantescas manifestações populares em todas as cidades e povoados da Venezuela expressaram seu repúdio ao regime e solidariedade às vítimas.

Em toda parte foram erguidas barricadas e o país inteiro pareceu viver um despertar libertário. Os 500 advogados voluntários que constituíram o Fórum Penal Venezuelano, para defender os detidos e denunciar os assassinatos, os desaparecimentos e torturas, elaboraram um informe que documenta com abundância de detalhes a selvageria com que os herdeiros do comandante Hugo Chávez enfrentam essa formidável mobilização que modificou a correlação de forças na Venezuela, atraindo para as fileiras da oposição uma inequívoca maioria de venezuelanos.

Minha impressão é que esse movimento é irrefreável, que mesmo se Maduro e seus cúmplices procurassem esmagá-lo com um banho de sangue, fracassariam. A matança só contribuirá para acelerar sua queda. A liberdade ganhou as ruas da terra do verdadeiro Simón Bolívar (não sua caricatura chavista) e o apregoado "socialismo do século 21" está ferido de morte.

Mazelas. Quanto mais rápido ele desaparecer, melhor será para a Venezuela e para a América Latina. O regime que, em seu empenho frenético em prol da coletivização e da estatização do país, empobreceu e destruiu uma das nações potencialmente mais ricas do mundo, ficará como um caso emblemático dos desvarios aos quais pode conduzir a cegueira ideológica no nosso tempo.

Além de registrar uma das inflações mais altas do mundo, a Venezuela é o país de menor crescimento em todo o continente, o mais violento, aquele em que a asfixia burocrática se reproduz mais rapidamente, a ponto de manter numa paralisia quase total a administração pública.

O regime de tabelamentos, preços "justos", intervencionismo estatal esvaziou todas as lojas de gêneros de primeira necessidade e mercados de produtos. Além disso, o mercado paralelo e o contrabando alcançaram extremos impressionantes. A corrupção é o único item em que o país avança a passos de gigante.

Desconcertado pela mobilização popular encabeçada pelos estudantes que não consegue esmagar com a repressão, o governo de Maduro, com a cumplicidade dos países da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), procura ganhar tempo, abrindo conversações de paz.

A oposição agiu com propriedade fazendo-se presente, mas sem desmobilizar-se e exigindo, como prova de boa-fé governamental, pelo menos a libertação dos presos políticos, a começar por Leopoldo López, que, ao colocá-lo numa prisão, transformou, segundo todas as últimas pesquisas, juntamente com María Corina Machado, no líder político mais popular da Venezuela.

Conheci sua mãe e sua esposa, duas mulheres admiráveis, que enfrentam com coragem incomum a perseguição de que são vítimas por estarem na vanguarda da batalha pacífica da oposição a fim de impedir o desaparecimento dos últimos resquícios de liberdade que ainda restam na Venezuela.

No entanto, gostaria de ressaltar, mais uma vez, o papel fundamental desempenhado pelos estudantes na grande façanha libertária que a Venezuela vive. A revolução chavista deve ser a única de sua história que conseguiu, desde o início, despertar a hostilidade quase geral de intelectuais, escritores e artistas, bem como dos estudantes, que, neste caso, deram muito mais prova de lucidez e faro político do que seus colegas latino-americanos no passado.

É estimulante e rejuvenescedor ver que o idealismo, a generosidade, o desprendimento, o amor pela verdade, a coragem estão tão vivos entre a juventude venezuelana. Os que, frustrados pela falta de ação das lutas políticas em seus países em que predomina uma democracia medíocre e rotineira, tornam-se cínicos, desprezam a política e optam pela filosofia do "quanto pior, melhor", deveriam observar o método de luta dos jovens venezuelanas, por exemplo, na Avenida Francisco de Miranda, no centro de Caracas, onde rapazes e moças convivem há várias semanas, organizando conferências, debates, seminários, explicando aos transeuntes seus projetos e anseios para a futura Venezuela, quando a liberdade e a legalidade retornarem e o país despertar do pesadelo em que vive há quinze anos.

Liberdade. Os que chegaram à deprimente conclusão de que a política é uma tarefa imunda, de indivíduos medíocres e ladrões, que, portanto, é preciso virar-lhe as costas, venham para a Venezuela. Falando, ouvindo e aprendendo com estes jovens, comprovarão que a ação política pode ser também nobre e altruísta, uma maneira de fazer frente à barbárie e derrotá-la, de trabalhar pela paz, a convivência e a liberdade, sem dar tiros nem jogar bombas, com argumentos e palavras, como fazem os filósofos e os poetas, criando a cada dia gestos, espetáculos, ideias, como fazem os artistas, que comovam e eduquem os outros e os embarquem nesta tarefa libertária.

Nestes dias, centenas de milhares, milhões de jovens venezuelanos estão dando à América Latina e ao mundo inteiro o exemplo de que ninguém deve renunciar à esperança, de que um país, não importa quão profundo seja o abismo no qual a demagogia e a ideologia o precipitaram, sempre pode libertar-se desta armadilha e redimir-se.

Alguns destes jovens já passaram pela prisão e sofreram torturas, e alguns talvez venham a morrer, como os cerca de 50 companheiros que já perderam a vida pela mão dos assassinos encapuzados com os quais Maduro pretende silenciá-los.

Não os calarão, mas não é justo que estejam sós, que os governos e as organizações democráticas não os apoiem e, ao contrário, façam causa comum com seus algozes. Porque a batalha mais importante pela liberdade dos nossos dias se trava nas ruas da Venezuela e tem o rosto juvenil.

*Mario Vargas Llosa é Prêmio Nobel em Literatura.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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