Estudantes desaparecidos estão mortos, mas muitas perguntas persistem

As autoridades mexicanas dizem "certeza" de que os 43 alunos da escola normal que desapareceram no Estado de Guerrero há quatro meses estão mortos.

Whitney Eulich*, O Estado de S. Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 16h28

O procurador-geral Jesus Murillo Karan reafirmou o relato dos fatos feito pelo governo pela primeira vez em novembro, fornecendo mais detalhes sobre o caso, reunidos a partir de depoimentos de detidos. Murillo apresentou fotos de restos mortais recolhidos em valas nos arredores de Iguala e clipes de confissões gravadas.

"Sem dúvida as evidências nos permitem determinar que os estudantes foram raptados, mortos, queimados e lançados no Rio San Juan", disse Murillo. Segundo ele, 99 suspeitos foram detidos, 39 confissões foram feitas e centenas de testemunhos recolhidos.

Mas para as famílias das vítimas os fatos ocorridos naquela noite continuam incertos. Muitos mexicanos questionam a vontade e a capacidade do governo de solucionar esses crimes horripilantes.

"O que o governo deseja é encerrar o caso", disse Epifanio Alvarez, pai de um dos estudantes desaparecidos. Ele e dois outros parentes dos estudantes desaparecidos prometeram continuar a busca de seus filhos, assumindo que eles continuam vivos. "Não podemos aceitar nada do que foi afirmado, porque não há evidências suficientes...O governo nos humilhou e nos destruiu."

Medidas contra sequestros estão funcionando?

Há cerca de um ano, foi lançado o programa antissequestros do presidente Enrique Peña Nieto, iniciativa que implicou uma maior coordenação e compartilhamento de dados entre autoridades federais e locais e a indicação de um czar antissequestro. Mas sob alguns aspectos, os sequestros aumentaram no período.

Segundo o grupo Stop Kidnapping, escolhido para participar de um painel de supervisão do governo como parte do plano elaborado em 2014, houve um aumento de 30% nos casos de sequestro entre 2013 (2.166 casos) e 2014 (2.818). O que se traduz em cerca de sete casos por dia ou um sequestro a cada 3,5 horas em 2014, segundo o El País.

A organização Stop Kidnapping discorda dos dados divulgados pelo Sistema Nacional de Segurança Pública que se baseia em dados do governo, com base nos quais ocorreram 1.698 sequestros em 2013 e 1.394 em 2014 em todo o México. Uma redução de 18%.

As famílias dos estudantes desaparecidos e grupos de direitos humanos locais falaram do seu desapontamento não só com a investigação do governo, mas com relação às acusações apresentadas contra suspeitos, como o prefeito de Iguala, José Luis Abarca Velásquez. Ninguém foi acusado, diz Stephanie Erin Brewer, coordenadora internacional do Centro de Direitos Humanos Miguel Agustin Pro Juárez, grupo de direitos humanos com sede na Cidade do México. Pelo contrário, os suspeitos foram acusados de sequestro - um crime mais fácil de provar, mas que não leva em conta o possível papel do governo nos desaparecimentos.

"As acusações de sequestro implicam uma sentença de prisão maior. Sequestro é considerado somente crime. Desaparecimentos forçados são violações de direitos humanos que reconhecem o papel do governo", disse Brewer.

Ela e outros representantes de organizações de direitos humanos seguirão para Genebra neste mês para se reunir com membros da Comissão das Nações Unidas sobre Desaparecimentos Forçados e discutir o caso do México.

"Não sabemos o porquê"

As autoridades mexicanas acreditam que os estudantes foram mortos num caso de identidade errada. Para a gangue Guerreros Unidos, "eles estavam infiltrados por membros de gangues rivais", acredita Murillo, observando que não existe nada indicando que os estudantes estavam envolvidos em alguma organização criminosa.

Mas muitos suspeitos disseram em depoimento que sabiam que os jovens eram estudantes, o que envolve em mistério os motivos do crime. "Sabemos quem, o que, quando e onde. Não sabemos o porquê", disse Alejandro Hope, especialista em segurança, à AP. "Eles têm ainda de contar uma historia convincente sobre as razões pelas quais isso aconteceu. Não importa quantas pessoas foram detidas - a menos que respondam a essa pergunta, toda a história continuará envolta em mistério."

Os estudantes da escola rural em Ayotzinapa foram a Iguala no dia 26 de setembro do ano passado para contratar alguns ônibus que os levariam à Cidade do México no fim de semana seguinte para participar de uma manifestação. O prefeito da cidade foi acusado do rapto depois de aparentemente ter pedido à polícia para barrar os estudantes. A polícia teria entregado os estudantes a membros da gangue que, segundo o governo, matou os jovens e queimou os corpos.

Os restos mortais encontrados perto de um lixão nos arredores de Iguala foram enviados para especialistas na Áustria para testes de DNA. Apenas o corpo de um dos estudantes desaparecidos foi identificado. O caso desencadeou protestos por todo o país e contribuiu para a queda da aprovação de Peña Nieto, que chegou ao menor nível registrado por um presidente mexicano em quase duas décadas.

Num evento público em janeiro deste ano, Peña Nieto sugeriu que o México precisa deixar de lado os fatos ocorridos em Iguala. "Estou convencido de que não devemos ficar presos a esse momento na história do México, de tristeza, tragédia e dor. Não podemos ficar obcecados com isso", afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É editora de América Latina do C.S. Monitor

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