Estudantes do Chile se dividem após líderes apoiarem Bachelet

Muitos jovens criticam a decisão de entrar na coalizão da ex-presidente, que deve vencer as eleições de amanhã

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO , O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2013 | 02h03

Há uma divisão no movimento estudantil responsável pelos protestos por educação gratuita que incendiaram o Chile e foram decisivos para baixar a popularidade do presidente Sebastián Piñera a 30%, a pior de um líder chileno ao fim de um mandato.

Embora tenha conseguido que a provável vencedora na eleição de amanhã, Michelle Bachelet, inclua o ensino gratuito como prioridade, parte da base estudantil considera traidores líderes como Camila Vallejo, que usará sua projeção para garantir uma vaga como deputada pelo Partido Comunista, na coalizão de Bachelet.

"Essa decisão foi dolorosa para muitos estudantes. Camila disse que não pediria votos para Bachelet, mas acabou fazendo", diz Daniel Hason, de 23 anos, estudante de medicina da Universidad de Santiago.

Como uma espécie de punição à adesão de ao menos cinco líderes à corrida ao Parlamento, o Partido Comunista, que entrou na coalizão de Bachelet, sofreu uma derrota sem precedentes na votação que definiu, na quarta-feira, a nova presidente da Federação de Estudantes do Chile (Fech). "Os comunistas ficaram em terceiro e há consenso de que foi uma punição por terem entrado no movimento de Bachelet, que, para os estudantes, não fez o que prometeu na educação", afirma Daniel.

Nenhum estudante chileno ouve tantas questões sobre as fissuras no movimento e sobre a estratégia ideal para reativar os protestos do que Melissa Sepúlveda. "Anarquista de orientação libertária", ela foi eleita presidente da Fech, cargo em que Camila ficou famosa. E assumiu um discurso mais duro do que o da ex-líder.

"Não concordo com a estratégia dela (Camila), pois, com a Constituição atual, não se pode fazer reforma educacional por meio do Parlamento. Mas acho demais acusá-los de traidores. A Concertação (grupo de Bachelet), em 20 anos, não fez nada para mudar a injustiça no sistema educacional. Não vamos deixar que ela nos engane", disse Melissa ao Estado.

Por mais que Bachelet seja considerada uma candidata de centro-esquerda fora do Chile, ela é criticada no universo acadêmico por manter alianças com democratas-cristãos, conservadores em temas como aborto e casamento entre homossexuais.

"As candidaturas vindas do movimento estudantil são um fenômeno recente. Eram comuns nos anos 60 e ressurgiram agora", diz o sociólogo Augusto Varas, presidente da Fundação Equitas. Sobre uma trégua entre os novos líderes e futura presidente, ele é pessimista. "A lua de mel será muito curta."

Melissa critica a expectativa sobre a eleição que marca os 40 anos do golpe de Estado que tirou Salvador Allende do poder. Nos últimos dias, ela tem rebatido as acusações de ter desestimulado o voto amanhã. "A democracia não se resume a depositar um voto. Nosso país não tem mecanismos de fiscalização das promessas dos políticos, não há participação suficiente", diz a líder estudantil.

No Chile, praticamente não há dúvidas sobre a vitória de Bachelet, que governou o país de 2006 a 2010. Debate-se se ela ganharia no primeiro turno ou precisaria de uma nova votação para derrotar a conservadora Evelyn Matthei, da Aliança Democrática Independente.

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