Sunday Alamba/AP
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Estudantes nigerianos sequestrados pelo Boko Haram reencontram famílias

Cerca de 300 crianças foram resgatadas; 200 continuam desaparecidas

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2020 | 20h36

LAGOS, NIGÉRIA - Exaustos, alguns à beira das lágrimas, mais de 300 meninos sequestrados há uma semana no noroeste da Nigéria, em um ato reivindicado pelos jihadistas do Boko Haram, e libertados na véspera, reencontraram os pais nesta sexta-feira, 18.

Descalços, com o rosto cheio de poeira, os meninos foram levados para a residência de Aminu Bello Masari, governador de Katsina, capital da província de mesmo nome, no nordeste do país, e após uma cerimônia de boas-vindas oferecida pelas autoridades locais, puderam, enfim, abraçar seus familiares.

"Estou feliz, muito feliz de saber que vou voltar a ver meu pai, minha mãe e meus irmãos menores", disse um adolescente de 14 anos, sorridente, mas esgotado.

A espera foi longa, de horas. "Chorei ao vê-lo", disse à Agência France Presse Hajia Bilikis, mãe de Abdullahi Abdu-Rasaq, de 15 anos.

'Rumo à vida adulta' 

Os meninos, que precisaram andar por dias sob as ordens de "bandidos", como são chamados localmente, foram libertados na quinta-feira em circunstâncias ainda não esclarecidas, e levados de ônibus até a capital, Katsina.

"Vocês sofreram fisicamente, mentalmente, psicologicamente, mas saibam que nós também e seus pais ainda mais", declarou o governador, Aminu Bello Masari, aos meninos reunidos na assembleia local.

"Para esses estudantes, este episódio fará parte de sua história e de seu caminho para a idade adulta, estou certo de que se lembrarão por toda a vida", acrescentou.

O presidente nigeriano, originário de Katsina, Muhammadu Buhari, também visitou os jovens.

"Obrigada, meu Deus!" 

Do lado de fora do recinto, os pais aguardavam. 

"Quando meu filho me ligou ontem e me disse 'mamãe, mamãe, sou eu', eu disse 'obrigada meu Deus! Obrigada meu Deus!', estava tão feliz!", conta uma mãe, cujo filho tem 18 anos.

Pouco antes, um conselheiro do presidente havia anunciado a libertação dos meninos, sem fornecer o número exato. Um conselheiro do governo local, Ibrahim Katsina, indicou que 344 alunos foram libertados.

"É um grande alívio para todo o país e a comunidade internacional", tuitou o presidente nigeriano Mahammadu Buhari.

O número exato dos menores sequestrados da escola para meninos de Kankara ainda é desconhecido. A ação foi reivindicada pelo Boko Haram, grupo jihadista que atua no nordeste do país, ou seja, a centenas de quilômetros dali.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu a "libertação imediata e incondicional" dos meninos que permanecem sequestrados.

Na quinta-feira, os jihadistas do Boko Haram divulgaram um vídeo dos estudantes sequestrados. Com o rosto coberto de poeira e arranhões, um jovem afirmou fazer parte do grupo de 520 estudantes sequestrados pela "gangue de Shekau", o nome do líder histórico de Boko Haram.

No vídeo, o Boko Haram afirmava, por intermédio deste adolescente de em torno de 14 anos, que matou alguns sequestrados.

Divulgadas pelos canais tradicionais do grupo, as imagens foram gravadas parte em inglês e parte na língua hausa, falada principalmente no norte da Nigéria.

Segundo informações da Agência France-Presse, o sequestro em massa foi coordenado por grupos armados, alguns deles às ordens do Boko Haram, que aterrorizam a população no norte da Nigéria e realizam sequestros e roubos de gado.

De acordo com vários depoimentos de jovens que conseguiram escapar, os reféns foram divididos em vários grupos na noite do sequestro.

Uma fonte de segurança próxima ao caso afirmou que os estudantes que apareciam neste vídeo eram os que estavam detidos por Awwualun Daudawa, que responde diretamente às ordens do Boko Haram. Os outros podem ler libertados após as negociações entre os sequestradores e o governo local.

O ataque lembra o sequestro de mais de 200 meninas em Chibok em 2014, e é um golpe para o presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, originário do estado de Katsina.

O Boko Haram e seu braço dissidente, o grupo Estado Islâmico na África Ocidental (Iswap), ativos no nordeste da Nigéria, causaram mais de 36 mil mortes em dez anos de conflito. Dois milhões de pessoas continuam sem poder voltar para casa. /AFP

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