(Michael Laughlin/South Florida Sun-Sentinel via AP, File)
(Michael Laughlin/South Florida Sun-Sentinel via AP, File)

Estudantes se tornam pesadelo de lobby das armas

Vítimas do massacre de Parkland se mobilizam e colocam defesa de controles rígidos no acesso a armamentos no centro do debate político

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2018 | 06h00

Na noite de quarta-feira, Cameron Kasky subiu ao palco de um programa transmitido ao vivo pela CNN e confrontou o senador pela Flórida Marco Rubio com a pergunta que nenhum político republicano gostaria de responder: “Você pode me dizer agora que não aceitará uma única doação da NRA no futuro?”, disparou, referindo-se ao principal lobby pró-armas dos Estados Unidos.

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Ao longo de sua carreira, Rubio recebeu US$ 3,3 milhões da National Rifle Association, a NRA, o que o coloca em sexto lugar no ranking dos republicanos mais beneficiados pelo grupo. Senador do Estado que presenciou um dos maiores ataques a tiros em escolas no país, o republicano se negou a rejeitar o apoio da NRA.

Sobrevivente do massacre que deixou 17 de seus colegas mortos, Kasky é um dos líderes do súbito movimento de adolescentes que se transformou no pesadelo do lobby pró-armas e jogou a defesa de controles mais rigorosos sobre o setor no centro do debate político americano. 

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Entre outras reivindicações, os jovens querem a proibição do comércio de fuzis de estilo militar como o AR-15, usado pelo atirador que entrou na escola Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, no dia 14.

“Esse movimento é atípico por ter sido iniciado por estudantes secundaristas e ter uma legitimidade incontestável. Os jovens estão protestando porque não querem ser mortos”, disse a professora da City University of New York Frances Fox Piven, que tem 85 anos e estuda o ativismo social nos EUA há cinco décadas. 

Em entrevista ao Estado, ela disse que adolescentes participaram de outros movimentos, como o que se opôs à Guerra do Vietnã. Mas Fox Piven não se lembra de nenhuma campanha que tenha sido iniciada por eles, como a atual.

Kasky criou o movimento #NeverAgain (#NuncaMais) e abriu uma página de arrecadação de fundos online para financiar a Marcha por Nossas Vidas, que estudantes secundaristas planejam realizar em Washington daqui a um mês. Até sexta-feira, ele havia arrecadado US$ 2,3 milhões (R$ 7,4 milhões) e mais US$ 2 milhões em doações de celebridades de Hollywood. No Twitter, Kasky se apresenta como “bravo, assustado, confuso, de luto e cansado de ver a NRA adotar e promover essa cultura de armas”.

Mas ele está longe de ser a única face da revolta de adolescentes que toma conta dos EUA. Três dias depois do massacre, Emma González, de 18 anos, dominou o noticiário no país com um discurso de 11 minutos, no qual foi às lágrimas ao lembrar do que havia ocorrido em sua escola. “Nós seremos os jovens sobre os quais vocês lerão nos livros”, afirmou. “Não porque nós seremos mais uma estatística sobre ataques a tiros na América, mas porque nós seremos o último ataque a tiros em massa.” Emma já tem 400 mil seguidores no Twitter, onde seu perfil tem apenas três palavras: “Change is here” (a mudança está aqui).

David Hogg, de 17 anos, concedeu inúmeras entrevistas desde o massacre, o que o transformou em alvo da extrema direita americana. Em uma teoria conspiratória sem nenhum fundamento, Hogg foi acusado de ser um ator e não um jovem que havia sobrevivido ao massacre de Parkland. 

Em sua conta no Twitter, onde Hogg alcançou 187 mil seguidores, ele iniciou uma campanha contra empresas que realizam negócios com o lobby pró-armas, com a hashtag #boycottNRA. Na sexta-feira, as locadoras de carros Hertz e Avis estavam entre as companhias que anunciaram o fim de parcerias com a organização.

Susan MacManus, cientista política da Universidade do Sul da Flórida, disse que o movimento iniciado pelos jovens de Parkland já teve “tremendo” impacto sobre a opinião pública dos EUA. “Estamos falando de estudantes vulneráveis que deveriam estar seguros nas escolas em que recebem educação. Não são adultos como os que foram mortos no clube Pulse”, observou, referindo-se ao massacre que ocorreu em 2016 em uma casa noturna em Orlando, também na Flórida. “Isso se espalhou como fogo e capturou a atenção dos americanos.”

Em sua opinião, o movimento fará com que o controle de armas seja um dos principais tópicos da eleição legislativa marcada para novembro, na qual estará em jogo o controle da Câmara dos Deputados e do Senado. 

Fox Piven, a veterana no estudo de ativismo social, disse que o futuro do movimento #NeverAgain dependerá de sua capacidade de ir além da Flórida e mobilizar estudantes em outros Estados. O apelo da mensagem dos estudantes de Parkland ficará claro no dia 24, para quando estão convocadas manifestações em diversas cidades, além da marcha em Washington.

Pressão sobre associados. Ativistas tentam aumentar a pressão sobre a NRA por meio de empresas parceiras que têm o costume de dar descontos ou benefícios a associados do lobby pró-armas. Para isso, os ativistas enchem as páginas das redes sociais de companhias, como FedEx e Amazon, com comentários críticos.

 

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