Lawrence Bryant/Reuters
Lawrence Bryant/Reuters

Estudo diz que Estado americano recorreu à esterilização para reduzir população negra pobre

O estudo conclui que um programa que esterilizou negros pobres na Carolina do Norte, no sudeste do país, pode ser classificado como 'genocídio'; em 2014, legisladores do Estado destinaram US$ 10 milhões para reparar as vítimas 

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2020 | 18h20

MIAMI - Durante grande parte do século passado, o Estado da Carolina do Norte esterilizou milhares de pessoas com a intenção explícita de impedir que os negros se reproduzissem, de acordo com um estudo divulgado em um momento em que os Estados Unidos enfrentam seu racismo estrutural. 

O estudo conclui que um programa que esterilizou negros pobres na Carolina do Norte, no sudeste do país, pode ser classificado como "genocídio".  

A pesquisa, publicada esta semana na American Review of Political Economy, descobriu que a probabilidade de esterilização eugênica sendo realizada em países com as populações negras mais pobres era maior. 

A eugenia, que busca o suposto aprimoramento das espécies, é uma forma de criação seletiva. 

"Isso sugere que, no caso dos negros, as esterilizações eugênicas foram autorizadas e administradas com o objetivo de reduzir seu número na população futura - nada além de genocídio", escrevem os três autores do estudo. 

A Organização das Nações Unidas descreve como genocídio, entre outras coisas, "impor medidas para impedir o nascimento de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso". 

O programa funcionou de 1929 a 1974 e esterilizou cerca de 7.600 homens e mulheres, segundo a fundação Justice for Victims of Sterilization. 

No entanto, os pesquisadores analisaram relatórios do Conselho de Eugenia da Carolina do Norte por apenas uma década, de 1958 a 1968, período em que foram realizadas 2.100 esterilizações. 

Eles descobriram que a taxa de esterilização naqueles anos era muito maior nos municípios com o maior número de residentes negros desempregados. 

Esse padrão não foi repetido em outros grupos populacionais, mesmo que eles vivessem nas mesmas condições, "sugerindo que o programa eugênico considerava apenas a população negra inferior", indica o comunicado.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

A pesquisa foi conduzida por William Darity, professor de políticas públicas e estudos afro-americanos na Universidade de Duke; Rhonda Sharpe, fundadora e presidente do Instituto de Ciência, Equidade e Raça da Mulher; e Gregory N. Price, economista da Universidade de New Orleans e principal autor do estudo. 

Em 2014, os legisladores da Carolina do Norte destinaram US$ 10 milhões para reparar as vítimas. 

A publicação desse trabalho coincide com um momento de agitação social devido ao racismo nos Estados Unidos, que ainda carrega as consequências de seu passado escravocrata. 

A morte de George Floyd, um cidadão negro morto por policiais brancos em 25 de maio em Minneapolis, desencadeou uma onda de protestos contra o racismo e a brutalidade policial invisíveis em décadas nos Estados Unidos./AFP 

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