EFE/TELAM/Diego Izquierdo
EFE/TELAM/Diego Izquierdo

Protestos na Argentina contra morte brutal de jovem se reproduzem na América Latina e Espanha

Caso Lucía Pérez, drogada, violentada e empalada até a morte, deu força para movimentos que defendem o respeito e a ampliação de direitos femininos; as mulheres pararam seu afazeres durante uma hora, em vários escritórios privados e públicos

O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2016 | 15h10

BUENOS AIRES - Horrorizadas com o brutal assassinato de uma adolescente, mulheres protestaram nesta quarta-feira, 19, contra a violência de gênero com várias manifestações e atividades na Argentina, que foram reproduzidas em cidades da Espanha e da América Latina. 

O país está impressionado com o homicídio de Lucía Pérez, uma jovem de 16 anos que foi drogada, estuprada e empalada até a morte há duas semanas, que desatou a quinta mobilização contra violência de gênero no país este ano. "Por essa e tantas Lucías é que se pede justiça. Para que não haja mais Lucías e nem mais famílias destruídas como a nossa", pediu Marta Montero, mãe da jovem, em entrevista à rádio Vorterix.

As mulheres pararam seu afazeres durante uma hora, em vários escritórios privados e públicos, contra os feminicídios em Buenos Aires. Depois das 13h (local), protestos espontâneos e bloqueios de avenidas foram vistos, debaixo de chuva, onde era possível ler cartazes escritos "Nós paramos", "Queremos ficar vivas".

"Temos de nos distanciar de todo tipo de violência, especialmente da violência de gênero, que hoje está nos atingindo e afetando muito", disse o presidente Mauricio Macri, na inauguração de um edifício escolar nesta quarta-feira, 19. "Estamos comprometidos em prevenir, erradicar e auxiliar" diante da violência de gênero, afirmou. 

O Registro Nacional de Feminicídios, da Suprema Corte de Justiça argentina, indicou que em 2015 houve 235 mulheres assassinadas, uma a cada 36 horas. Cerca de 18% das vítimas tinha menos de 20 anos, 43% entre 21 e 40 anos, 25% entre 41 e 60, e 9% mais de 60. Em mais da metade dos casos, os agressores foram companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Ao longo de 2016, 170 mulheres morreram, segundo a ONG Casa del Encuentro.

O horror se estendeu até a Espanha, que na última década conseguiu diminuir os casos mortais por violência contra mulheres. Lá, as vítimas - espancadas, apunhaladas, queimadas - passaram de 71 em 2003 para 60 em 2015. "Quantas Lucías Peréz mais até que parem de nos chamar de exageradas?", diziam os cartazes dos protestos em Madri e Barcelona.

"O caso de Lucía Pérez serviu como gatilho para exigir justiça por todas as mulheres que sofrem a violência machista", disse à AFP Gabriela Spinelli, uma das mulheres que seguiu a ordem de se vestir de preto nesta quarta-feira e fazer "barulho" com suas companheiras da Defensoria Geral da Nação, no centro da capital.

Apesar da chuva e do vento em Buenos Aires, as mulheres foram apoiadas com buzinas e aplausos - estes vindos de edifícios empresariais.  O coletivo #NiUnaMenos convocou junto com outras 50 organizações a inédita paralisação nacional não só para levantar a voz contra o feminicídio, como também para expor a desigualdade da mulher no âmbito trabalhista.

A Argentina, que atravessa dificuldades econômicas, registra uma taxa de desemprego de 9,3%. "Mas no caso das mulheres já está perto dos 12%", segundo cifras da organização Red de Mujeres. Dentro dos 30% de trabalhadores informais e não registrados, muitos são mulheres, devido à falta de direitos como licença-maternidade, subsídios por filho ou férias.

Barbárie. Adolescente de Mar del Plata, 400 km ao sul da capital, Lucía também foi forçada a usar cocaína antes das agressões para impedir que pudesse se defender, revelou a promotora encarregada do caso, María Isabel Sánchez.

Segundo a reconstituição dos fatos, Lucía conheceu os dois detidos - Matías Farías, de 23 anos, e Juan Pablo Offidiani, de 41 anos, - um dia antes de morrer, com a única finalidade de comprar um cigarro de maconha junto com uma amiga.

"Sei que não é muito profissional dizer isso, mas sou mãe, mulher e vi mil coisas durante minha carreira, mas nunca nada igual a essa conjunção de fatos aberrantes", disse a promotora Sánchez. O crime foi cometido em 8 de outubro.

Os supostos autores eram conhecidos traficantes que vendiam maconha perto do colégio frequentado por Lucía, segundo as investigações. Depois do crime, deram banho em Lucía e levaram-na para um hospital, onde disseram que tinha sofrido uma overdose.

Os médicos constataram lesões anais, indicadoras de ato sexual violento. "Não introduziram nela apenas membros viris", disse Sánchez. Lucía estava com "o nariz roxo de tanta cocaína que a obrigaram a cheirar", disse o pai da moça, Guillermo Pérez.

Ao lado da mãe da vítima, Marta Montero, ele liderou uma passeata no sábado, 15, que mobilizou milhares de pessoas em Mar del Plata. Os pais imploram que os detidos não sejam libertados. "Não podemos entender tamanha barbárie. É impossível de entender", lamentou a mãe.

O crime de Lucía chocou pelos detalhes macabros. Não conseguiu evitar, porém, que em quase dez dias ocorressem pelo menos outros quatro assassinatos de mulheres por seus maridos, ou ex-companheiros.

A advogada Sabrina Cartabia, da associação civil Rede de Mulheres e integrante do coletivo "Nem uma a menos", disse que as múltiplas manifestações não conseguiram se materializar em políticas públicas capazes de proteger a vida e a dignidade das mulheres.  / AFP

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