ETA ainda representa ameaça

Os atentados à bomba na Espanha, na semana retrasada, indicam que a organização separatista ETA (Pátria Basca e Liberdade), no 50º aniversário de sua fundação, ainda mantém uma capacidade militar maior do que muitos observadores, incluindo o Ministério do Interior espanhol, acreditavam.E esse é o grande dilema do primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero. Durante seu primeiro mandato, ele tentou, corajosamente, iniciar negociações de paz com a ETA.O processo fracassou por erros cometidos por ambos os lados, mas especialmente pela ETA, quando explodiu um carro-bomba no aeroporto de Madri, em 2006. Desde então, Zapatero insiste que nenhuma negociação é possível e a organização só pode ser erradicada por meio de um trabalho eficiente da polícia e dos tribunais.Até a semana passada, ele podia afirmar que tal política estava funcionando. Ao menos quatro chefes da ETA foram presos no último ano. Unidades recém-criadas pelo grupo foram detidas antes de levar a cabo alguma ação. A ETA continuou matando, mas de modo bem mais esporádico.Mas esses últimos atentados trazem a marca de campanhas anteriores da ETA. Dois alvos bem protegidos, ambos quartéis da Guarda Civil, foram atacados num prazo de 34 horas em Burgos e Palma de Mallorca, que estão a centenas de quilômetros de distância. O que mostra que, pela primeira vez em anos, a organização terrorista tem duas unidades operando ao mesmo tempo, longe das suas bases no País Basco.O violento atentado a bomba em Burgos repetiu um ataque similar em Zaragoza em 1987, que matou 11 pessoas. Apenas por uma extraordinária sorte, foi evitado um massacre similar. O ataque em Mallorca lembra as "campanhas de verão" da organização separatista, cujo objetivo é elevar o perfil internacional do grupo e danificar o setor turístico espanhol. É possível, como insistiu o Ministério do Interior, que os ataques simplesmente tenham sido a última cartada da ETA, colocando todos seus recursos remanescentes na "comemoração" do seu 50º aniversário. Mas o mais provável é que as previsões otimistas do governo, de que o último grupo terrorista nativo da Europa Ocidental está desaparecendo, terão de ser revistas.Apesar de um forte declínio nos últimos anos, a ETA ainda desfruta de considerável apoio popular, especialmente entre os jovens bascos. A interdição de partidos políticos e associações supostamente ligados à organização, criticada por grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, empurrou o movimento para a clandestinidade, mas não o destruiu.ATRAÇÃOUma pesquisa recente realizada pelo jornal espanhol El País mostrou que 15% dos adolescentes ainda se sentem atraídos pela ETA, e isso numa das mais prósperas regiões da União Europeia. Portanto, surge mais uma vez a questão sobre se os métodos da polícia, sozinhos, conseguirão erradicar o grupo, já que a ETA ainda pode recorrer a uma reserva de jovens recrutas motivados.Uma questão fundamental é se existe realmente um "conflito basco" . A opinião pública espanhola, de esquerda e de direita, geralmente nega que ele existe, dizendo que o problema é similar à luta para aniquilar as máfias criminosas. Mas para os nacionalistas bascos, incluindo uma grande maioria que odeia os métodos usados pela ETA, existe um conflito político latente envolvendo a autodeterminação basca. E querem que esta questão seja resolvida com a mesma imaginação e coragem dos governos irlandês e britânicos no caso do IRA (Exército Republicano Irlandês).Mas esse é um tema tabu entre muitos espanhóis. Para eles, o País Basco, como disse numa entrevista um político basco que defende o governo espanhol, "não só faz parte da Espanha, mas é o coração da Espanha". O que distingue claramente a situação basca da irlandesa. A opinião pública britânica já não via há muito tempo a Irlanda do Norte como parte integrante da identidade nacional britânica. Para muitos espanhóis, a questão foi encerrada quando se garantiu poderes para o governo autônomo basco em 1980.Mas muitos bascos insistem que seu país não é, absolutamente, espanhol e os partidos democráticos espanhóis os traíram durante a transição da ditadura de Franco, não cumprindo as promessas de que teriam direito à autodeterminação.Se a violência da ETA, por mais repulsiva que seja, é um sintoma do conflito basco e não sua única causa, então, mais cedo ou mais tarde, alguém terá de empreender um diálogo realmente aberto entre Madri e o nacionalismo basco. Mas, ironicamente, a ETA é o maior obstáculo para que esse processo se inicie. Enquanto continuar matando, nenhum governo espanhol mudará uma vírgula na questão da autodeterminação basca.Quebrar este circulo vicioso exigirá uma grande sabedoria política e coragem que não estão evidentes na política espanhola, nem na basca, no momento. *Paddy Woodwhorth é autor de livros sobre o País Basco

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