Vincent West/Reuters
Vincent West/Reuters

ETA anuncia ''trégua geral e definitiva''

Governo espanhol lembra que organização separatista basca já fez promessas parecidas no passado e lamenta que comunicado não contemple a dissolução do grupo, responsável pela morte de aproximadamente 850 pessoas nos últimos 50 anos

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

O grupo terrorista basco ETA deu ontem mais um passo em direção ao que garante ser um processo de paz sustentável com os governos da Espanha e da França. Em comunicado divulgado pelo jornal Gara, a organização estendeu o cessar-fogo proposto em setembro, tornando-o "geral, permanente e verificável". Como resposta, Madri voltou a demonstrar desconfiança sobre as intenções do movimento.

O Gara é uma espécie de porta-voz legal dos partidos bascos que pedem a autonomia. No comunicado, datado de sábado, a ETA destaca o esforço da sociedade europeia para acabar com o conflito e dar início a um "processo democrático". A ETA, contudo, não abre mão de suas bandeiras e exige respeito a dois pontos fundamentais: "territorialidade" e "autodeterminação dos povos".

"A ETA declara um cessar-fogo permanente e de caráter geral, que pode ser verificado pela comunidade internacional", diz o texto. "Este é o compromisso do ETA com o fim da luta armada." O grupo afirma que é "tempo de atuar com responsabilidade" e faz um chamamento às autoridades de Espanha e França para que "abandonem para sempre as medidas repressivas e a rejeição ao País Basco".

Apesar da mão estendida, a ETA reafirma que não abandonará a luta pela independência basca - a organização estaria optando pela via democrática. "A independência chegará por meio de um processo democrático que tenha a vontade do povo basco como máxima referência e o diálogo e o direito de autodeterminação."

O comunicado foi seguido de um vídeo no qual três porta-vozes da ETA, encapuzados e com trajes tradicionais do movimento, fazem um apelo semelhante. A iniciativa é a segunda em quatro meses e reforça o cessar-fogo unilateral declarado em 5 de setembro.

Declarações anteriores. À época, Madri reagiu com ceticismo e a iniciativa recebeu críticas até dos partidos políticos independentistas. Agora, novamente, o gesto não convenceu o governo espanhol, que já rejeitou a oferta de verificação internacional e afirmou que a declaração não representará o fim definitivo do movimento.

Para Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior da Espanha, o grupo trouxe à tona "as mesmas pretensões de sempre". "Não é uma má notícia, mas não é a notícia", disse. A imprensa espanhola ficou dividida. Alguns veículos não acreditam no cessar-fogo - nos últimos 50 anos, foram 12o.

HISTÓRIA SANGRENTA

1959

Fundação da ETA durante a ditadura do general Francisco Franco para lutar pela independência basca

1968

ETA mata o chefe da polícia de San Sebastian, Meliton Manzanas, sua 1ª vítima

1973

O primeiro-ministro Luis Carrero Blanco é assassinado

1978

Formado o braço político da ETA, Herri Batasuna

1980

ETA mata quase 100 pessoas, apesar da volta da democracia

1985

Primeiro carro-bomba em Madri, matando 1 turista dos EUA e ferindo 16 guardas civis

1986

Doze guardas civis morrem em Madri e outros 50 ficam feridos em um atentado

1987

Carro-bomba em supermercado de Barcelona mata 21 pessoas

1997

Deputado Miguel Angel Blanco é sequestrado e morto pela organização. Crime leva a protestos contra o grupo

1998

Declarado o primeiro cessar-fogo, rompido em 1999

2000

Ex-ministro de Saúde Ernest Lluch é morto a tiros em Barcelona

2003

Batasuna, novo braço político da ETA, é proscrito

2006

ETA anuncia nova trégua, rompida com a explosão de um carro-bomba no aeroporto de Madrid,

que matou dois equatorianos

2007

ETA mata policial civil espanhol que trabalhava encoberto na França

2008

França prende suposto líder militar da ETA e seu sucessor

2009

Outro líder militar da ETA é preso na França. Série de ataques mata 3 policiais e fere 46 pessoas em dois meses

2010

Policial francês é morto perto de Paris por supostos membros da ETA. França prende líderes do grupo. ETA anuncia intenção de acabar com a luta armada

A mais recente trégua ignorada pelo grupo basco foi a de março de 2006. Nove meses depois, a ETA explodiu uma bomba no aeroporto de Madrid, matando duas pessoas e ferindo 52.

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