ETA cogita parar com violência, se participar de eleições

A organização terrorista Pátria Basca e Liberdade (ETA) mostrou neste domingo disposição para "assumir compromissos firmes" que podem levar à "ausência de violência", mas exigiu a participação do seu braço político, que opera na ilegalidade, nas eleições locais de maio.Em entrevista publicada pelo jornal nacionalista Gara, a ETA reiterou o compromisso com um "cenário sem violência" se desaparecerem "os ataques contra Euskal Herria (a pátria basca)".A referência mencionava a ilegalidade do Batasuna, instrumento político da ETA, e os impedimentos para participar do pleito municipal e autônomo de 27 de maio na Espanha.A organização advertiu ao Governo que, se impedir a participação da esquerda patriota - radicais separatistas - nas próximas eleições, a ETA levaria esta decisão em conta. E ressaltou que "não se pode imaginar eleições sem a esquerda patriota", já que isso "expressaria o fracasso do processo".PropostaA ETA se referia ao grupo Batasuna, considerado ilegal pela atual Lei de Partidos. No último dia 27, a esquerda radical ligada à ETA, que tem o Batasuna agindo por trás de suas atividade, apresentou no Ministério do Interior a documentação de um novo partido, o Abertzale Sozialisten Batasuna (ASB). O órgão imediatamente remeteu os documentos à Promotoria para comprovar se feriam a Lei de Partidos.No dia 3, a Promotoria Geral e a Advocacia do Estado apresentaram recursos à Corte Suprema espanhola e alertaram que, de fato, a Lei de Partidos seria burlada, já que identificaram o ASB com o Batasuna.Diante da eventual ilegalidade do ASB, o Batasuna anunciou que a esquerda patriota participará do pleito de maio com a ajuda de grupos eleitorais que compartilham de seus princípios.A ETA reiterou também que "as chaves para resolver o conflito são a territorialidade e o direito de decidir", referindo-se ao direito à autodeterminação.Esse é o segundo comunicado da ETA após o atentado de 30 de dezembro contra um dos terminais do aeroporto de Barajas, em Madri, quando a detonação dos explosivos que colocou em um estacionamento causou a morte de dois equatorianos.O primeiro comunicado foi publicado em 9 de janeiro, também pelo diário "Gara", para assumir a autoria do atentado. O episódio violou também o cessar-fogo anunciado pela organização terrorista em 22 de março de 2006.As primeiras reações à entrevista não demoraram por parte do Governo, da Administração autônoma basca e das diferentes forças políticas espanholas envolvidas nesta jornada tão importante para o País Basco.O pronunciamento da ETA coincidiu com o Aberri Eguna (Dia da Pátria Basca), festejado hoje em grande estilo pelo Partido Nacionalista Basco (PNV), no Governo da comunidade autônoma.Em declarações à Efe, o secretário de Estado da Comunicação do Governo espanhol, Fernando Moraleda, afirmou que a ETA "só tem que dar um passo, só um, a renuncia à violência".Moraleda acrescentou que o poder Executivo espanhol mantém "sua convicção expressa da aplicação da Lei de Partidos e da legalidade", em relação à esquerda patriota.ChantagemÁngel Acebes, secretário-geral da principal força de oposição espanhola, o Partido Popular (PP), considerou que a entrevista da ETA é "uma grande chantagem" e insistiu em que o presidente José Luis Rodríguez Zapatero "tem que dizer que não aceita mais chantagens e ultimatos dos terroristas e que vai enfrentá-los".Para o secretário-geral do PP, a ETA "está desafiando e utiliza a chantagem porque sabe que como este Governo funciona". O presidente do Governo autônomo basco, Juán José Ibarretxe, também se pronunciou e lamentou que a ETA não diga "o que a sociedade basca quer ouvir: que a violência acabou para sempre".As declarações da ETA são ouvidas poucos dias depois de uma operação policial culminar com a desarticulação do comando da facção "Donosti" do grupo e a detenção de 12 de seus membros, após ser detectada a aparente intenção de voltar à ação terrorista, de acordo com os primeiros indícios.

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