AP
AP

ETA troca armas por disputa nas urnas

Após renunciar ao terror, grupo separatista basco leva seu braço político à luta eleitoral

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL , SAN SEBASTIÁN, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h07

SAN SEBASTIÁN - Depois de 43 anos e 829 assassinatos, a organização separatista ETA (Pátria Basca e Liberdade) dá sinais de que trocou a fracassada luta armada pela disputa eleitoral e tenta chegar ao poder pelo voto. Nas eleições gerais de domingo, o Partido Bildu, herdeiro político do grupo - que abandonou as armas há um mês -, estima que vai eleger oito deputados para o Parlamento em Madri e tornar-se a maior força política no País Basco.

O Bildu, que significa "Reunir-se" em basco, foi rejeitado nos tribunais em Madri em 2010 diante da constatação das autoridades espanholas de que o partido mantinha em suas listas pessoas ligadas à ETA. Além disso, o governo espanhol obteve documentos que ligariam a legenda ao grupo.

O partido recorreu da decisão e o Tribunal Constitucional da Espanha, em uma decisão polêmica, o liberou por 8 votos a 7 para disputar as eleições. No País Basco, no entanto, não é segredo para ninguém que 80% dos integrantes do Bildu eram membros do Batasuna, braço político da ETA colocado na ilegalidade.

Nas eleições regionais de maio, o desempenho do Bildu surpreendeu seus integrantes. O partido elegeu 1,1 mil vereadores no País Basco e obteve 88 prefeituras. No domingo, a legenda espera conquistar até oito cadeiras no Parlamento de Madri.

"Conseguimos seduzir muita gente mostrando que queremos defender nossos interesses pela via política não violenta. Chegamos para ficar no poder", disse ao Estado o prefeito de San Sebastián, Juan Karlos Izaguirre, responsável pela popularidade do Bildu. "A luta armada foi mais uma forma de luta. Mas hoje ela não aportava mais nada e ainda impossibilitava a união das forças que pediam a independência."

Segundo Izaguirre, houve um grande debate dentro do partido sobre a apresentação de candidatos para o Parlamento espanhol, instituição que não era reconhecida pelos independentistas. "Ao final, decidimos nos apresentar. Ganhar parlamentares lá fortalecerá nossa causa", afirmou, deixando claro que se refere à Espanha como outro país.

Para o presidente da ONG pacifista Baretik, Jonan Fernández, a crise econômica que afeta a Espanha contribui para a popularidade do Bildu. "Trata-se de um movimento que usa muito bem o discurso de contestação e, neste momento de crise, esse tom cai bem e convence principalmente os mais jovens", disse.

A Espanha vive sua pior crise econômica desde a redemocratização, em 1976, com uma taxa de desemprego de 22%. O País Basco vive a melhor situação dentro do país, mas mesmo assim 10% de sua população está fora do mercado de trabalho. Antes da crise, a região era considerada como tendo o terceiro melhor índice de desenvolvimento humano do mundo, superado apenas por Islândia e Luxemburgo.

Izaguirre insiste que são os ideais de independência que garantem seu bom desempenho. "Nosso objetivo de conquistar a independência não será fácil. Não sei quanto tempo pode levar, mas não temos pressa", disse. "A luta não começou com a ETA e não termina com a renúncia à violência. Na verdade, parece que ela começa é agora."

Radicalismo. Mas a transição para a "normalidade política" pode levar anos. Dos dois lados do confronto, os mais radicais continuam intransigentes. Em Lizarza, a prefeitura - também sob o comando do Bildu - retirou a bandeira espanhola de seu gabinete. O mesmo ocorreu em pequenos vilarejos bascos.

Em San Sebastián, a língua basca é a única permitida na prefeitura. Não há símbolos espanhóis no prédio. "Essa bandeira não representa nada para nós", afirmou Izaguirre. O prefeito proibiu vereadores e deputados de partidos com sede em Madri - no passado, vítimas da ETA - de entrar nas Assembleias na companhia de seus seguranças.

Entre os políticos contrários à independência, as polêmicas também continuam. A decisão da prefeitura de Vitoria de aceitar nas festas da cidade um ex-membro do Batasuna, Iñaki Olalde, na ala VIP causou mal-estar. Em agosto, durante a festa, o presidente do Partido Popular no País Basco, Antonio Basagoiti, teria declarado a Izagirre que rejeitaria cumprimentá-lo "até que seus sócios entregassem as armas".

No fundo, essas polêmicas são apenas a ponta de um iceberg de algo bem mais profundo: o fato de as cidades da região terem sido dominadas por décadas pelo temor e pela desconfiança mútua. "O problema maior dessa história é que não vamos começar o processo do zero. Existem quase mil mortos sobre a mesa de negociação" lamentou Xabier Ezeizabarrena, vereador pelo Partido Nacionalista Basco e ex-candidato a prefeito de San Sebastián.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.