REUTERS/Tiksa Negeri
REUTERS/Tiksa Negeri

Etiópia é trampolim da ajuda médica chinesa na África

Capital etíope é usada para a distribuição de máscaras e respiradores para outros países do continente por meio da companhia Ethiopian Airlines

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2020 | 05h00

Para contrapor os questionamentos contra a China durante a pandemia da covid-19, o governo chinês acelerou sua política de projetar seu poder por meio da ajuda médica aos países africanos. A Etiópia é hoje, ao lado da África do Sul, o principal parceiro da estratégia chinesa. É em Adis-Abeba que pousam os aviões vindos de Pequim com equipamentos e máscaras. No dia 22 de março, cargueiros trouxeram 5,4 milhões de máscaras e 1,08 milhão de testes doados por Jack Ma, de 54 anos, o bilionário fundador do site Alibaba, para o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) africano. O centro, com sede na Etiópia, distribuiu por meio da Ethiopian Airlines a doação para os 54 países do continente.

O que explica o envio desse recurso a Adis-Abeba não é apenas o fato de a capital etíope ser a sede da União Africana. A Etiópia é uma das principais economias da África e, depois do fim da guerra com a Eritreia, tornou-se um porto seguro entre vizinhos desestabilizados, como o Sudão do Sul e a Somália. Está ainda ao lado do Djibuti, onde a China construiu sua primeira base militar estrangeira, sobrepondo, assim, os interesses militares e os comerciais chineses da chamada nova "Rota da Seda" chinesa em uma área instável – o Chifre da África e o sul da Península Arábica. “O que é surpreendente nessa nova Rota da Seda é que ela tem ambições que vão além da vizinhança chinesa e chegam até nós”, afirmou o diplomata Roberto Abdenur, que foi embaixador  brasileiro em Pequim.

Esse não é o único sinal da importância dada pela China à sua parceria com a Etiópia. A própria presença de Tedros Adhanom, ex-ministro da Saúde e das relações Exteriores da Etiópia, no comando da OMS simboliza essa expressão do poder chinês, já que o etíope contou com o apoio da China para ser eleito e dirigir a agência da ONU contra uma candidatura do Reino Unido e outra do Paquistão. “Com a retirada dos americanos dos organismos multilaterais, a China passou a ocupar esse espaço. E é notável que ela detenha a direção de quatro agências da ONU”, afirmou o professor Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas.

Para Stuenkel, a China aprendeu a jogar e a entender o que é o multilateralismo competitivo. Ela entendeu que as instituições internacionais são uma plataforma de poder. E por isso dá apoio à União Africana e a candidatos de países em desenvolvimento para ocuparem posições-chave em órgãos multilaterais em razão da retirada delas dos Estados Unidos, patrocinada pelo governo de Donald Trump.  “A China aumentou muito sua presença nessas plataformas nos últimos anos”, afirmou o professor. No caso da Etiópia, ela passou a servir de plataforma para o envio de ajuda a outros países. Foi o que aconteceu com uma centena de respiradores artificiais vendidos pela China ao Maranhão, governado por Flávio Dino, cujo partido, o PCdoB, tem relações históricas com o Partido Comunista Chinês. E, nessas horas, mais do que contratos, o que vale para os chineses são o dinheiro e as relações pessoais. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.