Tiksa Negeri/REUTERS
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Etiópia pede ao mundo para não interferir nos 'assuntos internos'

Primeiro-ministro do país fez o pedido a poucas horas do fim do ultimato para que os dissidentes se entreguem, ou sofram um ataque 'sem piedade'

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 11h55

ADIS ABEBA - O primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, pediu nesta quarta-feira,25, à comunidade internacional que não interfira no conflito no Tigré, a poucas horas do fim do ultimato para que os dissidentes se entreguem, ou sofram um ataque "sem piedade."

Após três semanas de conflito com os separatistas da região norte do país, a expectativa de um ataque a Mekele faz seus 500 mil habitantes temerem o pior. O ultimato de 72 horas termina nesta quarta-feira à noite, e os beligerantes se mantêm firmes.

Apesar das divergências entre países africanos e europeus, o Conselho de Segurança da ONU realizou sua primeira reunião sobre o conflito na terça-feira, sem uma declaração conjunta ao final.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, os Estados Unidos e a UE fizeram um apelo pelo fim dos combates iniciados em 4 de novembro.

O presidente do Tigré, Debretsion Gebremichael, afirma que seu povo está "pronto para morrer", enquanto o primeiro-ministro e o Prêmio Nobel da Paz 2019 rejeita qualquer "interferência nos assuntos internos" da Etiópia.

"Respeitosamente pedimos à comunidade internacional que se abstenha de qualquer interferência não desejável e ilícita e que respeite os princípios fundamentais de não intervenção do direito internacional", disse Abiy Ahmed em um comunicado na quarta-feira.

"Como um Estado soberano, a Etiópia tem o direito de garantir e aplicar suas leis em seu território. E é exatamente isso que estamos fazendo", acrescentou o primeiro-ministro.

O chefe de governo, que qualifica a ofensiva militar como uma "operação de manutenção da ordem", justifica esta intervenção contra a Frente Popular de Libertação do Tigré (TPLF) como imperativa para "preservar a ordem política e constitucional" deste país federal.

As velhas tensões entre Adis Abeba e a TPLF, que controlou o aparato político e de segurança etíope por três décadas antes de ser gradualmente afastada do poder por Abiy Ahmed, atingiram seu ápice após uma consulta feita em Tigré em setembro. O processo foi descrito como "ilegítimo" pelo governo.

Apelos ao diálogo 

O Exército, que incitou o povo de Mekele a fugir, afirma que cercará a cidade com tanques e que não haverá "piedade" na batalha.

A União Africana (UA), que tem sua sede em Adis Abeba, lançou uma tentativa de mediação, a cargo de três ex-presidentes africanos. 

O governo etíope reiterou sua rejeição a tal iniciativa neste momento, esclarecendo que "falaria com estes enviados por respeito aos líderes africanos."

Recentemente designado por Joe Biden, o futuro conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan, fez um apelo a ambas as partes para "iniciarem imediatamente o diálogo" com a mediação da UA. 

Ele também tuitou que está "profundamente preocupado com o risco de violência contra civis, incluindo eventuais crimes de guerra nos combates em torno de Mekele. É preciso proteger os civis e permitir o acesso humanitário."

Não há um balanço preciso dos combates, nos quais centenas de pessoas morreram.

Cerca de 40 mil habitantes do Tigré já se refugiaram no Sudão, e há deslocamentos internos significativos na região, também sem números exatos.

Na terça-feira, o chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, conversou com o ministro etíope das Relações Exteriores, Demeke Mekonnen, sobre a crise humanitária. 

Em um comunicado, O bloco pediu às partes "que estabeleçam as condições para tornar possível o acesso de ajuda às pessoas necessitadas."/AFP

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