REUTERS / Shannon Stapleton
REUTERS / Shannon Stapleton

'Eu atendi ao chamado do presidente': em depoimentos, invasores do Capitólio responsabilizam Trump

Declarações do presidente podem ser usadas pela defesa dos invasores e pelo Congresso no processo do impeachment

Alan Feuer e Nicole Hong, The New York Times

19 de janeiro de 2021 | 10h00

WASHINGTON - Nas duas semanas desde que o Capitólio foi invadido, o presidente americano Donald Trump não deu nenhum sinal de que ele acredita que tenha alguma responsabilidade pelo pior ataque à sede do Congresso em mais de dois séculos.

E, para protegê-lo ainda mais, seus partidários começaram a direcionar a culpa para uma série de bichos-papões: antifascistas de extrema esquerda, ativistas do Black Lives Matter e até mesmo um suposto esquema envolvendo o vice-presidente Mike Pence.

No entanto, um grupo de pessoas já implicou diretamente Trump: alguns de seus próprios apoiadores que foram presos enquanto participavam da invasão. Em documentos judiciais e entrevistas, pelo menos quatro manifestantes pró-Trump disseram que aderiram ao episódio em parte porque o presidente os encorajou a fazê-lo.

Nos últimos dias, um bombeiro aposentado acusado de agredir membros da força policial do Capitólio disse a um amigo que foi ao prédio seguindo "as instruções do presidente", de acordo com uma denúncia criminal. 

Já uma corretora de imóveis do Texas acusada de invadir o prédio disse a um repórter que, ao protestar em Washington, ela "atendeu ao chamado do meu presidente".

Um homem da Virgínia disse ao FBI que ele e seu primo marcharam para o Capitólio porque Trump disse "algo sobre pegar a Avenida Pensilvânia" - que liga a Casa Branca ao Capitólio.

E um advogado de um seguidor da teoria da conspiração QAnon que vestia um chapéu de pele com chifres durante a invasão disse que Trump era culpado e planejava pedir o perdão da Casa Branca.

"O nosso presidente tem responsabilidade?", questionou o advogado, Al Watkins. "Sim, claro que ele tem."

Ainda não se sabe a verdadeira extensão da investigação sobre a invasão  do Capitólio, já que as buscas aos invasores está nos estágios iniciais e é provável que leve semanas até que todo o escopo do caso sejam conhecido. 

Mas com dezenas de pessoas sob custódia e começando a comparecer a tribunais, os relatos feitos sobre Trump podem acabar não apenas sendo usado em processos criminais, mas também em um julgamento de impeachment, reforçando as acusações de que o presidente incitou a invasão.

Na semana passada, a Câmara autorizou o início do segundo processo de impeachment contra Trump, citando sua incitação à invasão do Capitólio em 6 de janeiro após um comício em que ele e seus aliados repetiram as afirmações infundadas de que a eleição foi fraudada. Trump agora vai enfrentar um julgamento no Senado que pode torná-lo inelegível no futuro.

Apesar de ser improvável que algum dos acusados do ataque ao Capitólio seja chamado como testemunha no julgamento do impeachment, é possível que os democratas citem declarações sobre Trump que esses réus fizeram em público ou para investigadores.

À medida que os processos criminais relacionados à invasão avançam na Justiça, isso pode fazer com que alguns dos seguidores mais fervorosos de Trump tenham que culpar publicamente o homem que eles apoiam. Com isso, advogados podem tentar argumentar que seus clientes não são culpados porque um funcionário do governo permitiu que eles cometessem os crimes.

Especialistas questionam a viabilidade dessa estratégia, pontuando que qualquer pessoa que procurar culpar Trump por sua participação na invasão teria que provar não apenas que acreditava que ele havia autorizado suas ações, mas também que tal crença era razoável.

Mesmo que tentar jogar a responsabilidade em Trump possa não ser eficaz em um julgamento, isso pode ajudar a aliviar a punição para qualquer pessoa condenada por algum crime relacionado ao ataque, afirmou Judith P. Miller, professora de direito da Universidade de Chicago.

"O fato de que o maior líder do nosso país está promovendo essa grande mentira e dando a milhões de pessoas uma espécie de justificativa pode ser uma forte evidência atenuante", disse Miller.

Trump começou a promover seu evento em Washington bem antes dele acontecer, dizendo para seus aliados que se juntassem a ele para um discurso fora da Casa Branca.

Durante o discurso, com milhares de pessoas, ele disse à multidão “que caminhasse até o Capitólio”, onde o Congresso, sob a presidência de Pence, estava homologando os resultados do Colégio Eleitoral.

"Vocês nunca vão tomar de volta o nosso país com fraqueza", disse à multidão. "Vocês têm que mostrar força e precisam ser fortes."

Pouco depois de Robert Sanford, um bombeiro aposentado de Boothwyn, na Pensilvânia, ouvir essas palavras, ele se juntou à multidão crescente que marchava a caminho do Capitólio. Lá, segundo os promotores federais, Sanford arremesou um extintor de incêndio contra um grupo de policiais, ferindo três deles.

Quando Sanford voltou para casa, de acordo com uma denúncia criminal apresentada na semana passada, ele disse a um amigo que tinha ido a Washington para ouvir Trump, então "seguiu as instruções do presidente" e foi ao Capitólio. Seu advogado, Enrique Latoison, disse que ainda estava analisando se culpar Trump pela suposta ação de Sanford no ataque funcionaria como atenuante.

Quando Jennifer L. Ryan voou do Texas para Washington em um avião particular com amigos, ela decidiu ir ao Capitólio, conforme contou depois a um repórter, porque Trump "nos pediu para irmos". "Ele disse: 'Esteja lá', explicou Ryan. "Então, fui e atendi ao chamado do meu presidente."

Pouco depois, dizem os promotores, Ryan, uma corretora de imóveis de um subúrbio de Dallas, posou para uma foto em frente a uma janela quebrada no Capitólio e, em seguida, entrou ilegalmente no prédio. Em um vídeo do Facebook, que foi excluído depois, segundo documentos da Justiça, ela pode ser ouvida gritando: "Lute pela liberdade!" e "Esta é a nossa casa!"

No domingo, surgiu outro vídeo da multidão dentro do prédio enfrentando a polícia do Capitólio, quando um homem gritou com os policiais que ele e os outros invasores estavam lá porque estavam "ouvindo Trump, seu chefe". Em essência, esse foi o argumento que Watkins planeja usar para defender Jacob Chansley, o seguidor da teoria da conspiração QAnon que vestia um chapéu de pele com chifres.

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Chansley, um ator desempregado que fez seu nome nas últimas semanas aparecendo em comícios pró-Trump com o rosto pintado, um capacete de batalha com chifres e uma lança de dois metros, foi acusado de invadir o plenário do Senado e deixar um bilhete para Pence que dizia: "É apenas uma questão de tempo, a justiça está chegando".

Na sexta-feira, um juiz federal do Arizona ordenou que ele fosse detido enquanto aguardava julgamento, dizendo que ele era "um participante ativo em uma violenta insurreição para derrubar o governo dos EUA".

Watkins não negou que Chansley estava dentro do Capitólio naquele dia, mas sugeriu que seu cliente tinha ido para lá porque, como outros, ele "se agarrou às palavras do presidente".

"O que você tem aqui são pessoas como meu cliente que levam o presidente a sério",  acrescentou Watkins. "Elas esperam que ele os faça se sentirem relevantes em um sistema que os fez se sentirem negligenciados."

É por isso que Watkins planeja nos próximos dias pedir a Trump que perdoe Chansley, comparando seu cliente e os outros no Capitólio a membros de um culto. "Eles foram traídos por alguém em quem puseram sua fé", afirmou Watkins. "Eles são como os seguidores de Jim Jones."

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