John Moore/Getty Images/AFP
John Moore/Getty Images/AFP

'Eu queria que ela parasse de chorar': a imagem de uma imigrante que comoveu um fotógrafo

Moore lembra do momento em que fotografou uma menina de dois anos durante a revista da mãe na fronteira dos EUA

O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2018 | 00h58

Até agora, milhões de pessoas já viram a foto de uma menina de 2 anos gritando enquanto um agente de fronteira revista sua mãe. Na terça-feira 12, a imagem se tornou símbolo da nova política de "tolerância zero" da administração Trump sobre imigração, que acabou com a separação de centenas de crianças de seus pais, que as levavam consigo para atravessar a fronteira sul dos Estados Unidos.

O que não se viu foi John Moore, agachado a dois metros de distância, o fotógrafo que literalmente precisou recuperar o fôlego depois de tirar a foto, porque a cena havia tirado algo de dentro dele.

Premiado pelo Getty Images, Moore documentou guerras, doenças e crises de refugiados em todo o mundo. Dessa vez, ele encontrou uma garotinha e sua mãe no Vale do Rio Grande, na semana passada, e tirou a foto que pode ser uma das imagens de maior impacto de sua carreira.

De certa forma, os últimos 10 anos prepararam Moore para aquele registro. Por outro lado, ninguém está totalmente preparado para o que ele veria. Moore fotografa a crise dos imigrantes para o Getty Images desde o fim da administração de George W. Bush, quanto voltou da cobertura de guerras no Oriente Médio. Ele havia acompanhado famílias carentes pela América Central no teto de trens de carga e seguido a patrulha de fronteira dos EUA enquanto perseguiam homens pelo mato do Texas.

Ele havia estudado a crise por muitos ângulos, conhecia as rotas secretas pelos desertos, as passagens mais seguras no Rio Grande e os pontos mais sutis dos protocolos de busca e detenção da Patrulha de Fronteira.

Ele sabia que quando pessoas sozinhas atravessavam o rio durante o dia, tendiam a correr ou se esconder dos guardas. Mas grandes grupos, que viajavam na escuridão e cruzavam o rio à noite, geralmente se entregavam aos primeiros agentes americanos que encontravam.

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Os viajantes noturnos eram muitas vezes famílias exaustas e aterrorizadas em suas jornadas, procurando asilo longe de qualquer terror que as fizera fugir de casa.

Já era noite agora. Moore e uma unidade da Patrulha se agachavam entre as árvores na margem norte do Rio Grande, ouvindo as balsas logo abaixo. Ele podia ouvir ao menos quatro delas atravessando o rio e mal enxergava mais que doze figuras nos dois barcos mais próximos. "Era muito difícil ver", relembrou. "Era uma noite sem lua, quase impossível de fotografar."

Mas ele precisava fotografar. Tinha passado toda a terça-feira, tarde e noite, esperando pelo grupo, porque sabia o que esperava aquelas famílias do outro lado do rio.

Enquanto eles esvaziavam suas casas e viajavam - alguns, por semanas -, os EUA mudaram as regras. Os pedidos de asilo, que foram aceitos por anos, agora poderiam ser rejeitados. Mães e pais, que anteriormente teriam sido libertados para aguardar as audiências, agora seriam presos e separados de seus filhos.

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O público americano acabara de descobrir isso. Moore e os agentes da patrulha que se escondiam com ele também sabiam. Mas as pessoas nas jangadas... "essas pessoas não tinham como saber", explica o fotógrafo.

Ele ouviu quando os imigrantes desceram dos barcos e pisaram sobre galhos caídos, em direção a uma estrada de terra que levava à cidade fronteiriça de McAllen, no extremo sul do Texas. Ouviu uma criança chorar na floresta. Sabia o que o garoto tinha provavelmente enfrentado e ainda enfrentaria, e isso quebrou seu coração um pouco.

De repente, os agentes da patrulha começaram a se movimentar, e Moore com eles, todos amontoados entre caminhões, os motores rugindo e os faróis brilhando. Não havia mais razão para se esconder. Era hora de conhecer aqueles viajantes.

Havia dezenas de pessoas, embora fosse difícil contar no escuro. Quando as luzes dos carros os iluminaram, Moore viu que eram a maioria mulheres e crianças. Em seus olhos, a mistura de alívio e medo. Em alguns, apenas um ou o outro. "Havia um menino de 10 ou 12 anos que estava visivelmente aterrorizado", lembra.

Oficialmente, sob seu acordo com a Patrulha de Fronteira, Moore estava ali apenas para documentar e não falar com os detidos. Mas o fotógrafo tem duas filhas quase da mesma idade que o menino, e um bebê que às vezes chora como aquele garoto estava chorando.

"Tentei acalmá-lo. Mostrei-lhe algumas fotos do rio. Em um ponto eu disse 'não se preocupe. Tudo vai ficar bem'." Ele conta que imediatamente se arrependeu de dizer isso. "Eu não tenho como saber se as coisas vão ficar bem."

Ali ele já entendeu que aquela cobertura não seria como nenhuma outra. As emoções daquelas mulheres e crianças eram estampadas nas lentes de sua câmera.

Enquanto os guardas alinhavam as famílias naquela noite da terça-feira 12, Moore viu uma mulher amamentando uma criança no meio da estrada. "Não havia lugar para a privacidade. Então ela fez isso na frente dos farois do veículo da Patrulha de Fronteira." Ele esperava que sua foto fosse respeitosa.

Havia algo no modo como ela segurava a garota que o fez se aproximar delas. "Fiz contato visual com a mãe e comecei a tirar algumas fotos", conta Moore. Em espanhol, ela lhe contou o essencial de sua história.

Sua filha tem 2 anos. "Ela disse que eles estavam na estrada há um mês, eram de Honduras. Eu só posso imaginar os perigos que ela passou sozinha com a garota."

Moore já esteve em Honduras, um lugar tão dominado pela pobreza e violência de gangues que a National Geographic havia escrito que a população do país não tinha mais o "direito de envelhecer".

Ele estava no rio na fronteira dos EUA há sete horas e embora tivesse tirado muitas fotos, ainda não tinha aquela que sabia que precisava. "Ainda não tinha uma mensagem que transmitisse o impacto emocional das separações familiares", disse.

Em uma ou duas horas, o turno da escolta da patrulha terminaria e ele teria que sair. Então, perguntou à mulher se poderia acompanhá-la pelo resto do processo. Ela permitiu.

Ao redor deles, outras famílias eram interrogadas e revistadas. Quando os agentes terminaram, o grupo foi colocado numa van e levado a qualquer destino que o sistema de imigração dos EUA tivesse disponível.

Enquanto a mãe hondurenha esperava sua vez, ela se agachou no meio da poeira, os olhos no mesmo nível dos de sua filha. Na foto de Moore, ela parece amarrar os cadarços da menina, mas não é isso.

"Ela está desamarrando. A Patrulha de Fronteira confisca todos os itens pessoais de todo mundo. Eles pegam fitas de cabelo, cadarços, tiram cintos, pegam dinheiro, levam alianças, levam todos os itens pessoais."

A mãe colocou os cadarços em uma sacola de plástico transparente com o rótulo "Homeland Security". Colocou ali tudo o que carregou por quase 2,5 quilômetros, e então os agentes jogaram a sacola em uma pilha de outras sacolas. Finalmente, era a vez da mãe de ser revistada.

Moore estava ajoelhado na estrada, a cerca de dois metros de distância. A maioria das outras famílias já estava na van. Ele sabia que as fotos que tirasse em seguida seriam as últimas antes de retornar ao seu quarto de hotel. Depois voaria de volta para casa, em Connecticut, para seus filhos.

"Foi muito rápido", relembrou. A mãe colocou a menina no chão e um agente correu as mãos pelo corpo dela. A menina começou a gritar.

"Eu queria que ela parasse de chorar", lembra Moore. Ele imaginou que os guardas quisessem o mesmo - ele os tinha visto brincar com outras crianças durante as buscas, para distraí-las do que estava acontecendo com seus pais.

Mas tudo aconteceu tão rapidamente, e nesses poucos segundos o desespero da garota era completo. "A mãe pôs as mãos firmemente sobre o veículo e a menina estava chorando. Ninguém dizia nada. Nada poderia ser dito à criança. Ela precisava estar com sua mãe".

Ele tirou duas fotos, em momentos diferentes. E entendeu, assim que as tirou, que eram as fotos que estava esperando - por horas, senão anos. Ambas se tornariam símbolo do que a fronteira México-EUA se tornara sob o governo de Trump.

Então a mulher pegou a filha, elas entraram na van. A van foi embora e Moore nunca mais as viu.

Ele começou a respirar profundamente e a sentir coisas que não sentia há uma década ou mais. Teve de pensar no tempo de coberturas em zonas de guerra e ebola para lembrar de sentimentos parecidos.

Em sua cabeça, pesava as chances da garota. De acordo com as novas políticas federais, ela seria tirada da mãe quando a van chegasse ao destino e as duas não estariam mais juntas até que o caso tivesse passado pelos tribunais.

Moore queria ser otimista e acreditar que, por algum motivo, a garota não teria que gastar semanas ou meses no mesmo estado que ele havia testemunhado por apenas alguns segundos, quando ela ficou sozinha na estrada. "Eu não sei qual é a verdade", diz Moore. "Temo que elas tenham sido separadas".

De qualquer forma, a cobertura havia acabado. O fotógrafo arquivou seus registros na manhã seguinte e voou de volta para casa. Entre aquele momento e a publicação da reportagem, Moore pode ver seus filhos. / WASHINGTON POST

 

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