AP Photo/Kevin Hagen
AP Photo/Kevin Hagen

'Eu só conseguia ver luzes e luzes', diz brasileiro que presenciou atentado

Amigos de brasileiros feridos contam como foi ataque a restaurante

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2015 | 15h08

PARIS - "Eu só conseguia ver luzes saindo da arma. Os tiros não paravam". No restaurante  Le Petit Cambodge, uma mesa com sete brasileiros acabaria sendo testemunha de um dos piores atentados terroristas na Europa em anos. Um deles, Gabriel Camargo, acabou sendo atingido, além de Camila, outra brasileira. Quase 24 horas depois, ambos estão fora de risco, ainda que continuem na UTI depois de passar por duas cirurgias. Mas o que ficou na memória do grupo de amigos que escolheu o local para jantar por azar são "cenas de um pesadelo que não queria terminar".

"Sentamos em cadeiras na calçada para jantar. Já estávamos prontos para pedir a conta e ir embora e, de repente, o que vimos foi gente correndo. Eu achei que era uma brincadeira. Mas depois vimos vidros explodindo e já uma pessoa com uma arma apontada para nós e atirando", contou ao Estado o baiano Diego Ribeiro, que está em Paris fazendo uma pesquisa por três semanas. 

"Cada um tentou se proteger como pode", disse Diego, com um ferimento na cabeça depois de ser atingido por um vidro. "Me joguei para baixo de uma mesa e consegui sair por um outro lado. Entrei num supermercado, como muita gente que estava no hospital. Mas logo depois, quando vimos que tudo tinha acabado, voltamos ao local. Só ali me deu conta da dimensão do que tinha acabado de ocorrer", contou. "Vimos gente no chão, muitos mortos, sangue".

Questionado se poderia identificar o atirador, o baiano hesitou. "Não. Só dava para ver que era uma pessoa, e sua arma. Era um vulto", disse. 

Na mesma mesa estava o paulistano Guilherme Pianca. "Me joguei no chão assim que tudo começou", disse. "Na hora, o que você faz é tentar se salvar. Só depois é que baixou o pânico", confessou. "Eu só via luzes e luzes saindo da arma. Os tiros não paravam", disse. "Foram cenas de um pesadelo que não queria terminar". 

Foi quando os tiros pararam que o grupo que estava no supermercado se deu conta que dois deles estavam feridos, o que aumentou o sentimento de pânico. "Diego sangrava. Mas logo pensamos: e os outros?". 

Ao voltar ao restaurante, o choque foi inevitável. "Havia uma menina jogada ao chão, os amigos chorando e ninguém sabendo o que fazer. Foi horrível", disse Guilherme. 

Ali perto estava Gabriel, com tiros nas costas e sangrando. Camila também havia sido atingida. Segundo os brasileiros, o socorro francês também parecia "atordoado" quando chegou ao local. "Eles estavam nervosos", disse Guilherme. 

Os amigos então se dividiram entre os dois feridos. Diego estacava o sangue e colocava o corpo de Gabriel em uma posição recomendada pelo socorro, enquanto Guilherme pegava em seu pulso e não parava de falar com a vítima. 

"Gabriel esteve consciente o tempo todo e só dizia: doi muito, doi muito", contou.

Só quarenta minutos depois dos ataques é que o brasileiro seria finalmente levado para o hospital de Bichat, em Paris. Operado, ele já foi levado para um quarto na UTI.

Enquanto isso, na sala reservada pelo hospital aos familiares, a emoção ainda era palpável. Os amigos se abraçavam, cada vez que um deles surgia. Guilherme ainda gravou a voz de Gabriel e mandou para sua família. "Ele vai sair dessa", garantiu. Os médicos garantem que o brasileiro não terá sequelas, apesar de ter sido operado duas vezes. "Em alguns dias ele estará já em casa", garantiu o médico Sebastien Tanaka. 

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