'Eu sou um homem'

Onda de revoltas no mundo árabe tem origem mais existencial do que política

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2011 | 00h00

Manifestante em Benghazi com foto de filho, morto pelas forças de Muamar Kadafi

 

Observar os levantes árabes provoca em mim um sorriso na face e uma crispação no estômago. O sorriso vem de testemunhar toda uma camada da humanidade perdendo o medo e recuperando a dignidade. A crispação vem do temor crescente de que a primavera árabe pode ter sido tão inevitável como tardia.

Um amigo líbio me disse outro dia que estava assistindo a uma TV árabe via satélite de Benghazi, na Líbia, e um cartaz erguido em uma manifestação atraiu seu olhar. Ele dizia em árabe: "Ana Rajul" - que se traduz como "Eu sou um homem". Se há um cartaz que resume o levante árabe como um todo é esse.

Como já tentei argumentar, essa sublevação, na sua origem, não é política. É existencial. É muito mais Albert Camus do que Che Guevara. Todos esses regimes árabes, em maior ou menor grau, despojaram seus povos de sua dignidade básica. Eles os privaram de liberdade e nunca lhes permitiram desenvolver minimamente seu pleno potencial. À medida que o mundo se tornava conectado, foi ficando óbvio para cada cidadão árabe o quanto eles estavam atrás - não só do Ocidente, mas da China, Índia e partes da África Subsaariana.

A combinação de serem tratados como crianças por seus autocratas e como atrasados pelo restante do mundo alimentou uma profunda humilhação que se revela em cartazes como aquele na Líbia, anunciando a ninguém em particular: "Eu sou um homem" - eu tenho valor, tenho aspirações, quero os direitos que todos os outros têm no mundo. E, como muitos árabes partilham desses sentimentos, essa primavera árabe não vai terminar - por mais pessoas que esses regimes matem.

Esses regimes árabes se empenharam em impedir qualquer surgimento de alguma sociedade civil ou de partidos progressistas debaixo de seus regimes. Assim, quando os regimes quebram no topo, o elevador vai diretamente do palácio à mesquita. Não há nada entre eles - nem partidos nem instituições legítimas.

De modo que, quem está do lado de fora enfrenta um dilema cruel: os que dizem que os EUA deveriam ter apoiado Hosni Mubarak, no Egito, ou não deveriam favorecer a deposição de Bashar Assad, na Síria, em nome da estabilidade, esquecem que esse equilíbrio foi construído sobre a estagnação de milhões de árabes, enquanto o resto do mundo avançava.

Ao povo árabe não foi oferecida a estabilidade autocrática chinesa: nós tiramos sua liberdade, mas lhe damos educação e um padrão crescente de vida. Seu acordo era a estabilidade autocrática árabe: nós tiramos sua liberdade e o alimentamos com conflito árabe-israelense, corrupção e obscurantismo religioso.

No entanto, abraçar a queda desses ditadores - como devemos - é defender a demolição de um edifício podre sem nenhuma garantia de que ele poderá ser reconstruído. É isso que ocorreu no Iraque - e foi imensamente dispendioso reconstruir ali uma ordem nova e ainda tênue. Ninguém de fora fará isso novamente. Assim, abraçar a queda desses ditadores é esperar que seu próprio povo possa se unir para criar uma democracia no Egito, Síria, Iêmen e Líbia.

Aqui, porém, é preciso perguntar: a ruptura dessas sociedades não será muito profunda para alguém construir alguma coisa decente a partir dela? A primavera árabe não terá sido tanto inevitável como tardia?

Minha resposta: nunca é tarde demais, mas alguns buracos são mais profundos do que outros. Agora, estamos vendo que o buraco que os democratas árabes terão de galgar para sair é realmente profundo. Desejo-lhes sorte. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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