Eu, torturador de Abu Ghraib, não mereço perdão

Fotos dos abusos cometidos por interrogadores como eu contra detentos da prisão iraquiana em 2004 já provocam bocejos entre jovens universitários americanos

ERIC, FAIR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2014 | 02h03

Passei este semestre lecionando escrita criativa na Universidade Lehigh. Fui soldado, policial e interrogador. Por isso, ouvir alunos me chamarem de "professor" e passar lição de casa foi uma mudança de rumo significativa.

Mas o título do curso, Writing War, (algo como "escrever a guerra") não permitiu que me afastasse das lembranças que me assombraram na última década. Sou grato à Lehigh pela oportunidade de dar o curso. A disposição da escola de pôr um veterano na sala de aula é exatamente o que esse país precisa para processar coletivamente o que os últimos 13 anos de guerras forjaram. Mas ensinar uma turma sobre guerra me fez recordar diariamente que não sou nenhum professor universitário.

Fui um interrogador na prisão iraquiana de Abu Ghraib. Eu torturei.

Abu Ghraib domina cada minuto de cada dia meu. No início de 2004, trabalhadores em Abu Ghraib batalhavam para cobrir os murais de Saddam Hussein com uma camada de tinta amarela. Eu encostei acidentalmente numa daquelas paredes. Ainda uso a jaqueta de lã preta com a mancha desbotada. Ainda sinto o cheiro da tinta. Ainda ouço os sons. Ainda vejo os homens que nós chamávamos de detidos.

No mês passado, meus alunos em Lehigh leram The Things They Carried (As coisas que eles carregavam, em tradução livre), de Tim O'Brien. Durante a aula, falei sobre as coisas que os soldados americanos carregavam no Iraque. Trouxe uma caixa de charutos cheia de badulaques e lembranças que havia comprado de vendedores iraquianos no Aeroporto Internacional de Bagdá. Estava usando a jaqueta de lã preta.

Indiferença. Quando pedi para os alunos compartilharem suas lembranças da divulgação, em 2004, das fotos de Abu Ghraib mostrando o abuso de detidos, recebi o tipo de olhar que alunos dão quando acham que deveriam saber alguma coisa e se sentem envergonhados demais para admitir que não sabem. A maioria evitou o contato ocular, alguns assentiram com um gesto vago, enquanto outros foram genuinamente honestos e apenas bocejaram.

Foi meu primeiro encontro com uma geração que não considera as fotos de Abu Ghraib um momento crucial de suas vidas. Não os culpo. Estavam na escola na época. Isso é assunto para livros de história. É assunto de conversa para seus pais. É uma resposta num teste.

Enquanto olhava para seus rostos vazios, percebi que poderia me permitir uma poderosa sensação de alívio. Abu Ghraib desvanecerá. Minha transgressão será esquecida. Mas somente se eu o permitir.

Publiquei artigos em jornais detalhando nosso tratamento abusivo a detidos iraquianos. Dei entrevistas na TV e no rádio. Falei para grupos da Anistia Internacional e confessei tudo a um advogado do Departamento de Justiça e dois agentes do Comando de Investigação Criminal do Exército. Disse tudo que há para se dizer. Não é difícil fingir que a melhor coisa a fazer é deixar tudo para trás.

Naquele dia, diante da classe, fiquei tentado a deixar a apatia aplacar as verdades dolorosas da história. Não tinha mais de assumir o papel de ex-interrogador em Abu Ghraib. Era um professor na Universidade Lehigh. Poderia dar notas a trabalhos e dizer coisas inteligentes em classe. Meu filho poderia entrar no ônibus para a escola e falar com seus amigos sobre o que seu pai faz para ganhar a vida. Eu era alguém de quem se orgulhar.

Mas não sou. Fui um interrogador em Abu Ghraib. Eu torturei.

Por fim, estimulei os alunos a examinar as fotos de Abu Ghraib e registrar suas reações em ensaios criativos. Passamos tempo falando sobre os abusos que ocorreram e cheguei a expor alguns que descrevi em meus textos. Eles ainda me chamaram de "professor", mas suspeito que já não pensavam em mim como um deles.

Na terça-feira, o Senado divulgou seu relatório sobre tortura.

Muitas pessoas ficaram surpresas com o que ele continha: relatos de simulações de afogamento bem mais frequentes do as previamente descritas, privação de sono por uma semana, um procedimento horrível e humilhante chamado "reidratação retal". Não fiquei surpreso. Eu posso lhes garantir que há mais. Muita coisa continua obscura.

A maioria dos americanos não leu o relatório. A maioria não o fará.

Mas ele fica como um lembrete permanente do país que um dia nós fomos. Em alguma sala de aula universitária futura, uma professora pedirá que seus alunos leiam sobre as coisas que esse país fez nos primeiros anos do século 21. Ela recomendará partes do relatório sobre tortura do Senado. Haverá olhares vazios e bocejos apáticos. Haverá tarefas de textos e ensaios. Os alunos ficarão sabendo que esse país nem sempre é algo de que se orgulhar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É VETERANO DO EXÉRCITO AMERICANO

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