Finbarr O´Reilly/Reuters
Finbarr O´Reilly/Reuters

EUA abafam críticas de Karzai à guerra afegã

Discurso conciliatório de Washington busca evitar crise com líder aliado às vésperas de reunião da Otan que discutirá fim dos combates até 2014

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE/ NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2010 | 00h00

Às vésperas da reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Lisboa, os Estados Unidos buscavam ontem evitar que as críticas feitas no fim de semana pelo presidente afegão, Hamid Karzai, às operações militares americanas no Afeganistão se transformem em uma nova crise. Autoridades afegãs haviam agido no mesmo sentido anteontem.

No fim de semana, Karzai, em entrevista ao jornal americano Washington Post, criticou as operações noturnas dos EUA contra militantes do Taleban e da Al-Qaeda, acrescentando que estas ações estavam minando a credibilidade de suas tropas.

O general David Petraeus, principal comandante americano no Afeganistão, teria ficado irritado com a declaração do presidente afegão. Segundo Karzai, os americanos precisam reduzir o repúdio da população afegã às suas operações, o que contribui para fortalecer o Taleban.

O secretário da Defesa, Robert Gates, afirmou em um encontro com o Conselho Editorial do diário Wall Street Journal que não existem "diferenças nas estratégias dos EUA e do Afeganistão". "Nós continuaremos sendo parceiros dele (Karzai) neste conflito", disse o chefe do Pentágono.

Segundo Gates, "as declarações de Karzai refletem a impaciência de um país que está em guerra há 30 anos", acrescentando ao atual conflito a luta contra a invasão soviética nos anos 80 e as disputas civis ao longo da década seguinte. "O problema é que não podemos chegar ao nosso objetivo amanhã. E eu acho que Karzai entende esta realidade e o que precisamos fazer para o Afeganistão chegar a este ponto" em que o papel das tropas americanas será reduzido.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, também indicou que as forças americanas e afegãs seguem trabalhando em conjunto.

Evitando entrar em choque com Karzai, Hillary defendeu as operações. "Acreditamos que operações que matam importantes insurgentes e suas redes são fundamentais", afirmou a secretária de Estado. Apesar da cautela, não é segredo no Departamento de Estado e no Pentágono que os EUA estão cada vez mais irritados com o presidente afegão.

Há poucas semanas, Karzai admitiu publicamente que recebe ajuda do governo iraniano. O presidente afegão também é acusado de corrupção, de desviar dinheiro de ajuda americana, além de sabotar algumas iniciativas dos EUA no país.

No fim de semana, a Otan deve anunciar uma estratégia para encerrar as operações de combate no Afeganistão em 2014, quando as tropas afegãs assumiriam todo o controle da segurança.

Mesmo depois dessa data, as forças internacionais devem permanecer no território afegão para treinamento e logística, como ocorre hoje no Iraque. Por enquanto, o início da retirada das tropas americanas está previsto para meados do ano que vem. Mas analistas especulam que será em uma escala bem inferior ao planejado no ano passado.

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