EUA acalmam China sobre ciberataques

Secretário de Defesa vai a Pequim debater a questão

David E. Sanger*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2014 | 02h05

Às vésperas da chegada a Pequim do secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, o governo de Barack Obama realizou discretamente uma exposição extraordinária para líderes militares chineses sobre um tema que as autoridades raramente discutiram em público: a nova doutrina do Pentágono para defender os EUA de ciberataques - e para o uso de sua tecnologia contra adversários, até mesmo os chineses.

A ideia era aplacar preocupações chinesas sobre os planos de triplicar o número de cibercombatentes americanos para 6 mil até o fim de 2016, uma força que incluiria novas equipes que o Pentágono pretende posicionar em cada comando militar em todo o mundo. A esperança era fazer os chineses darem a Washington uma exposição semelhante sobre as muitas unidades do Exército de Libertação Popular (ELP) que estariam por trás da escalada de ataques a redes do governo e corporações americanas.

Por enquanto, os chineses não retribuíram - um ponto que Hagel pretendia tratar num discurso que faria na Universidade de Defesa Nacional do ELP.

O esforço, segundo dirigentes de alto escalão do Pentágono, é impedir o que Hagel e seus assessores temem que seja a crescente possibilidade de uma escalada rápida de uma série de ciberataques e contra-ataques entre EUA e China. Essa é uma preocupação importante em um momento de tensões crescentes com as pretensões chinesas sobre territórios nos mares ao leste e ao sul da China, e uma nova zona de defesa aérea.

Autoridades americanas dizem que suas iniciativas recentes foram inspiradas nas conversas com os soviéticos durante a Guerra Fria para que cada lado entendesse os limites estabelecidos para o uso de armas nucleares. "Pense nisso em termos da crise dos mísseis de Cuba", disse uma autoridade de alto escalão do Pentágono.

Embora os EUA "sofram ataques todos os dias, a última coisa que eles querem fazer é interpretar mal um ataque e entrar num conflito real", comentou. O temor de Hagel é instigado pelo fato de que, quando o presidente Obama tratou da contenção de ataques de origem chinesa com o recém-empossado presidente Xi Jinping, o ritmo desses ataques aumentou.

A maioria continua direcionada a roubar tecnologia e outras propriedades intelectuais do Vale do Silício, de fornecedoras dos militares e de empresas de energia. Muitos estariam associados a unidades de guerra cibernética do ELP, agindo em nome de empresas estatais chinesas ou suas filiais.

"Para os chineses, essa não é uma arma fundamentalmente militar, é uma arma econômica", disse Laura Galante, ex-funcionária da Agência de Inteligência de Defesa. Ela trabalha na divisão Mandiant, da FireEye, uma das maiores empresas de cibersegurança que tentam neutralizar ataques da China e de outros países contra empresas, além de hackers e criminosos.

Funcionários do governo reconhecem que Hagel, em sua primeira viagem à China como secretário de Defesa, tem uma defesa de caso muito difícil nas mãos, bem mais complicada do que no ano passado. O Pentágono pretende gastar US$ 26 bilhões em cibertecnologia nos próximos cinco anos - boa parte disso para a defesa das redes militares e mais ainda para desenvolver armas ofensivas - e essa soma não inclui orçamentos para os esforços da comunidade de inteligência em operações secretas. Essa é uma das poucas áreas, juntamente com drones e forças de operações especiais, que está recebendo mais investimento num tempo de cortes gerais no Pentágono.

Além disso, revelações sobre o foco dos EUA em armamento cibernético - incluindo ataques liderados pelos americanos à infraestrutura nuclear do Irã e documentos da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), revelados pelo ex-colaborador da agência, Edward Snowden, detalham o grau em que os EUA se engajaram no que o mundo da inteligência chama de "ciberexploração" de alvos na China.

Operações. A revelação do jornal The New York Times e da revista alemã Der Spiegel de que os EUA haviam penetrado nas redes da Huawei, a gigante de telecomunicações e internet da China, levaram Xi a colocar a questão para Obama na reunião em Haia, há algumas semanas. O ataque à Huawei, chamado Operação Shotgiant, pretendia determinar se a empresa era uma fachada do Exército, mas também se concentrou em aprender como penetrar em redes da Huawei para realizar vigilância ou ciberataques contra países - Irã, Cuba, Paquistão, entre outros - que compram equipamentos chineses. Outros ciberataques revelados nos documentos se concentraram em invadir importantes empresas de telecomunicações e redes sem fio da China, principalmente nas usadas pelos líderes chineses e suas unidades militares.

Obama disse ao presidente chinês que os EUA, diferentemente da China, não usam seus poderes tecnológicos para roubar dados corporativos e entregá-los a suas próprias empresas. Sua espionagem, um dos assessores de Obama disse mais tarde a jornalistas, é exclusivamente para "prioridades de segurança nacional". Para os chineses, porém, para os quais segurança nacional e econômica são a mesma coisa, esse argumento tem pouco peso.

Por isso, as revelações mudaram a discussão entre os funcionários de alto escalão do Pentágono e do Departamento de Estado e seus equivalentes chineses em reuniões discretas para elaborar o que um deles chamou de "um entendimento sobre regras e sobre normas de comportamento", para China e EUA.

A decisão de realizar uma exposição para os chineses sobre a doutrina militar americana sobre o uso de armas cibernéticas foi controvertida, até porque o governo Obama quase nunca fez isso para o público americano, embora elementos da doutrina possam ser montados a partir de declarações de autoridades de alto escalão e de uma diretriz presidencial sobre essas atividades, assinada pelo presidente em 2012. A Casa Branca divulgou trechos não sigilosos na época. Snowden divulgou o documento inteiro.

Hagel se referiu à doutrina semanas atrás, quando foi à cerimônia de passagem para a reserva do general Keith B. Alexander, o primeiro oficial militar a comandar conjuntamente a NSA e o comando cibernético das forças militares. O general Alexander foi substituído pelo almirante Michael Rogers, que, como chefe do Comando Cibernético da Frota da Marinha, foi importante no desenvolvimento de um corpo de especialistas capazes de conduzir uma guerra cibernética em paralelo às forças mais tradicionais.

"Os EUA não buscam militarizar o ciberespaço", disse Hagel na cerimônia. "Queremos descrever uma doutrina de 'uso mínimo' de armamento cibernético contra outros Estados." A declaração pretendia tranquilizar outros países - e não só a China - de que os EUA não usariam seu crescente arsenal contra eles.

Em Pequim, o secretário de Defesa "vai ressaltar para os chineses que nós, integrantes das forças militares, seremos o mais transparentes que pudermos", disse o contra-almirante John Kirby, secretário de imprensa do Pentágono. "E queremos a mesma abertura, transparência e contenção deles."

Especialistas americanos e da China disseram que muita coisa ficou fora da declaração de Hagel. Os EUA separam operações ofensivas do tipo que inutilizou cerca de mil centrífugas no Irã - o ciberataque mais conhecido (e não admitido) dos americanos - da espionagem mais comum permitida por computadores, como a realizada contra os chineses para reunir informações sobre um adversário potencial.

"É evidente que o ciberespaço já está militarizado, porque temos países usando recursos cibernéticos para fins militares há 15 anos", disse James Lewis, especialista do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. "Os chineses também têm capacidades ofensivas há anos, junto com mais de uma dezena de países que admitem estar desenvolvendo-as."

*David E. Sanger é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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