EUA aceitam retomar diálogo com Irã

Porta-voz do Departamento de Estado americano diz que Washington, à frente do grupo P5+1, marcará nas próximas semanas reunião com Teerã; chanceler turco afirma que governo iraniano estaria disposto a parar com enriquecimento de urânio

Denise Chrispim Marin, correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

Mediação. Davutoglu em Istambul: respondendo pelo Irã    

 

 

 

Os EUA deram ontem o primeiro sinal de que podem voltar a negociar com o Irã um acordo de troca de urânio enriquecido a 3,5% por combustível nuclear. O porta-voz do Departamento de Estado, Phillip J. Crowley, afirmou que uma reunião será agendada nas próximas semanas entre o Irã e o P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, China, Rússia e Alemanha) para retomar as conversas com base no acordo de outubro de 2009.

A resposta do Irã não foi direta. Coube ao chanceler da Turquia, Ahmet Davutoglu, informar que Teerã se dispõe a parar com o processo de enriquecimento de urânio a 20%, nível necessário para a fabricação de combustível nuclear para reatores de pesquisa, se um acordo definitivo for fechado.

"Esperamos ter o mesmo tipo de encontro que tivemos em outubro (quando o acordo foi proposto pelo P5+1). Obviamente, estamos totalmente preparados para continuar a tratar com o Irã tópicos específicos da nossa proposta inicial relativa ao reator de pesquisa iraniano", afirmou Crowley. Ele não mencionou o esforço de Turquia e Brasil, em maio, para convencer Teerã a aceitar um compromisso para a troca de urânio.

Esse acordo previa a troca de 1.200 quilos de urânio iraniano enriquecido a 3,5% (suficiente para fins energéticos) por combustível para um reator de pesquisas, que necessita de um grau de pureza de 20%. Para a construção de uma arma, a pureza necessária é de mais de 90%.

O anúncio do pacto foi seguido do consenso entre os países do P5+1, liderados pelos EUA, para a apresentação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU, aprovadas posteriormente ? numa votação que isolou Brasil e Turquia, membros não-permanentes do CS que votaram contra a resolução. Um dos argumentos dos EUA para rejeitar o acordo Irã-Brasil-Turquia referia-se à quantidade de urânio iraniano enriquecido a 20% envolvida na troca ? supostamente, o estoque teria aumentado em sete quilos entre outubro e maio.

Além disso, o pacto não apresentava garantias por parte de Teerã de que o processo de enriquecimento de urânio seria paralisado. Para os EUA, o compromisso do Irã de desenvolver a tecnologia nuclear somente para fins pacíficos não estava claro.

Num sinal de que a Casa Branca também imporá condições ao Irã para a retomada das conversas, Crowley destacou o interesse americano em "tentar conhecer completamente a natureza do programa nuclear iraniano".

A possibilidade de retomada das conversas foi aberta por uma carta enviada na segunda-feira pelo Irã à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em Viena, e à comissária da União Europeia para Relações Exteriores, Catherine Ashton.

No texto, o regime iraniano afirmou o desejo de se reunir com a comunidade internacional em setembro. Uma das alavancas para a iniciativa do Irã buscar o diálogo foi o impacto das novas sanções autorizadas pelo CS, em junho.

De acordo com o Wall Street Journal, mais de 12 navios de carga iranianos estão parados nas últimas semanas nos portos do país por causa da dificuldades dos exportadores de obter seguro de bancos europeus. As novas sanções teriam ainda atrapalhado os planos da Guarda Revolucionária do país no setor de gás.C

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