EUA acusam Assad de matar 1.429 em ataque químico; retaliação é iminente

Os Estados Unidos indicaram ontem que estão prestes a iniciar um ataque limitado e de curto prazo contra a Síria, com o objetivo de retaliar o regime pelas explosões de armas químicas que mataram pelo menos 1.429 pessoas no dia 21 de agosto, segundo estimativa de Washington.

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h12

O caminho para a ação militar foi pavimentado com a divulgação de um relatório do serviço de inteligência que responsabiliza autoridades ligadas a Bashar Assad pelo uso de gases proibidos e mortais contra a população civil.

Apesar de afirmar que ainda não tomou a "decisão final sobre as várias ações que podem ser adotadas", o presidente Barack Obama deixou evidente sua intenção de atacar a Síria. A questão não é mais "se" a ofensiva ocorrerá, mas sim quando e como ela será realizada.

Cinco navios de guerra americanos estão ancorados no leste do Mar Mediterrâneo, prontos para disparar mísseis contra o território sírio. De acordo com a imprensa do país, há 50 alvos já definidos.

Washington sustenta que sua intenção é punir Assad e reduzir sua habilidade de utilizar armas químicas no futuro.

Depois de dez anos de guerra no Afeganistão e no Iraque, o presidente reconheceu que há resistência ao envolvimento do país em mais um conflito e definiu os limites da ação: ela terá prazo para acabar, não levará à presença de tropas em território sírio e não buscará a deposição de Assad.

"Eu asseguro: ninguém é mais ressabiado em relação à guerra do que eu", declarou Obama, que há dez anos se opôs à Guerra do Iraque iniciada por seu antecessor, George W. Bush. "Não estamos considerando um comprometimento em aberto."

'Liderança mundial'. Segundo ele, punir Assad pelo suposto uso de armas químicas faz parte da responsabilidade dos Estados Unidos como "líderes do mundo".

Durante os últimos dias, Washington trabalhou em várias frentes para tentar reunir apoio e justificar a ação contra o regime sírio. Sem o aval do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a administração tentou dar um arcabouço legal à operação militar com o argumento de que Assad violou a legislação internacional e usou armas que são banidas por tratados multilaterais.

Apresentação de provas. As provas que supostamente vinculam o regime ao ataque do dia 21 de agosto foram listadas ontem no relatório do serviço de inteligência, apresentado em pronunciamento do secretário de Estado americano, John Kerry.

Há uma década, o governo Bush justificou o início da Guerra do Iraque com outro relatório da inteligência, segundo o qual Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa - o que foi posteriormente desmentido. "Nós não vamos repetir aquele momento", afirmou Kerry.

Diante do ceticismo da opinião pública, a administração Obama decidiu revelar o conteúdo não confidencial do relatório.

"Não estou pedindo que vocês acreditem em minha palavra. Leiam vocês mesmos", declarou Kerry.

Os dados reunidos pelo serviço de inteligência indicam que nos três dias que antecederam o ataque do dia 21, integrantes do regime discutiram a operação e se prepararam para o impacto da explosão de armas químicas.

Os foguetes que carregaram as cargas letais foram disparados de regiões controladas pelo regime de Assad e caíram em 12 áreas dominadas pelos rebeldes, onde ofensivas anteriores com armas convencionais haviam falhado. Além disso, imagens disseminadas nas redes sociais e relatos de médicos e ONGs independentes no local apontam para o uso de armas químicas.

Segundo Kerry, a punição do regime de Assad é necessária não apenas para reforçar a segurança dos Estados Unidos e de seus aliados na região, mas para manter a credibilidade americana. "Isso está relacionado à nossa credibilidade e à questão de se os países ainda acreditam nos Estados Unidos quando dizemos alguma coisa."

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