EUA acusam Rússia de colocar Israel em perigo ao armar regime sírio

Impasse. Secretário de Estado americano, John Kerry, diz que envio de sistema de defesa antiaéreo é 'irresponsável' e imprensa russa afirma que representantes de Assad estão em Moscou para encomendar caças; tensão ameaça conferência de paz em Genebra

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2013 | 02h05

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, criticou duramente ontem a decisão russa de vender um sofisticado sistema de mísseis terra-ar para a Síria, dizendo que o envio das armas terá "impacto negativo e profundo" sobre a segurança da região, especialmente de Israel. Citando fontes oficiais, jornais russos indicaram que os mísseis S-300 não devem ser entregues até o fim deste ano.

"Julgamos que (a venda) é irresponsável, considerando o tamanho e a natureza dessas armas e seu impacto sobre a região em relação à segurança de Israel", disse Kerry em Washington, ao lado do ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle.

Ainda ontem, a fabricante dos jatos MiG anunciou que Damasco pretende assinar mais um contrato de compra. Segundo a imprensa russa, uma delegação síria está em Moscou negociando "pelo menos dez" caças de última geração MiG-29. As Nações Unidas e ONGs internacionais afirmam que o regime de Bashar Assad está usando sua aviação de modo indiscriminado contra zonas civis.

Conferência. A polêmica sobre o envio de armas a Damasco ameaça reduzir as chances de sucesso da conferência de paz de Genebra, este mês, convocada por americanos e russos para tentar encontrar uma solução política para a guerra civil síria.

Os S-300 que Moscou promete fornecer a Damasco reforçariam a capacidade de defesa da Síria contra uma eventual intervenção estrangeira ou mesmo bombardeios pontuais de Israel. No entanto, o armamento pode ser adaptado para reforçar a capacidade balística - portanto, ofensiva - do regime de Assad.

"Descobriremos muito rapidamente se eles (os russos) e outros estão agindo de boa-fé", disse Kerry, criticando também o forte apoio do Hezbollah libanês e do Irã à Síria. "Se eles não estiverem, o mundo saberá."

O anúncio, no mês passado, de uma conferência de paz sobre a Síria, feito por Kerry e pelo chanceler russo, Sergei Lavrov, foi saudado por vários governos, incluindo o Brasil. No entanto, o regime e os rebeldes sírios vêm impondo novas condições para o diálogo - e as expectativas estão cada vez menores.

A Alemanha também criticou o fornecimento do sistema de mísseis a Assad, dizendo ter discutido o assunto com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. "Quero deixar isso absolutamente claro: nós dissemos aos nossos colegas russos para não ameaçar a conferência de Genebra. A entrega de armas a Assad é totalmente errada", afirmou Westerwelle, em Washington.

Mais violência. Dentro da Síria, forças leais a Assad atacaram um comboio que levava feridos da cidade de Qusayr, perto da fronteira do Líbano, onde rebeldes e soldados sírios - com ajuda de militantes do Hezbollah - travam nas últimas semanas uma intensa batalha. Pelo menos sete opositores teriam morrido no ataque de ontem, segundo ativistas locais. Em 26 meses, a guerra civil na Síria deixou mais de 80 mil mortos. / AP

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