Stringer/Reuters
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EUA admitem negociar com Taleban para acelerar saída do Afeganistão

Secretário da Defesa americano confirma informação dada por presidente afegão

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2011 | 00h00

Às vésperas de o governo de Barack Obama definir a dimensão da retirada das tropas do Afeganistão, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, admitiu ontem que diplomatas americanos iniciaram negociações preliminares com integrantes do Taleban nas últimas semanas. Na véspera, o presidente afegão, Hamid Karzai, já tinha dado declaração indicando a existência desse diálogo.

Até este fim de semana, os EUA jamais haviam confirmado especulações sobre negociações com a milícia afegã. As tratativas também sempre foram negadas pelo Taleban.

Mesmo depois das afirmações de Gates e do presidente do Afeganistão, a milícia aliada da rede terrorista Al-Qaeda não assumiu que participa deste diálogo.

Os resultados dessas conversas podem demorar meses, segundo o chefe do Pentágono, e tampouco existem garantias de que os interlocutores seriam legítimos representantes do mulá Mohamed Omar, líder da organização.

"Minha opinião é a de que uma reconciliação real não ocorrerá antes do inverno (no Hemisfério Norte, verão no Brasil)", disse Gates, que deixará o posto de secretário no fim do mês, depois de servir tanto na administração de George W. Bush como na de Obama.

"Antes de ter uma conversa séria, eu acredito que o Taleban precisa se sentir sob pressão militar para perceberem que não podem vencer", acrescentou Gates em entrevista para a rede de TV CNN ontem, citando os avanços das forças americanas e aliadas nas Províncias de Kandahar e de Helmand, antigos redutos da milícia.

Karzai, no sábado, disse que "as negociações com o Taleban haviam começado" e "forças americanas" também estavam participando.

Segundo o secretário da Defesa dos EUA, "o Taleban precisará respeitar determinadas condições para a reconciliação, incluindo o fim da aliança com a Al-Qaeda e o apoio à Constituição do Afeganistão".

O grupo, aliado da rede terrorista, foi derrubado do poder depois do 11 de Setembro na ofensiva liderada pelos americanos por dar guarida à organização de Osama bin Laden.

Nos próximos dias, o presidente dos EUA precisará decidir qual será o tamanho da retirada americana do Afeganistão, onde há mais de 100 mil militares americanos, sem falar nas dezenas de milhares de contratados de empresas terceirizadas.

Desde que assumiu o poder, Obama já enviou 65 mil tropas adicionais ao país da Ásia Central para lutar contra a Al-Qaeda e o Taleban.

Depois da bem sucedida operação para matar Bin Laden, em maio, e diante dos gastos bilionários com o conflito que já dura quase dez anos, cresceu, nos últimos meses, a pressão para uma retirada maior do contingente americano, indicando claramente que as operações americanas estejam próximas do fim. No entanto, membros das Forças Armadas acham prematura uma redução brusca neste momento, uma vez que ela poderia colocar em risco os avanços conquistados pelo aumento das tropas.

"Nós apresentaremos opções ao presidente com diferentes riscos associados a cada uma delas e ele decidirá qual a melhor delas", disse Gates.

Na avaliação do secretário da Defesa, o conflito no Afeganistão deve terminar de uma forma semelhante ao do Iraque, com os americanos assumindo "o papel de montar as forças de segurança e de reduzir a capacidade operacional do Taleban para que as forças afegãs tenham condições de lutar sozinhas".

Fundamentalismo. Formado no fim dos anos 90 com o apoio velado do serviço secreto do vizinho Paquistão, o Taleban ("estudantes", em árabe) saiu das madrassas (escolas corânicas) paquistanesas e, pelas armas, tomou o poder no Afeganistão. A milícia adotou a sharia - código penal islâmico - e impôs no país a interpretação literal do Alcorão, proibindo TVs e filmes e forçando mulheres ao uso da burca, vestimenta que cobre o corpo todo.

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