EUA admitem tortura de preso em Guantánamo

Pela primeira vez, agente de Washington reconhece prática publicamente

Bob Woodward, The Washington Post, O Estadao de S.Paulo

15 de janeiro de 2009 | 00h00

Susan Crawford, funcionária do alto escalão do governo Bush encarregada de decidir se presos na Baía de Guantánamo devem ser levados a julgamento, concluiu que o Exército torturou um cidadão saudita que, supostamente, participou dos ataques de 11 de setembro de 2001. Segundo ela, ele foi submetido a técnicas como ser mantido em prisão solitária, privação de sono, nudez e exposição prolongada ao frio, que o deixaram numa "situação de risco de vida". "Nós torturamos (Mohammed al-) Qahtani", afirmou Susan, em sua primeira entrevista desde a sua nomeação, em 2007, como autoridade de convocação para as comissões militares de Guantánamo. "O tratamento a que ele foi submetido confere com a definição legal de tortura. E por isso não recomendei a instauração de um processo judicial neste caso", disse. Susan, juíza aposentada que trabalhou como conselheira do Exército durante o governo de Ronald Reagan, é a primeira funcionária do alto escalão da administração de George W. Bush a declarar publicamente que um preso foi torturado. Segundo ela, a combinação de técnicas de interrogatório, sua duração e o impacto sobre a saúde de Qahtani levaram a essa conclusão. "As técnicas usadas eram todas autorizadas, mas o modo como foram aplicadas foi totalmente agressivo e muito persistente... quando você pensa em tortura, imagina um ato físico horrendo praticado contra um indivíduo. Esse não foi um ato particular; foi uma combinação de coisas que tiveram um impacto sobre a saúde dele. Foi abusivo e desnecessário. E sob coação. Claramente. E foi o impacto à saúde do detento que me levou a qualificar isso como tortura", disse. Em novembro, os promotores militares disseram que reapresentariam as acusações contra Qahtani, de 30 anos, com base nos interrogatórios subsequentes, quando não foram empregadas técnicas muito duras. Mas Susan, que rejeitou as acusações de crimes de guerra contra o saudita em maio, afirmou na entrevista que não permitirá que o processo vá adiante. Qahtani teve negada sua entrada nos EUA um mês antes dos atentados de 11 de Setembro e, supostamente, seria o 20º integrante do grupo que realizou os ataques. Ele foi capturado no Afeganistão e levado à Guantánamo em janeiro de 2002. Foi mantido em solitária até abril de 2003. "Durante 160 dias seu único contato foi com as pessoas que o interrogaram", disse Susan, que examinou pessoalmente os registros do interrogatório de Qahtani e outros documentos. Ele teve de ficar nu diante de uma agente feminina. Foi submetido a revistas. Sua mãe e irmã foram insultadas. Num dado momento, foi ameaçado por um cão do Exército. Qahtani "foi forçado a usar um sutiã, uma cinta de couro foi amarrada na sua cabeça durante o interrogatório...(e) lhe disseram que sua mãe e irmã eram prostitutas".O caso de Qahtani realça os desafios a serem enfrentados pelo futuro governo de Barack Obama, que pretende fechar a controvertida prisão de Guantánamo.

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