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Líderes durante a cúpula do clima convocada por Joe Biden AP Photo

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EUA adotam corte radical de emissões; sob desconfiança, Brasil divulga metas

Biden propõe novas metas ambientais na abertura da cúpula do clima, que marca a volta dos americanos à posição de líder global em questões climáticas; Bolsonaro pede dinheiro para conter desmatamento, mas ainda enfrenta ceticismo 

Redação , O Estado de S.Paulo

Atualizado

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Joe Biden organizou uma cúpula do clima com 40 líderes mundiais para marcar a volta dos EUA à posição de líder global em matéria ambiental, deixando para trás os anos de isolamento de Donald Trump. Ontem, logo na abertura, o presidente americano anunciou uma nova meta ousada de reduzir pela metade a emissão de gases do efeito estufa até 2030.

O objetivo era pressionar outros países a replicar o gesto. Conseguiu concessões de alguns aliados, como Japão e União Europeia, mas ficou no vácuo com relação a outros. Índia e China, grandes poluidores e consumidores de energia, por exemplo, não assumiram nenhum compromisso novo.

Para os brasileiros, o momento mais aguardado era o discurso de Jair Bolsonaro. O Brasil, que sempre teve protagonismo na geopolítica climática, desde a Rio-92, vem sendo criticado por sua política ambiental, principalmente em razão da devastação da Amazônia. A fala de Bolsonaro durou pouco mais de 7 minutos.

Nela, o presidente adotou um tom conciliador e tentou passar a imagem de um governo comprometido com a preservação das florestas e das comunidades indígenas. Apesar de ter ignorado os recordes atuais de desmatamento, ele propôs novidades, como antecipar para 2050 o prazo para o Brasil zerar as emissões de gases do efeito estufa – a meta anterior era 2060.

O discurso de Bolsonaro foi recebido com ceticismo por especialistas e diplomatas, que desconfiam da súbita conversão do presidente brasileiro ao ativismo ambiental. Um dos pontos que levanta mais suspeita da comunidade internacional é o pedido do Brasil de recursos financeiros para combater o desmatamento e as emissões de gases- estufa.

“É preciso haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta como forma de reconhecer o caráter econômico das atividades de conservação”, afirmou. No entanto, os donos do dinheiro, principalmente americanos e europeus, continuam exigindo resultados concretos antes de dar a Bolsonaro a chave do cofre. 

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The Economist: Cúpula de Biden pode não recuperar credibilidade dos EUA

Ações de adversários do presidente americano no Congresso e em Pequim podem atrapalhar seus planos 

The Economist, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

Na preparação da cúpula do clima, organizada por Joe Biden, seus representantes estavam por toda parte: John Kerry, czar do clima, enalteceu a entrega de mercadorias sem pegadas de carbono; Jennifer Granholm, secretária de Energia, elogiou empregos que beneficiam o meio ambiente; e Antony Blinken, secretário de Estado, explicou a diplomacia climática relacionada à Baía de Chesapeake. Mas Biden também ofereceu algo mais tangível: a promessa de reduzir pela metade as emissões de gases do efeito estufa até 2030, em relação aos níveis de 2005, com uma meta de emissões líquidas iguais a zero, até 2050.

Isso conta como um progresso real para um presidente americano, mesmo que Donald Trump não tivesse estabelecido um referencial tão baixo. Uma meta de emissões, ou contribuição determinada a nível nacional, é exigida pelo Acordo de Paris – que Trump rejeitou e ao qual Biden voltou a aderir. Definir uma meta ousada agora, acredita-se, encorajaria outros países a fazer o mesmo antes da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Glasgow, em novembro. Os EUA poderiam apoiar uma transição para uma energia mais limpa em países pobres e investir em inovações a serem implantadas em todo o mundo. No entanto, outros líderes têm motivos para ver as promessas americanas com ceticismo.

Na década de 90, o governo de Bill Clinton negociou o Protocolo de Kyoto, mas o Senado se recusou a ratificá-lo. Barack Obama pressionou pelo Acordo de Paris, apenas para que Trump declarasse, em 2017, que os EUA se retiravam dele. Obama prometeu doar US$ 3 bilhões em financiamento climático para os países mais pobres. Daquele total, US$ 2 bilhões ainda estão pendentes. 

Depois que Trump rejeitou o Acordo de Paris, governadores que dizem se preocupar com o meio ambiente se comprometeram a apoiá-lo. Mas eles também estão aquém de seus objetivos. Seus Estados estão a caminho de limitar as emissões de gases-estufa em 18% abaixo dos níveis de 2005 até 2025, de acordo com o Fundo de Defesa Ambiental dos EUA, em comparação com a meta de 26%-28% estabelecida por Obama.

O projeto de infraestrutura de Biden, apresentado em março, inclui apoio a carros elétricos, energias renováveis e inovação, assim como um padrão de eletricidade limpa, exigindo que o sistema de energia seja livre de emissões de gases de efeito estufa até 2035. Seria a legislação climática mais importante dos EUA até hoje. No entanto, a oposição republicana significa que ela pode não ser aprovada no Senado conforme foi proposta.

Mesmo que isso acontecesse, talvez não fosse o suficiente. O Climate Action Tracker, grupo de análises científicas que acompanha ações governamentais para o clima, estima que, para cumprir as metas do acordo de Paris, pelo menos 95% das vendas de carros dos EUA devem ter emissões zero até 2030. Biden propõe apoio para carros elétricos, mas sem prazo para tirar de circulação aqueles que consomem gasolina. “Em algum momento, precisaremos de legislação climática adicional na forma de padrões, mandatos, um preço pela pegada de carbono”, argumenta Jason Bordoff, reitor da Escola de Clima da Universidade Columbia.

A tentativa de Biden de encorajar a emissão zero de carbono pelo mundo não é simples. Seu orçamento propõe US$ 1,2 bilhão para o Fundo Verde do Clima da ONU, mas Biden também está interessado em mobilizar financiamento de outras maneiras. A Development Finance Corporation dos EUA pode promover mais projetos de energia limpa no exterior como alternativas ao carvão. A Casa Branca sinalizou apoio ao alívio da dívida associada ao clima para países pobres e de renda média. Bordoff aponta para o alívio da dívida na década de 1980 vinculado a investimentos em biodiversidade. “Você pode imaginar algo como uma troca de clima por dívida para impulsionar o investimento em energia de baixa pegada de carbono”, disse.

Para Entender

O que é o encontro convocado por Joe Biden

Reunião de líderes mundiais quer estabelecer novos compromissos para a redução das emissões de carbono e nasceu do interesse americano de se recolocar como protagonista no cenário internacional após os anos Trump

No entanto, o interlocutor estrangeiro mais importante dos EUA é aquele com o qual as relações diminuíram de forma mais acentuada. A Agência Internacional de Energia espera que a China seja responsável por mais da metade da recuperação no consumo de carvão este ano. Kerry, em visita a Xangai neste mês, pediu que o clima fosse uma questão “independente”. 

Li Yifei, coautor do livro China Goes Green, afirma que o clima é indissociável de debates sobre influência geopolítica, propriedade intelectual ou política industrial. “A mudança climática, por definição, não é uma questão isolada”, argumenta. A reunião organizada por Biden é uma demonstração de sua determinação. Mas o sucesso dependerá da cooperação de seus adversários, no Congresso e em Pequim. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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Entrevista: Discurso de Bolsonaro na cúpula do clima foi 'desperdício' de oportunidade para o País,

Para o diplomata, pedido de repasse estrangeiro para viabilizar mudanças na área ambiental é 'desculpa para não fazer nada'

Entrevista com

Rubens Ricupero, embaixador

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

A participação do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima 2021 nesta quinta-feira, 22, não mudou a imagem do Brasil no exterior e foi o "desperdício" de uma oportunidade que o governo brasileiro tinha de repensar suas políticas ambientais, avalia o diplomata e embaixador Rubens Ricupero.

Em entrevista ao Estadão, o também ex-ministro criticou a solicitação de repasse estrangeiro para a preservação ambiental. "É uma desculpa para não fazer nada", afirmou ele, completando que o governo deveria, antes de pedir dinheiro, justificar o R$ 2,9 bi parados no Fundo Amazônia. Confira os principais trechos da entrevista: 

Como o sr. avalia o discurso do presidente na cúpula do clima?

Não houve novidade, ele já tinha adiantado as linhas gerais do discurso. A única coisa que chama a atenção é a mudança de discurso em relação ao que era antes. Agora, Bolsonaro se declara defensor do meio ambiente.

O que justifica a mudança?

Atribuo isso ao fato de ele estar em uma situação defensiva. 

O sr. acredita que os demais países acreditaram nesse discurso?

Não. Nem interna e nem externamente. O discurso seria novo se ele anunciasse alguma mudança. Mas ele não anunciou nada. Não há um cronograma de combate ao desmatamento, mudança do ministro do Meio Ambiente, ele não apresenta nada de novo. São palavras, palavras e palavras. É uma mudança que comparo ao uso de máscara na pandemia: um dia está usando a proteção, no outro está provocando aglomeração. Ou seja: não há mudança na prática, e o mesmo vale para a política de meio ambiente. O que me chama a atenção é que entre palavras e fatos não há nem um intervalo grande de tempo. Exemplo: Bolsonaro enviou a carta a Biden no dia 14 (prometendo eliminar desmatamento ilegal até 2030) e menos de 24h depois demitiu o superintendente da Polífica Federal que pediu a investigação de Salles. Ele não faz nada para aumentar sua credibilidade, apenas muda as palavras. 

O presidente poderia ter apresentado ações concretas, em vez de promessas?

Ele pediu recurso, mas não explicou por qual motivo não usa os R$ 2,9 bi do Fundo Amazônia que estão parados no BNDES por culpa do governo. Qual é a explicação? Por que precisa de mais dinheiro? Faltaram fatos, faltaram anúncios concretos, mudanças de política e uma explicação sobre o Fundo Amazônia. Por isso não há credibilidade no que ele anuncia. 

Em seu discurso, Bolsonaro ignorou todo o desmonte da área ambiental em seu governo. O sr. acha que ele poderia ter feito um 'mea-culpa'? 

Eu não imagino que ele faria isso. E tem mais: as partes do discurso, assim como da carta (a Biden), em que existe um autoelogio na verdade se referem a conquistas de governos anteriores. Ele cita a queda do desmatamento na Amazônia que ocorreu na época em que a Marina Silva era ministra, portanto no governo do PT. Ele quer receber crédito por uma conquista que é de um governo que ele abomina. O governo dele não tem crédito nenhum, só o aumento do desmatamento no primeiro e no segundo ano. E o desmatamento da Amazônia em março, que foi o pior do mês em 10 anos. Não há um fato, uma conquista que ele possa enumerar como própria.

O discurso na cúpula muda a imagem do Brasil? 

Em nada. Ao contrário, é até um desperdício de uma oportunidade, porque depois da derrota de Donald Trump, essa foi a melhor oportunidade que o governo brasileiro tinha de repensar suas políticas e apresentar alguma nova postura num foro com atenção mundial em que estavam todos os grandes líderes. E ele (Bolsonaro) jogou fora isso. Não aproveitou essa oportunidade de repensar a política que vem seguindo até aqui. 

O que achou do presidente condicionar a preservação ao repasse estrangeiro?

É uma desculpa para não fazer nada. Se fosse um problema de dinheiro, faltaria explicar à opinião pública sobre os quase R$ 3 bilhões parados. Eles não usam (o dinheiro do Fundo) porque discordam das regras. É um discurso mentiroso, fala em população indígena, em populações tradicionais, mas todos sabem que o que eles objetaram ao Fundo Amazônia era a presença de povos indígenas e da sociedades civil no Conselho que governa o Fundo.

Qual foi a importância da cúpula?

A cúpula marca a volta dos Estados Unidos à liderança mundial nessa área. E agora eles vão pressionar os outros países, pois adotaram uma meta ambiciosa (de cortar emissões de carbono pela metade até 2030). Em termos de resultado, esse é o começo do caminho. O ponto de chegada é a cop26, em novembro. O que se fez agora foi apenas um apelo para que os países façam um esforço de ir além do compromisso assumido no Acordo de Paris. 

Se o Brasil cumprir com aquilo que prometeu, pode melhorar sua imagem?

Teria condições até Glasgow (cop26). Mas, para isso, seria indispensável mudar a política. E não seria só uma mudança no titular do ministério, mas uma mudança de política: dar mais recursos ao ministério e combater efetivamente o desmatamento. 

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Com anúncio mais ambicioso, EUA pautam a reunião

Ao anunciar corte de metade das emissões de gases até 2030, Biden pressiona líderes a dar mais passos e ganha protagonismo

Beatriz Bulla / Correspondente , O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Sob o governo de Joe Biden, os EUA anunciaram uma nova e ambiciosa meta ambiental, que exigirá uma transformação na economia do país e pode ajudar a frear o aquecimento global. Se executada, a promessa do americano de cortar pela metade as emissões domésticas de gases causadores de efeito estufa até 2030 deve fazer com que os EUA façam sua parte para limitar o aquecimento global a 1,5ºC. 

O efeito de uma redução nas emissões de carbono ainda nesta década por parte do segundo maior poluente do mundo, só atrás da China, teria efeito concreto nos níveis de aquecimento, mas não só. A ideia do governo Biden é provocar os demais signatários do Acordo Climático de Paris a entregar mais do que se comprometeram ao assinar o tratado, em 2015.

No acordo, elaborado durante o governo Obama, os EUA haviam declarado que iriam reduzir as emissões de 26% a 28% na comparação com os níveis de 2005. Biden dobrou a meta, prometendo uma revolução na forma como os americanos geram energia, empregos e se deslocam. “Os sinais (da mudança climática) são inconfundíveis, a ciência é inegável e o custo da inação continua aumentando”, disse Biden. “Realmente não tenho escolha. Temos de fazer isso”, disse Biden aos líderes internacionais.

“Quando os EUA estabelecem uma meta de redução de emissões de 50-52% em relação aos níveis de 2005 até 2030, isso não é apenas transformador para os cidadãos daquele país, mas também influencia todas as outras economias, pequenas e grandes”, disse Christiana Figueres, uma das negociadoras do Acordo de Paris, em artigo publicado pela CNN. 

“A verdade é que os EUA representam menos de 50% das emissões mundiais”, disse Biden, ao pedir engajamento do restante do mundo. “Nenhuma nação pode resolver esta crise por conta própria”, disse o americano. 

Biden recolocou os EUA no Acordo Climático de Paris no mesmo dia de sua posse. O país tinha se retirado do tratado durante o governo Donald Trump, que tratava o tema com desdém e dizia que o acordo trazia desvantagens para os americanos. O compromisso anunciado ontem é o maior que os EUA já assumiram em termos de redução das emissões, apesar de ainda ser visto por ativistas como menor do que o desejado. “É o suficiente? Não, mas é o melhor que podemos fazer hoje e prova que começamos a agir”, disse o enviado especial do clima de Biden, John Kerry

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O que é o encontro convocado por Joe Biden

Reunião de líderes mundiais quer estabelecer novos compromissos para a redução das emissões de carbono e nasceu do interesse americano de se recolocar como protagonista no cenário internacional após os anos Trump

Para implementar a meta, Biden precisará tirar do papel seu plano trilionário de infraestrutura, com o qual pretende ampliar a rede de tecnologia dos EUA, além de promover construções e reposicionar a indústria automobilística americana para, ao mesmo tempo, tornar a economia do país mais próxima de um sistema ambientalmente sustentável e criar empregos verdes.

“Quando falo de clima, penso em criação de empregos, oportunidade econômica. Quero construir uma infraestrutura crucial, produzindo tecnologia limpa. Converso com especialistas e vejo o potencial para um futuro mais próspero e justo”, disse Biden, que enfrenta resistências no Congresso ao pacote.

Ele também anunciou que os EUA planejam dobrar até 2024 sua ajuda oficial aos países em desenvolvimento para enfrentar a mudança climática, em comparação com os níveis registrados dez anos antes. Trump bloqueou as contribuições dos EUA ao Fundo Verde para o Clima, estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015 para ajudar as nações pobres com pouca responsabilidade pelo aquecimento. 

Protagonismo

Os EUA buscam liderar o debate sobre questões climáticas e reorientar a economia nacional para alcançar a China, em uma nova etapa da busca por protagonismo entre as duas potências econômicas. Em discurso na segunda-feira, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, deixou clara a preocupação americana com o fato de os chineses estarem na frente dos americanos na agenda verde.

Na semana passada, o czar do clima dos EUA, John Kerry, viajou a Xangai para se encontrar com seu homólogo chinês na primeira visita de alto nível de um funcionário do governo Biden à China. Os dois países concordaram em tomar ações concretas na década de 2020 para reduzir as emissões de carbono. China e EUA são os dois maiores poluentes do mundo.

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Brasil precisa parar desmatamento primeiro para ser remunerado depois, diz Carlos Nobre

Cientista brasileiro afirma que cobrança brasileira é incoerente e vai de encontro a política ambiental do governo Bolsonaro; 'criminoso ambiental existe sem risco de punição'

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

A compensação financeira ao Brasil pela preservação da Amazônia - tema central do discurso do presidente Jair Bolsonaro durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima - é possível, mas não seguindo a lógica do governo atual. É o que aponta o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, referência nos estudos sobre mudança climática no País.

O professor afirma que iniciativas para remunerar países pela preservação de seus ecossistemas já existem, e podem ser acessadas pelo Brasil em breve. Durante a própria cúpula, foi lançado a coalizão LEAF, um fundo com investimentos de governos e empresas para remuneração de países tropicais pela preservação ambiental. No entanto, as verbas são liberadas de acordo com os resultados alcançados, e não o contrário.

"Tem uma incoerência (na cobrança do presidente). O que vem primeiro? Você me dá o dinheiro e eu reduzo o desmatamento? Ou eu reduzo o desmatamento e você me dá o dinheiro? A lógica por trás da compensação não é 'me pague que eu reduzo o desmatamento', é 'você reduza o desmatamento, demonstre que você tem capacidade e seriedade, que eu remunero", explicou.

Além disso, o professor explica que um passo fundamental para acessar os créditos de carbono provenientes da conservação é a comprovação segundo metodologias rigorosas e transparentes, que demonstrem que o projeto de combate e redução ao desmatamento nesses países está ocorrendo de forma global e eficiente.

"No caso do fundo que foi lançado, há US$ 1 bilhão disponível para países tropicais que reduzirem seriamente o desmatamento. E eu digo, seriamente. Não pode ser algo do tipo: 'o Amapá desmata pouco, mas o Amazonas está aumentando demais'. Tem de ser um um projeto que reduza o desmatamento na Amazônia."

Outros fatores além da comprovação do desmatamento em si podem contribuir para o acesso a esses recursos internacionais. Países que adotarem novos modelos de desenvolvimento sustentável, com espaço para a bioeconomia, ou se demonstrarem capazes de proteger as populações tradicionais das florestas tropicais, por exemplo, podem ser beneficiados no momento de repartição dos recursos, o que vai exigir um pensamento estratégico por parte do governo.

O interesse nos créditos ambientais demonstrado durante a cúpula, no entanto, não encontra sustentação na política ambiental do governo, que precisará mudar radicalmente, segundo Nobre. "Toda a política do Ministério do Meio Ambiente, nos últimos dois anos e quatro meses, que incluiu o caso da suspensão do Fundo Amazônia, estava inserida em uma lógica em que você pagaria ao desmatador para ele não desmatar. Essa lógica é totalmente ridícula", disse. E completou: "O discurso político que ouvimos era de incentivo ao crime ambiental. Fazia com que criminosos ambientais existissem completamente sem risco de punição. Por isso o desmatamento, a degradação e as queimadas explodiram."

Metas são possíveis, mas exigem ação

Do discurso do presidente, Nobre avalia que o ponto mais relevante em relação aos anteriores foi a sinalização de que o Brasil pretende antecipar a meta de alcançar a neutralidade de carbono em 2050 - o compromisso anterior do País era de zerar as emissões em 2070. Para alcançar esse objetivo, porém, o professor alerta que será necessário agir em diversas frentes, incluindo possibilitando um amplo trabalho de agentes de campo - que vem sendo retirados na Amazônia com o esvaziamento de órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio).

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"É muito difícil chegar nesses números, porque não há ações enérgicas de campo. Quando olhamos para políticas lá atrás, em 2004 até 2012, que fizeram o desmatamento cair, ela não é uma política que acontece de um ano pra outro. Muito da efetividade daquela política foi o trabalho de inteligência da Polícia Federal atrás dos financiadores do crime. Isso não se faz de um dia pro outro", afirmou.

Apesar do ceticismo com o caminho da política ambiental atual, o professor projeta um cenário em que seria possível alcançar a meta. "Se houvesse uma seriedade muito grande na fiscalização, no rigor da fiscalização, em acabar o crime ambiental, nós teríamos uma uma condição muito apropriada de chegar em 2030 com 50% menos emissões, e aí sim seria perfeitamente exequível o Brasil zerar o resto de suas emissões de carbono".

Chegando em 2030 com 50% de emissões de carbono a menos, para que a neutralidade fosse atingida em 20 anos, ainda seria necessária a transformação da matriz energética do País, bem como a modernização da agropecuária. "Esse passo já começou. Temos o setor das eólicas crescendo, a energia solar ainda atrás, mas com muito potencial, temos iniciativas como as da Embrapa para reduzir a zero o impacto de carbono na produção no campo... Essas soluções de ciência existem, mas nós temos que dar escala a elas. Isso ainda falta".

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Propostas precisam ser verificáveis para Brasil obter financiamento; leia análise

Bolsonaro manteve retórica defensiva e de conquistas ambientais, mas apresentou algumas propostas para preservar a Amazônia e ajustar sua política ambiental

Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

A cúpula do clima é um exemplo de como a liderança de um país tem força para definir a agenda global, mesmo sem conseguir todos os seus objetivos. Os Estados Unidos convocaram o encontro com os 40 países mais importantes do ponto de vista ambiental para discutir a implementação do Acordo de Paris. Com isso, retomaram a iniciativa perdida durante o governo Trump. 

Segundo o secretário de Estado, Antony Blinken, os EUA estão atrasados na agenda verde e se não alcançarem a China perderão a chance de moldar o futuro climático. Antes da reunião, EUA e China, em comunicado conjunto, declararam cooperar para aumentar o nível de ambição de redução das emissões de gás de efeito estufa e para tornar a COP26 um sucesso. O principal resultado foi o anúncio pelos EUA de uma ambiciosa política ambiental.

No primeiro dia, participaram os líderes dos principais países desenvolvidos e emergentes. Em outros tempos, o Brasil seria um dos primeiros a falar e daria o tom dos pronunciamentos. E teria a presença do presidente americano, o que ontem não aconteceu. Bolsonaro foi o 19.º a falar e manteve a retórica defensiva e de conquistas ambientais, mas apresentou algumas propostas para preservar a Amazônia e ajustar sua política ambiental. Registrou o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal até 2030; referiu-se às metas voluntárias do acordo de Paris; prometeu duplicar os recursos para os órgãos de fiscalização; e antecipou de 2060 para 2050 a meta de neutralidade de carbono, com pedido de financiamento externo.

Bolsonaro acrescentou ainda seu interesse no aproveitamento dos recursos do mercado de carbono e na atenção às comunidades indígenas. Foram mencionados também os cinco eixos principais: ações de comando e controle, regulamentação fundiária, pagamento por serviços ambientais, ações de zoneamento ambiental e ecológico-econômico e promoção de biodiversidade.

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O que é o encontro convocado por Joe Biden

Reunião de líderes mundiais quer estabelecer novos compromissos para a redução das emissões de carbono e nasceu do interesse americano de se recolocar como protagonista no cenário internacional após os anos Trump

Não resta dúvida de que o pronunciamento indica uma mudança de política em relação à Amazônia. Em vista da baixa credibilidade do Brasil no exterior, como resultado da narrativa e das políticas ambientais seguidas até aqui, cabe agora aguardar medidas concretas a serem tomadas para demonstrar o que foi dito. O fortalecimento da fiscalização por parte do Ibama e do ICMBio, e a volta dos recursos, são medidas imediatas que se espera sejam adotadas pelo governo. A repressão ao desmatamento, queimadas, garimpo e o respeito à população nativa terão de ser adotados de imediato. 

Outro desafio é como implementar os cinco eixos de atuação, sobre os quais não há consenso e pouco foi feito até aqui. Os compromissos assumidos pelo presidente serão cobrados interna e externamente e terão de ser verificáveis para receber recursos internacionais. O contraponto na cúpula virá hoje da representante do Conselho Indígena de Roraima, a wapichana Sinéia do Vale.

*É PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COMÉRCIO EXTERIOR

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Biden mira futuro, enquanto Bolsonaro não se olha no espelho; leia análise

Após quatro anos de negacionismo trumpista, Joe Biden e Kamala Harris abriram a cúpula do clima visando dar novo impulso ao enfrentamento do aquecimento global

Carlos Rittl, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2021 | 05h00

Foi em alto nível que a vice-presidente e o presidente dos EUA, Kamala Harris e Joe Biden, deram início ao mais importante evento sobre mudanças climáticas desde a assinatura do Acordo de Paris. Após quatro anos de negacionismo trumpista, eles abriram a cúpula do clima visando dar novo impulso ao enfrentamento do aquecimento global

Em seu discurso, Biden defendeu a ciência, enfatizou a necessidade de limitarmos o aquecimento global a 1,5°C em relação a níveis pré-revolução industrial, para evitarmos catástrofes mais frequentes e mais intensas, e convocou líderes de todas as grandes economias a acelerarem sua ação. “Todos nós, em especial os que representamos as maiores economias do mundo, temos que dar um passo à frente”, afirmou Biden. 

Ele anunciou as novas metas climáticas: redução entre 50 e 52% das emissões de gases-estufa dos EUA até 2030, em relação a índices de 2005. Além disso, também se comprometeu a ajudar países mais pobres em seu desafio de desenvolvimento limpo e de enfrentamento dos eventos climáticos extremos com recursos. Biden foi elogiado por vários dos líderes que discursaram a seguir, como Angela Merkel, Emmanuel Macron, Ursula von der Leyen, Xi Jinping, Yoshihide Suga e Narendra Modi

O “neo-ex-negacionista” Jair Bolsonaro fez sua primeira participação em eventos sobre clima. Buscando conseguir um cheque em branco americano para proteger florestas que ele não protege, o presidente brasileiro fez um discurso sobre um país muito diferente da realidade de sua agenda anti-ambiental. Afirmou que “o Brasil está na vanguarda do enfrentamento ao aquecimento global”, apesar de ter desmantelado a governança de clima do País, apresentado em 2020 metas climáticas piores que as de 2015 e aumentado a taxa de desmatamento da Amazônia em quase 50%. Disse ainda que determinou “o fortalecimento dos órgãos ambientais”, na mesma semana em que mais de 600 agentes do Ibama denunciaram a paralisação da fiscalização por mudanças em normas feitas pelo ministro Ricardo Salles.

Mas o efeito do discurso de Bolsonaro sobre Biden deve ser quase nenhum. O americano, que não assistiu ao discurso de Bolsonaro, recebeu recentemente inúmeras cartas assinadas por indígenas, ex-ministros, ambientalistas, artistas e até senadores democratas alertando-o sobre os riscos de os EUA se tornarem sócios da destruição da Amazônia se derem um cheque em branco para o governo brasileiro “proteger a floresta e seus povos.”

Como resultado, Biden convidou outra brasileira para participar do evento. Sineia do Vale, líder indígena wapichana falou da importância do conhecimento dos povos indígenas e o respeito a seus direitos, sob ataque na gestão Bolsonaro, para a proteção da Amazônia e o enfrentamento das mudanças climáticas. Este contraponto importante foi um enorme revés para Bolsonaro.

É DOUTOR EM BIOLOGIA TROPICAL PELO INPA (INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS DA AMAZÔNIA) E SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA

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