'EUA agem pelo equilíbrio global'

Para ex-consultor deSegurança Nacional, política tem sido a de evitar situações em que país seja impelido a colisões

Entrevista com

Zbigniew Brzezinski

PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2015 | 02h02

Com as invasão da Ucrânia e a anexação da Crimeia pela Rússia, a desintegração das fronteiras de Iraque e Síria, e a crescente assertividade chinesa nos mares da China Meridional e Oriental, a era pós-Guerra Fria parece ter acabado em 2014. Concorda?

A era pós-Guerra Fria não foi, de fato, uma "era", mas a transição gradual de uma Guerra Fria bilateral para uma ordem internacional mais complexa que ainda envolve, em última análise, duas potências mundiais. Em suma, o eixo decisivo da nova ordem envolve, cada vez mais, os Estados Unidos e a China. A competição sino-americana implica duas realidades significativas que a distinguem da Guerra Fria: nenhuma parte é excessivamente ideológica em sua orientação, e ambas as partes reconhecem que precisam de uma acomodação mútua.

O suposto "pivô para a Ásia" dos EUA ficou em segundo plano em 2014 diante das crises na Ucrânia e no Oriente Médio. Em que medida a incerteza sobre o comprometimento americano com a Ásia alimentou tensões entre a China e aliados americanos na Ásia?

Discordo das premissas da pergunta. Acredito que os EUA deixaram perfeitamente claro que é do interesse tanto seu como da China evitar situações em que os dois sejam impelidos a uma colisão. As indicações recentes de um diálogo inicial entre China e Índia, e entre China e Japão, sugerem que a China também percebeu que exacerbar antigos agravos não é do seu interesse. O problema mais sério do "pivô para a Ásia" foi seu fraseado, que implicou uma posição militar designada para "conter" ou "isolar" a China. Os chineses perceberam mais claramente que não estávamos deliberadamente tentando isolá-los, mas que tínhamos interesse de evitar colisões no Extremo Oriente que pudessem produzir repercussões mais amplas.

Xi Jinping usou sua guerra contra a corrupção para concentrar mais poder do que qualquer líder chinês desde Deng Xiaoping, 30 anos atrás. Como vê a evolução da presidência de Xi?

O poder na China é definido um tanto informalmente, e seus limites são estabelecidos mais pelas realidades políticas do que por arranjos constitucionais. Isso torna difícil dizer se o poder de Xi é maior que o de qualquer líder chinês depois de Deng. Ele certamente tem uma personalidade autoritária e sem dúvida é mais ativo no cenário internacional do que alguns de seus antecessores. Ele também foi muito decisivo ao atacar a corrupção crescente que se tornou uma grande fonte de insatisfação interna, chegando aos níveis mais altos do governo. A esse respeito, pode-se dizer que seu poder é mais abrangente que o de seus antecessores, mas é preciso notar também que os níveis de corrupção que seus antecessores enfrentaram não eram tão agudos e disseminados como nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a crescente ênfase em jornais do partido na proposta de que as Forças Armadas da China devem ser vistas como servidoras do Partido Comunista, e não simplesmente da nação, parece sugerir temores de que os militares possam estar formando a própria visão dos assuntos domésticos da China, além de proclamar com crescente assertividade sua responsabilidade pela segurança nacional. A elite do PC, compreensivelmente, não considera isso tranquilizador.

O regime do presidente russo, Vladimir Putin, conseguirá suportar um período prolongado de preços baixos da energia e sanções ocidentais? Que riscos o senhor vê caso a economia da Rússia continue em declínio, e Putin cada vez menos capaz de recompensar sua base política?

Existe, certamente, o risco de que em algum ponto Putin decida partir para o ataque e quem sabe precipitar alguma forma nova de guerra direta Oriente-Ocidente. Mas, para dizer isso, deve-se também supor que, em certa medida, ele é desequilibrado e mudou de uma espécie de guerra de guerrilha contra o Ocidente, sempre com possibilidade de recuar, para um combate aberto. O resultado disso seria imprevisível, mas provavelmente, em qualquer caso, muito destrutivo para o bem-estar russo. Se a economia russa continuar em declínio, e se o Ocidente conseguir dissuadir Putin de persistir no uso da força, ainda é concebível que alguma solução aceitável (recomendei publicamente uma quando falei do modelo da Finlândia) pode ser conseguida. Mas isso, por sua vez, vai depender da firmeza do Ocidente em apoiar os esforços de estabilização da Ucrânia.

Após a retirada das tropas americanas do Afeganistão e do Iraque, boa parte do mundo percebe os EUA num período de "recuo", semelhante ao da era pós-Guerra do Vietnã. Os EUA estarão adotando uma forma de neo-isolacionismo? Ou a aparente retração dos EUA será tão breve quanto foi depois do Vietnã?

Não acredito que os EUA estejam num "período de retração". O fato é que a redistribuição do poder global produziu uma situação em que os EUA já não são a única força hegemônica. Os EUA precisam reconhecer o fato de que o mundo atual é mais complexo. A difusão do conflito pelo Oriente Médio é atualmente precipitada mais pela ascensão do sectarismo religioso do que pelo intervencionismo americano. Nestas circunstâncias voláteis, uma maior atenção precisa ser dada aos interesses nacionais de países como Turquia, Irã, Arábia Saudita, Egito e Israel.

O que poderá surpreender particularmente o mundo em 2015?

Talvez o ressurgimento gradual na Rússia de uma classe média liberal politicamente mais assertiva. Essa classe média estava começando a jogar um papel mais significativo na configuração da política russa e internacional sob Dmitri Medvedev. Com a volta de Putin e seu recente aventureirismo, ela foi alijada pelo chauvinismo nacional deliberadamente despertado e intensamente estimulado. Mas agitar uma bandeira chauvinista talvez não seja a melhor solução para lidar com problemas internacionais, em especial se o Ocidente for inteligente e unido. A classe média russa deseja viver numa sociedade como a da Europa ocidental. Uma Rússia que começar gradualmente a gravitar para o Ocidente também será uma Rússia que deixará de arrebentar o sistema internacional. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

ZBIGNIEW BRZEZINSKI É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE JOHN HOPKINS

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