EUA ainda são o 'grande satã' no Irã

Autoridades radicais rejeitam aproximação e afirmam que nunca os americanos terão acesso ao mercado iraniano

Thomas Erdbrink , O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2015 | 02h03

Numa demonstração de força, algumas das vozes antiamericanas mais resistentes no Irã afirmaram que os Estados Unidos continuam a ser seu maior inimigo e culpados de "enumeráveis" crimes". Tais observações são indício de uma luta que vem germinando por mais uma influência no plano interno em razão do acordo nuclear firmado com as potências estrangeiras.

O líder da Guarda Revolucionária, o general Mohamed Ali Jafari, anunciou planos para expandir o alcance dos mísseis iranianos e alertou que, apesar do acordo nuclear, os EUA ainda são "o grande satã".

O general criticou os que defendem um estreitamento de relações com os EUA, especialmente o governo do presidente Hassan Rohani, que tem reiterado que almeja manter um melhor relacionamento com Washington. "Não devemos ser enganados pelo novo slogan desse país", disse Jafari, referindo-se aos EUA, em um discurso na base militar de Sarallah.

As observações feitas pelo general foram repetidas por Mohamed Yazdi, líder de um influente conselho de clérigos, alertando que o acordo nuclear não deve pressagiar uma reconciliação política com os EUA, que romperam relações com o Irã há 35 anos.

"Não devemos mudar nossa política externa de oposição aos EUA, nosso inimigo número um, cujos crimes são enumeráveis", disse Yazdi na reunião anual da Assembleia dos Especialistas que, em teoria, tem poder para destituir o aiatolá Ali Khamenei.

Segundo Yazdi, os 79 milhões de consumidores iranianos não vão se abrir para os EUA. "Os EUA levarão para o túmulo seu sonho de chegar ao mercado do Irã e lucrar como estavam acostumados antes da revolução."

Símbolos vetados. Suas declarações chegaram à sociedade quando agentes de polícia em Teerã foram para as ruas e prenderam distribuidores de roupas com símbolos americanos e britânicos, como estrelas e listras ou a bandeira da Grã-Bretanha. O chefe de polícia de Teerã, o general Hossein Sajedinia, disse à agência Isna que roupas com símbolos satânicos serão confiscadas das lojas.

As críticas mais ferozes dirigidas ao governo, que negociou o acordo nuclear, partiram do general Jafari, a mais importante figura militar do Irã. Embora, de início, não tenha se dirigido diretamente ao governo do presidente Rohani, o general teria afirmado, segundo a Fars, que "as expectativas de algumas pessoas" que pensam que a inimizade com os EUA terminou, são um forte motivo de preocupação. "O que causa preocupação ainda maior é que, ingenuamente, essas pessoas acreditam que devemos seguir outro caminho e mudar nosso comportamento", afirmou.

O acordo nuclear, firmado em julho entre o Irã e seis potências mundiais, incluindo os Estados Unidos, deve suprimir muitas sanções decretadas contra o país em troca de garantias passíveis de comprovação de que suas atividades nucleares são pacíficas.

A oposição ao acordo é muito forte no Congresso americano, onde muitos parlamentares expressaram uma grande desconfiança do Irã. Mas, ao que parece, os críticos não conseguirão votos suficientes para derrubar o acordo nuclear.

Para líderes radicais no Irã, como Jafari, o documento firmado significa perda de poder para os que apoiam o governo de Rohani. As eleições parlamentares no Irã estão marcadas para fevereiro e o governo ainda desfruta de uma onda de aprovação com a perspectiva de uma flexibilização das sanções.

Agora, a atenção no Irã está mais concentrada na política interna, com os partidários de Rohani esperando que ele adote novas mudanças econômicas e no campo das liberdades civis. Por outro lado, os radicais manifestam sua intenção de bloquear o presidente.

O general, em seu discurso na terça-feira dirigido a um grupo de comandantes do Exército, disse que se prepararem para novas ameaças americanas e aconselhou o governo a fazer o mesmo. "O inimigo agora recorreu ao uso do poder político e econômico brando", afirmou, referindo-se às sanções e ao acordo nuclear. "Em resposta a esse tipo de ameaça após o acordo, o governo da República Islâmica deveria adotar uma posição mais clara e revolucionária."

Jafari e os comandantes militares expressaram preocupação quanto a possíveis restrições ao programa de mísseis, contempladas em uma cláusula do documento firmado. Segundo o disposto nas primeiras sanções decretadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, o acordo deveria estabelecer limites para os mísseis, considerados vitais para os estrategistas militares iranianos.

O general disse também que o alcance dos mísseis, hoje de 2 mil quilômetros, será ampliado. Anunciou também a realização de 20 exercícios militares, mas não mencionou se envolverão testes com novos mísseis. E acrescentou que a Guarda Revolucionária continuará envolvida na economia.

"Depois de 20 anos de participação em projetos civis, a Guarda Revolucionária tem experiência suficiente nesse campo e continuaremos nossos projetos", afirmou.

Essa demonstração pública de resistência militar não foi inesperada diante da influência que a Guarda Revolucionária conseguiu durante décadas de animosidade com relação aos EUA.

"Nossos comandantes rejeitarão qualquer influência dos Estados Unidos em nosso país", afirmou Hamidreza Taraghi, analista conservador. "Hoje, eles mostraram que o inimigo nunca conseguirá limitar nosso potencial e determinação", acrescentou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

THOMAS ERDBRINK É JORNALISTA THE NEW YORK TIMES

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