EUA ameaçam agir unilateralmente contra o Zimbábue

Casa Branca diz que pode definir sanções contra Mugabe; Quênia defende suspensão do país da União Africana

Agências internacionais,

30 de junho de 2008 | 14h53

Apesar da pressão que o governo americano para que as Nações Unidas ampliem as sanções contra o Zimbábue, os Estados Unidos ainda podem agir unilateralmente, segundo afirmou nesta segunda-feira, 30, a porta-voz da Casa Branca Dana Perino. A representante afirmou ainda que os líderes africanos reunidos na cúpula da União Africana deveriam "escutar os seus próprios observadores" sobre o pleito no Zimbábe, que impugnaram o processo eleitoral.  Veja também:ONU pede à União Africana solução negociada para o ZimbábueMugabe enfrenta condenação internacional em cúpula africanaTsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe: uma história de 3 décadas no poder  A situação no Zimbábue, onde Robert Mugabe foi reeleito presidente após um pleito contestado dentro e fora do país, domina o encontro da União Africana que ocorre nesta segunda e terça-feira no balneário egípcio de Sharm el-Sheik. Mugabe foi convidado e está participando do evento. Observadores independentes criticaram a votação. Monitores da própria União Africana disseram nesta segunda-feira que o pleito não atingiu os padrões da organização para eleições democráticas. "Pressionaremos por fortes sanções das Nações Unidas, mas ainda podemos agir unilateralmente", afirmou a porta-voz, que especificou ainda que as medidas poderiam ser aplicadas de diversos modos. "Obviamente, sanções são melhor aplicadas quando múltiplas partes trabalham em conjunto, como o que a União Européia adotou contra o Irã por seu programa de enriquecimento de urânio". Segundo a agência France Presse, o presidente George W. Bush instruiu, no final de semana, os seus secretários de Estado e do Tesouro para que novas medidas contra Mugabe fossem delineadas. As sanções seriam definidas em até duas semanas. Um esboço de resolução dos Estados Unidos para a Organização das Nações Unidas (ONU) com sanções contra o Zimbábue prevê o embargo de armas e congelamento de bens de determinadas pessoas e empresas do país. A proposta, obtida pela Reuters nesta segunda-feira, diz que o Conselho de Segurança da ONU não deve reconhecer a reeleição do presidente Robert Mugabe, ocorrida no dia 27 de junho, e deve congelar bens e proibir viagens àqueles que ajudaram o governo a "arruinar processos democráticos" ou que apoiaram a violência com motivação política no país.  Segundo a BBC, o primeiro-ministro do Quênia, Raila Odinga, pediu nesta segunda-feira para que a União Africana (UA) suspenda o presidente do Zimbábue do bloco e defendeu que sejam enviadas tropas ao país para garantir que sejam realizadas eleições "livres e justas"."Eles (a União) deveriam suspendê-lo e enviar uma força de paz ao Zimbábue para garantir eleições livres e justas", disse Odinga a jornalistas na capital do Quênia, Nairóbi.  "A situação no Zimbábue pede nada menos que intervenção da União Africana. É necessário que a organização mostre liderança e aponte um time de mediadores para ir ao país. É preciso também que mande soldados de paz para que eleições justas e livres possam ocorrer", disse ele. Odinga também afirmou que União Africana abre um "precedente realmente ruim para o continente" ao permitir que Mugabe participe do encontro no Egito como presidente eleito.  Nações Unidas Na abertura do evento em Sharm el-Sheik, a vice-secretária-geral das Nações Unidas, a tanzaniana Asha-Rose Migiro, pediu aos líderes africanos que tentem negociar uma solução para a crise no Zimbábue. "Este é o maior desafio para a estabilidade regional no sul da África", disse ela. Mugabe foi empossado no domingo depois de uma vitória que observadores dizem ter sido minada por violência e fraudes. A comissão eleitoral do país disse que ele recebeu 85,5% dos votos válidos. O candidato da oposição, Morgan Tsvangirai, havia retirado sua candidatura dias antes por causa de ataques e assassinatos de membros de seu partido  Em nota oficial, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em visita a Tóquio, disse que "as condições não estavam estabelecidas para eleições livres e justas e observadores confirmaram que este foi um processo profundamente falho (…) O resultado não reflete a vontade genuína do povo zimbabuano." Embaixador inglês O embaixador do Reino Unido na ONU, John Sawers, garantiu que os Estados Unidos já têm pronto um projeto de resolução que inclui punições ao governo do Zimbábue, do presidente Mugabe. "Nossos colegas americanos já redigiram uma primeira minuta, sobre a qual conversaremos nos próximos dias", disse Sawers ao sair de uma reunião do Conselho de Segurança. Segundo fontes que não quiseram se identificar, o documento estabelece punições específicas a membros do aparelho estatal controlado por Mugabe, que se reelegeu em 27 de junho graças à retirada da oposição, vítima de uma campanha de intimidação.  Além disso, a minuta inclui um embargo de armamento e o congelamento dos ativos de indivíduos e empresas zimbabuanos. Sawers disse que a posição do Reino Unido é a de "aumentar a pressão sobre aqueles que subverteram as eleições e criaram um clima que desprezou a vontade do povo zimbabuano nas eleições de sexta."  Porém, o embaixador reconheceu que os países ocidentais que promovem as sanções não contam com o apoio de todos os membros do Conselho de Segurança, formado por 15 nações. Um exemplo é a África do Sul, contrária a qualquer tipo de punição por considerar que a atual crise é um assunto interno.  Entre os membros permanentes, China e Rússia parecem prontos para vetar qualquer proposta. Sawers lembrou que a União Européia (UE) já impôs sanções contra o Zimbábue, e que o Reino Unido tentará endurecê-las nos próximos dias. (Matéria ampliada às 20h42)

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