Evan Vucci/AP
Evan Vucci/AP

EUA ameaçam novas sanções contra Rússia

Crise entre os dois países se aprofunda e Moscou ataca 'uso político' da morte de opositor e faz paralelo ao nazismo

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

02 Março 2015 | 14h50


GENEBRA - Num sinal claro de aprofundamento da crise entre EUA e Rússia, os chefes das diplomacias dos dois países elevaram os ataques mútuos nesta segunda-feira, 2. Em Genebra, o secretário de Estado americano, John Kerry, alertou que o acordo de cessar-fogo na Ucrânia não está sendo implementado de forma adequada e ameaçou aplicar novas sanções contra o Kremlin.

Já o chanceler russo, Sergei Lavrov, acusou os EUA de estarem desestabilizando a região e advertiu que não vai aceitar a "politização" do assassinato do líder da oposição, Boris Nemtsov, morto no fim de semana em Moscou. O Kremlin ainda fez referências à Alemanha nazista para apontar para a ameaça que o domínio americano representa, numa frase que criou forte polêmica.

Kerry e Lavrov realizaram uma reunião e, segundo assessores da Casa Branca que acompanharam o encontro, a discussão foi "uma das mais tensas em anos" e deixou claro que o cessar-fogo na Ucrânia, fechado há duas semanas em Minsk, está "por um fio".

O secretário de Estado acusou Moscou de não estar cumprindo sua parte e ameaçou com novas sanções. "As pessoas continuam sendo mortas. Não há ainda um cessar fogo", denunciou. Segundo os americanos, o cessar-fogo foi violado 36 vezes em duas semanas e com um morto nas últimas 24 horas.

Segundo um novo informe da ONU publicado nesta segunda, o número de mortes supera a marca de 6 mil desde abril e a responsabilidade pela violência seria acima de tudo pelo "contínuo fluxo de armas" fornecidas "a partir do território russo".

A principal crítica de Kerry se refere à pouca transparência por parte dos rebeldes e dos russos sobre como o acordo está sendo aplicado. "Houve uma adoção seletiva do acordo", denunciou. Segundo ele, os rebeldes não estão autorizando um pleno acesso por parte dos mediadores da OSCE para garantir que as armas estejam sendo retiradas.

Kerry também afirma que ninguém sabe para onde as armas estão sendo levadas e "crianças e mulheres estão sendo alvo de tortura, violações e assassinatos". "Reiterei a Lavrov que a liderança russa precisa implementar as medidas de cessar-fogo e em todos os locais, inclusive na região de Maristopol", disse o americano. "Se isso não ocorrer e as armas não forem retiradas, então inevitavelmente haverá nova consequência que levaria a implicações para a economia russa", alertou.

Para ele, as sanções já começaram a dar resultados na economia russa. "Mas talvez não suficiente para que Putin decida abandonar sua estratégia. Mas suspeito que Putin terá de avaliar isso de novo", alertou. "Espero que Putin possa ser convencido a genuinamente seguir os acordos que assinam", disse.

Lavrov rejeitou os ataques e disse que são os ucranianos os responsáveis pelas violações na região. O russo acusou a "repressão" contra a imprensa de Moscou na Ucrânia e alertou que mortes ficam sem investigações. Lavrov ainda insistiu que existem "progressos tangíveis" no acordo de Minsk, contradizendo Kerry.

Mas foi o ataque contra os EUA que marcou seu tom. Lavrov pediu que os americanos influenciem Kiev para que se cumpra o acordo, pediu que a Casa Branca "se distancie da guerra" e deixem de desestabilizar a região. Kerry fez questão de dar uma resposta. "Putin não interpreta bem os EUA. Não estamos envolvidos em revoluções."

Opositor. A situação na Ucrânia não foi a única a contribuir para a crise entre os dois governos. Lavrov criticou lideranças ocidentais por "manipular" a morte de Nemtsov e garantiu que Moscou está investigando o caso. "Trata-se de um crime hediondo", declarou Lavrov. "É uma blasfêmia usar essa morte como instrumento político, provocador e sem bases."

"Esse crime será totalmente investigado e os autores serão levados à Justiça", declarou. Lavrov ainda garantiu que o presidente russo, Vladimir Putin, decidiu assumir o caso e liderará o processo de investigação por meio de um grupo de especialistas. "Os responsáveis serão levados diante da Justiça".

Ontem, Kerry pressionou o russo para que haja uma investigação sobre a morte do líder da oposição russa, inclusive sobre quem planejou e financiou o ato.

Nazismo. Lavrov usou a tribuna da ONU para lançar um duro ataque contra os EUA. "Não existe o fim da história", alertou, numa referência à publicação que marcou o final da Guerra Fria pelo cientista político Francis Fukuwama. "Precisamos de um respeito mútuo e diálogo. O mundo conta com muitos centros", insistiu Lavrov. "Não podemos aceitar a ideia do excepcionalismo ou das teorias de quem quer dominar o mundo", disse.

Para exemplificar o "risco" que o mundo sofre se um país acreditar que tem o poder de intervir em outras regiões, Lavrov não hesitou em fazer um paralelo entre o nazismo e os EUA. "A humanidade deve se lembrar das consequências terríveis quando um país, seja qual for, acredite que é diferente de todos os demais e tente dominar o mundo", atacou. "A vacina contra o nazismo parece estar perdendo sua força."

A frase, ainda que não tenha feito uma referência explícita aos EUA, causou consternação entre ministros e diplomatas na sala. Kerry foi obrigado a alertar que "todos os direitos são universais".

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