Ozan Kose / AFP
Ozan Kose / AFP

EUA ameaçam impor sanções econômicas à Turquia após ataques contra forças curdas

Secretário de Estado afirmou que americanos podem 'acabar com a economia turca'; no nordeste da Síria, mais de 100 mil estão deslocados e 92 morreram desde quarta-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 21h44

WASHINGTON - O governo dos Estados Unidos ameaçou nesta sexta-feira, 11, aplicar novas sanções econômicas contra a Turquia que poderiam debilitar a economia do país. As medidas seriam impostas em resposta à ofensiva militar ordenada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, contra milícias curdas, no norte da Síria.

“Podemos acabar com a economia turca, se precisarmos”, disse nesta sexta o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin. Segundo ele, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que concede ao Departamento do Tesouro novos poderes para punir a Turquia no caso de ataques contra outras minorias étnicas e religiosas em suas operações contra os curdos. 

Na ordem executiva, o Tesouro terá autonomia para impor sanções secundárias a qualquer pessoa que realize “transações notórias e significativas” com indivíduos e entidades da Turquia. Mnuchin pediu que os bancos fiquem atentos a potenciais sanções americanas. 

A Casa Branca também se mostrou preocupada com a possibilidade de militantes do Estado Islâmico, detidos em áreas controladas pelos curdos, serem libertados em meio ao caos do conflito armado. Segundo Mnuchin, caso a Turquia viabilize a fuga de “pelo menos um terrorista”, os EUA responderão à altura. Apesar das ameaças, o secretário do Tesouro afirmou que as sanções estão prontas, mas serão aplicadas apenas “quando for necessário”.

Mais de 100 mil deslocados

As forças turcas intensificaram seus bombardeios contra alvos curdos no norte da Síria, buscando tomar setores fronteiriços, no terceiro dia de uma ofensiva que levou à fuga de mais de 100 mil pessoas, de acordo com a ONU.

Segundo um último boletim do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), desde quarta, início da ofensiva, 54 combatentes curdos e 17 civis perderam a vida. Já a Turquia anunciou a morte de quatro de seus soldados e de 17 civis, em meio ao lançamento de foguetes sobre as cidades na fronteira.

As autoridades curdas afirmaram que cinco extremistas do EI fugiram de uma prisão perto de uma cidade de maioria curda, Qamichli (nordeste), após os ataques aéreos turcos.

Além disso, um motim explodiu no acampamento de Al-Hol controlado pelos curdos. Neste local, vivem milhares de famílias de indivíduos suspeitos de serem extremistas. O EI assumiu a autoria do atentado em Qamichli, no qual seis pessoas morreram.

Articulação

A decisão de retirar as tropas americanas do norte da Síria, que abriu caminho para a ofensiva turca, tem sido condenada por congressistas democratas e republicanos.

Nesta sexta, os deputados avançaram  a tramitação de um projeto para tentar reverter a decisão de Trump de retirar as tropas da Síria. Na quinta-feira, o presidente informou que havia três maneiras de lidar com a situação: o envio de “milhares” de tropas americanas de volta ao norte da Síria, que ele rejeita, a aplicação de sanções econômicas contra a Turquia ou uma mediação dos americanos entre turcos e curdos. 

Apesar das "ameaças", Erdogan garantiu nesta sexta-feira que não vai encerrar a operação. "Não importa o que dizem, não vamos parar", frisou, durante um discurso em Istambul, referindo-se aos ataques às Unidades de Proteção do Povo (YPG), principal milícia curda no nordeste da Síria.

"Recebemos ameaças à direita e à esquerda, dizendo-nos para parar", declarou. "Não vamos retroceder. Continuaremos esta luta até que todos os terroristas se movam para o sul do limite de 32 quilômetros da nossa fronteira, que Trump mencionou", insistiu.

A retirada das tropas americanas da Síria, medida antecipada desde o ano passado por Trump, foi vista pelos congressistas como um “sinal verde” para que a Turquia iniciasse sua ofensiva contra os curdos. Nesta semana, milhares de civis começaram a fugir do conflito. 

Aliança militar

A maioria dos curdos vive na Turquia – onde eles são cerca de 20% da população. Nas décadas de 80 e 90, grupos separatistas curdos foram responsáveis por vários atentados na Turquia, o que embasa o argumento de Erdogan de que os curdos sejam terroristas. 

Apesar das acusações do governo turco, as tropas curdas foram essenciais para derrotar os militantes do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, por isso eram, até a semana passada, protegidas por militares americanos. Mesmo com a decisão de Trump de retirar os soldados da Síria, ainda há cerca de mil militares americanos na região.

Ofensiva da Turquia prejudica esforços para controlar EI

A invasão turca ao território sírio controlado pelos curdos provocou novos temores de ressurgimento do Estado Islâmico, depois que cinco extremistas escaparam hoje de uma prisão controlada pelos curdos e o grupo assumiu a responsabilidade por um atentado na capital regional.

Ancara diz que sua ofensiva é uma operação “antiterrorismo”, pois as milícias curdas que combateram o EI na Síria, ao lado dos EUA, têm laços com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que travou décadas de luta contra o Estado turco. 

Mas a ofensiva já se mostrou altamente prejudicial ao esforço de manter o EI sob controle. A milícia curda já deslocou vários soldados, que antes participavam da missão conjunta com os EUA, para enfrentar a invasão turca. Os bombardeios da Turquia também ameaçam a segurança das várias prisões onde os curdos mantêm os combatentes do Estado Islâmico. Agora, após retirarem suas tropas da Síria, os EUA ameaçam agir se os jihadistas do EI conseguirem escapar em razão da incursão que eles mesmos viabilizaram. / NYT, W. POST e AFP

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