EUA anunciam nova doutrina nuclear

Com fim da URSS, terrorismo e proliferação tornam-se principais ameaças, afirma documento, que manda recado especial ao Irã

Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2010 | 00h00

Os EUA consideram o terrorismo e a proliferação nucleares as principais ameaças para a segurança global. Até agora, a maior preocupação era o risco de uma guerra entre países que detêm a bomba atômica - possibilidade que tirava o sono de americanos na Guerra Fria. A conclusão é do esperado relatório sobre a nova doutrina nuclear americana, divulgado ontem pela Casa Branca.

No documento, americanos também se comprometem a não utilizar armas atômicas contra países sem capacidade nuclear militar, mesmo quando forem alvo de ataques com arsenais químicos e biológicos. A única exceção seria no caso de países que desrespeitarem o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) - um recado ao Irã.

O anúncio ocorre uma semana antes de o presidente Barack Obama receber líderes de 47 países para uma cúpula sobre proliferação nuclear em Washington. Antes disso, amanhã, Obama assina em Praga um novo tratado com os russos, acertado no mês passado, para a redução dos arsenais atômicos dos dois países. Em maio, ocorrerá uma ampla conferência internacional em Nova York sobre o TNP.

"Hoje, meu governo deu um passo adiante para reduzir o papel das armas nucleares em nossa segurança estratégica. O foco agora será diminuir os riscos nucleares do século 21", disse Obama em comunicado depois da divulgação do relatório.

O documento do Pentágono divide-se em cinco pontos: prevenir o terrorismo e a proliferação nuclear; reduzir o papel das armas nucleares na estratégia de segurança dos EUA; manter a estabilidade e a dissuasão com as forças nucleares em níveis reduzidos; reforçar a segurança por meio do diálogo com a Rússia e a China (cujo programa nuclear é descrito como "pouco transparente"); e manter um arsenal nuclear eficiente e seguro.

De acordo com o texto da nova política, "o arsenal nuclear da época bipolar da Guerra Fria não é adequado para lidar com os desafios impostos por terroristas suicidas e regimes inimigos em busca de armas atômicas".

O documento afirma que a "Al-Qaeda e seus aliados extremistas estão em busca de armamento nuclear. E nós acreditamos que eles usariam essas armas caso as obtenham".

O Irã, acusado pelos EUA de estar em busca de armas nucleares, é citado algumas vezes no relatório. "Ao alimentarem suas ambições nucleares, a Coreia do Norte e o Irã violaram suas obrigações de não-proliferação, desafiaram determinações do Conselho de Segurança e resistirem aos esforços internacionais para resolver a questão pela via diplomática. Essas provocações (...) podem levar países vizinhos a optarem pela via nuclear."

Na avaliação americana, a nova política reforça a posição do país para persuadir outros a fortalecer o regime de não-proliferação nuclear. Além disso, segundo analistas, os EUA tentam abrir o caminho para novas sanções ao Irã na ONU. Teerã, entretanto, afirma que seu programa nuclear tem fins pacíficos.

Mudança estratégica

Robert Gates

SECRETÁRIO DE DEFESA DOS EUA

"Existe uma mensagem para o Irã e a Coreia do Norte. Ela é a de que, se vocês seguirem as regras, nós vamos assumir certas obrigações. Mas, se vocês não as seguirem e continuarem a ser "proliferadores", todas as opções estarão sobre a mesa"

Hillary Clinton

SECRETÁRIA DE ESTADO DOS EUA

"Por muito tempo, o papel dissuasivo da arma nuclear americana evitou a proliferação, ao garantir a segurança de nossos aliados da Otan, do Pacífico e de outros lugares. As novas medidas permitirão conservar esse papel estabilizador"

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