EUA apóiam continuidade do Brasil no comando de missão no Haiti

Os Estados Unidos deram claro apoio, nesta terça-feira, à continuidade do Brasil no comando das operações militares das Nações Unidas no Haiti. A posição foi expressa pelo subsecretário de Estado americano para a América Latina e o Caribe, Thomas Shannon, logo depois de encontrar-se com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, no Itamaraty. Shannon destacou ainda que os Estados Unidos apóiam a renovação do mandato das forças militares da ONU no Haiti, que vencerá em fevereiro, por considerar que dessa atuação depende o êxito do processo de estabilização daquele país."Estamos satisfeitos com a decisão do Brasil de continuar na liderança das operações no Haiti. Essa é uma iniciativa sumamente importante. O papel do Brasil no Haiti é a expressão da sua importante atuação nas Américas", afirmou Shannon, em claro português. "Brasil e Estados Unidos estão de acordo com a vinculação entre as questões de segurança no Haiti às de desenvolvimento econômico e social", completou ele, que envergava uma alegre gravata com as figuras de coqueiros e coloridas pranchas de surfe.Questionado se a atuação do Brasil poderia credenciar o País em sua campanha por cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, renovada no último dia 5, Shannon engasgou, recuou um passo, riu e não respondeu. Ao deixar o Itamaraty, novamente perguntado, limitou-se a dizer, em inglês, que não era um assunto de sua competência. Até o momento, o único país apoiado pelos Estados Unidos para assumir tal posição é o Japão.O roteiro de Shannon por países da América Latina já havia sido elaborado quando acirrou a crise política no Haiti, com o adiamento das eleições previstas para 8 de janeiro e a morte do general brasileiro Urano Bacellar, comandante militar das tropas da ONU no país. Mas a questão haitiana já estava no alto da agenda de temas que Shannon esperava tratar no Brasil.Ele ressaltou que os Estados Unidos estão comprometidos com o governo haitiano, com a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Ministah) e com os países que se dispuseram a ajudar no processo de desenvolvimento daquele país. Lembrou ainda que os Estados Unidos desembolsaram US$ 4 milhões em ajuda ao Haiti. Mas não chegou a dar um sinal mais claro sobre o momento em que os recursos prometidos pela comunidade internacional desde o início do ano passado, de US$ 1 bilhão, chegará a Porto Príncipe. Em princípio, espera-se que o valor seja liberado depois das eleições haitianas, marcadas para fevereiro.O subsecretário ainda expressou, em nome do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e da secretária de Estado, Condoleezza Rice, as condolências do governo americano pela morte do general Bacelllar. Afirmou que tratava-se de um oficial de "altíssima categoria e que teve um impacto sumamente importante no Haiti" no período que lá serviu.MornaDurante as conversas com Amorim, outro tópico levantando por Shannon foi a retomada da cooperação bilateral Washington-Brasília, desenhada durante a visita de Bush ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no início de novembro passado. Aos Estados Unidos não interessaria que essa relação voltasse à temperatura morna na qual foi mantida ao logo de três anos, entre a visita de Lula a Bush, em junho de 2003, ao encontro de novembro.À imprensa, Shannon insistiu duas vezes que há "convergência profunda de interesses" dos Estados Unidos e do Brasil na consolidação democrática nas Américas, no desenvolvimento econômico e social da região e na manutenção da segurança. Conhecedor dos temas internos brasileiros, o subsecretário americano serviu na embaixada dos Estados Unidos em Brasília entre 1989 e 1992.Nesta terça-feira, Shannon encontrou-se também com os embaixadores José Eduardo Felício, subsecretário de Assuntos de América do Sul do Itamaraty, e Antonio Patriota, subsecretário de Assuntos Políticos, e com o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. Nesta segunda-feira ele vai se reunir ao general Jorge Félix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, ao deputado Aldo Rebelo, presidente da Câmara, à ministro da Casa Civil, Dilma Rousseff, e ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci. De Brasília, partirá ainda hoje para Buenos Aires.BolíviaA apenas três dias da visita a Lula do presidente eleito da Bolívia, o líder cocaleiro Evo Morales, os rumos do governo do país fronteiriço do Brasil consumiram boa parte do encontro entre Amorim e Shannon.A reunião foi acompanhada pelo embaixador do Brasil na Bolívia, Antonino Mena Gonçalves. Ao falar com os jornalistas, Shannon mostrou-se cuidadoso ao tocar no tema, mas destacou que o processo de erradicação da cultura da coca na Bolívia continua relevante na agenda americana e que Washington "vai dialogar cara a cara" sobre o assunto com o novo governo boliviano. "Nossa relação com a Bolívia, até agora, tem sido muito positiva", afirmou, ao ser questionado se não havia o risco de Morales legalizar o cultivo e, com isso, alimentar o tráfico da droga.

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