EUA apoiam troca de premiê no Iraque e indicam envio de mais comida e armas

Obama acredita que formação de gabinete "inclusivo" auxiliará entrega de ajuda humanitária no país

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2014 | 02h01

Os EUA estão "prontos" para apoiar um novo governo no Iraque, disse ontem o presidente Barack Obama, para quem a colaboração com o país no combate ao terrorismo e na entrega de ajuda humanitária será facilitada se houver a formação de um gabinete "inclusivo". As declarações aprofundaram o confronto entre os EUA e o primeiro-ministro Nuri al-Maliki, que se recusa a deixar o cargo que ocupa desde 2006.

Obama telefonou ontem para Haider al-Abadi, nomeado horas antes como sucessor de Maliki pelo novo presidente do Iraque, Fuad Massum. O atual primeiro-ministro sustenta que tem o direito de desempenhar a função pela terceira vez e ameaça recorrer à Corte Suprema iraquiana para contestar a nomeação de Abadi. Em uma aparente tentativa de intimidar o novo presidente, Maliki mencionou o Exército em um contexto de proteção à Constituição.

Durante a madrugada de ontem, tanques, soldados e milicianos reforçaram a segurança ao redor da sede do governo, o que elevou a tensão em Bagdá e aumentou a suspeita de que Maliki pode buscar apoio militar para permanecer no poder. Na noite de domingo, Maliki cercou o palácio de milícias e fez um pronunciamento denunciando a violação da Constituição pelo presidente curdo, eleito para o cargo no dia 24 pelo Parlamento.

De acordo com a legislação, o xiita Abadi tem 30 dias para formar um novo governo que ofereça cargos de importância às facções curda e sunita, as principais minorias do Iraque. Durante este período, Maliki continua como líder interino do país e comandante das Forças Armadas.

Ao longo do dia de ontem, autoridades americanas deram declarações de apoio ao primeiro-ministro nomeado e deixaram evidente o desejo de Washington de que Maliki deixe o cargo de maneira pacífica. "Não deve haver uso da força e nenhum uso de tropas ou de milícias neste momento de democracia para o Iraque", declarou o secretário de Estado americano, John Kerry.

O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, também telefonou para Massum e Abadi para felicitá-los pela nomeação e manifestar a disposição de cooperar com o novo governo. Obama está de férias, mas interrompeu o descanso para fazer uma declaração de apoio à nomeação do primeiro-ministro. Na quinta-feira, ele autorizou ataques aéreos no nordeste do Iraque para conter o avanço do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), que provocou um êxodo de cerca de 200 mil pessoas. Essas são as primeiras operações militares dos EUA no Iraque desde a saída de todas as tropas americanas do país, no dia 31 de dezembro de 2011.

Obama repetiu que não há uma "solução militar americana" para o Iraque e voltou a defender a formação de um governo inclusivo, que represente os interesses de todas correntes do país. A Casa Branca acredita que Maliki favoreceu os xiitas e alienou os sunitas, o que teria aprofundado as divisões sectárias no país e pavimentado o terreno para expansão de grupos sunitas radicais, como o Isil.

Em junho, Obama havia condicionado o apoio militar ao Iraque na guerra contra o Isil a mudanças políticas que aumentassem a representatividade do governo. No entanto, o rápido avanço dos jihadistas forçou uma mudança de cálculo do governo americano, que começou a bombardear posições do Isil na quinta-feira.

Apesar de ter indicado que as ações americanas podem ser ampliadas com um novo governo, Obama deixou claro que as operações não contemplam o retorno de tropas dos EUA ao território iraquiano. / COM REUTERS E AP

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