EUA apontam laços de Caracas com narcotráfico

Segundo promotores de Miami e Nova York, chefe da inteligência militar venezuelana está na lista de pagamento de um barão da droga colombiano

William Newman, The New York Times/O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2014 | 02h01

CARACAS - O chefe da inteligência militar venezuelana estava na lista de pagamentos de um barão de narcotráfico colombiano, investiu dinheiro em carregamentos de droga e coordenou pessoalmente remessas de milhares de quilos de cocaína, segundo promotores de Miami e Nova York.

O intermediário da Venezuela com a Interpol, Rodolfo McTurk, recebeu centenas de milhares de dólares em propinas de outros traficantes, segundo os investigadores de Miami.

Três indiciamentos federais divulgados na semana passada demonstram vínculos entre agentes da polícia e oficiais do Exército venezuelano e narcotraficantes colombianos, uma conexão para a qual as autoridades em Washington há muito tempo chamam a atenção. A ligação é rejeitada pelas autoridades venezuelanas.

Os casos foram revelados depois que autoridades em Aruba prenderam na semana passada o ex-chefe da inteligência militar da Venezuela Hugo Carvajal, a pedido do Departamento de Estado. Carvajal foi libertado no domingo e enviado de volta para Caracas, decepcionando as autoridades americanas que queriam extraditá-lo e satisfazendo as autoridades venezuelanas, que qualificaram sua prisão de sequestro.

Segundo especialistas, os indiciamentos ajudam a compreender as relações entre os traficantes e o Cartel dos Sóis (referência às insígnias dos uniformes dos generais), um grupo indefinido de autoridades militares e do governo da Venezuela suspeitas de vínculo com o narcotráfico.

"Eles revelam um envolvimento ainda mais profundo do cartel no tráfico de cocaína", afirmou Jeremy McDermott, diretor do InSight Crime, organização de pesquisa com sede na Colômbia, que se concentra no tráfico de drogas e outras formas de crime organizado.

Após a prisão de Carvajal, tribunais federais de Miami e Nova York tornaram públicas duas denúncias contra ele. Carvajal era homem de confiança do presidente Hugo Chávez, que morreu em março de 2013.

Segundo a denúncia, feita em maio do ano passado, Carvajal mantinha uma estreita relação com o chefão da droga colombiano Wilber Varela. O criminoso mudou-se para a Venezuela em 2004 e, desde então, pagava Carvajal, outros oficiais do Exército venezuelano e policiais do país por proteção - e por ajuda para traficar a droga da Venezuela para os EUA.

Carvajal foi acusado de proteger Varela contra a prisão, permitir que ele traficasse cocaína e fornecer informações a ele sobre atividades das autoridades venezuelanas. Depois que Varela foi morto, em janeiro de 2008, membros de sua organização continuaram a pagar Carvajal e outros oficiais venezuelanos.

Ainda de acordo com a denúncia, Carvajal trabalhou com outros traficantes e chegou a investir "em carregamentos de cocaína que eram exportados da Venezuela".

Segundo Chris Lejuez, advogado de Carvajal em Aruba, seu cliente negou as acusações de tráfico de droga. No caso do indiciamento formalizado em Nova York, em abril de 2006, ele "coordenou o transporte de cerca de 5,6 mil quilos de cocaína da Venezuela para o México (de onde seria enviada aos EUA)".

"O que é novo é que membros do Cartel dos Sóis foram além de apenas facilitar o tráfico de drogas, tendo feito vista grossa ao trânsito da cocaína pelo país, colaborando no seu transporte, ou como foi sugerido no caso de Carvajal, investindo em determinados carregamentos da droga", disse McDermott, do InSight Crime.

Documentos protocolados em outro processo e liberados na semana passada em Miami mostram que a agência de combate às drogas dos EUA (DEA) há vários anos investiga os vínculos entre autoridades venezuelanas e traficantes.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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