EUA cometem erros na guerra e na política, diz especialista

Os Estados Unidos cometeram erros de avaliação militar e política que começam a comprometer o desempenho de suas tropas nos campos de batalha e ameaçam provocar uma "grande fratura" no mundo como resultado da guerra contra o Iraque, de acordo com avaliação feita ontem pelo diretor do Centro de Estudos Latino Americanos (Cela), o especialista em Segurança Internacional, Guerras e Estratégia, professor Hector Luis Saint-Pierre, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). No front da guerra, segundo Saint-Pierre, os EUA cometeram os graves erros estratégicos de subestimar o inimigo e de precipitar os ataques. "Acreditavam que poderiam matar Saddan Hussein e definir rapidamente a guerra, mas isso não ocorreu", lembra ele."As tropas avançaram precipitadamente em direção à Bagdá e cometeram um pecado mortal da estratégia: deixaram inimigos na retaguarda." De acordo com o professor, a precipitação norte-americana em avançar em direção a Bagdá foi "tão grande" que as tropas passaram totalmente ao largo de cidades pequenas, mas importantes. "Eles tiveram tanta pressa que sequer realocaram as forças que deveriam integrar uma frente norte, caso a Turquia cedesse bases", lembra ele.Saint-Pierre acredita que estes inimigos na retaguarda podem "transformar o deserto em um pântano" para os soldados americanos. "Ao contrário do aconteceu na guerra de 91, o Iraque não pulverizou suas tropas pelo deserto, mas criou bolsões de resistência que vão minar a retaguarda, em guerras de guerrilhas. Tanto isso é certo, que já começaram a atacar comboios de abastecimento", afirma o professor.Os soldados norte-americanos, segundo Saint-Pierre, alimentavam a certeza de que sua chegada às cidades iraquianas provocaria deserções em massa. "Mas isso também não aconteceu, e o moral das tropas norte-americanas começa a ficar abalado", argumenta ele.Para o professor, o regime de Saddan não é diferente da maior parte dos outros regimes políticos do Oriente Médio, como do vizinho Irã ou da Arábia Saudita. "A idéia de que tropas invasoras poderiam ser saudadas como ´libertadoras´ é uma grande farsa", avalia. "O conflito pode se estender, de forma imprevisível, como ainda acontece hoje no Afeganistão, mesmo depois da conquista de Bagdá."Novo eixoA decisão "claramente hegemônica" de invadir o Iraque "criou fraturas" na geopolítica internacional que podem, segundo Saint-Pierre, ter um efeito exatamente contrário daquele que os EUA haviam definido como sua prioridade estratégica antes dos atentados de 11 de setembro."Bem antes do 11 de setembro, como resultado de uma grande discussão no centro do governo de George W. Bush, a China havia sido definida como a principal prioridade estratégica dos EUA. A China deveria ser isolada", afirma o professor.Mas a guerra, segundo ele, já produziu efeitos inversos ao fragmentar a União Européia. "Hoje, parece muito possível a consolidação do eixo Alemanha/França/Rússia/China, que interessaria também aos tigres asiáticos e voltaria a criar uma bipolaridade no mundo", acredita o professor. Para Saint-Pierre, o governo norte-americano já percebeu a aproximação deste novo eixo e, por isso, começou a fustigar a Rússia "de forma inexplicável" nos últimos dias. "Os EUA insistem em acusar a Rússia de ter vendido material para o Iraque, mas isso não é novidade nenhuma. Nada explica que os EUA tentem provocar um novo atrito neste momento", avalia ele.Veja o especial:

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