TIMOTHY A. CLARY/AFP
TIMOTHY A. CLARY/AFP

EUA confirmam disputa inédita à Casa Branca

Pela primeira vez, eleição americana terá uma mulher concorrendo à presidência e um candidato sem nenhuma experiência política

Cláudia Trevisan, Correspondente / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

09 Junho 2016 | 05h00

Os americanos viram na terça-feira a largada de uma campanha eleitoral que será distinta de todas as que os Estados Unidos viram em sua história moderna. A primeira mulher a disputar a presidência dos EUA por um grande partido enfrentará um republicano que se orgulha de ser um autêntico outsider, sem nenhuma experiência política. 

Hillary Clinton e Donald Trump conquistaram anteontem o número mínimo de delegados para garantir suas candidaturas e inauguraram a nova fase da campanha eleitoral com troca de artilharia pesada. 

A democrata descreveu o bilionário como um candidato que insulta minorias, tenta dividir a sociedade americana e busca levá-la de volta a um período no qual “oportunidade e dignidade” eram reservadas a alguns. Hillary também repetiu a que deverá ser sua principal linha de ataque a Trump: a de que ele não possui temperamento para ser presidente dos EUA.

Na direção contrária, o republicano questionou a honestidade da democrata e de seu marido, o ex-presidente Bill Clinton. Trump acusou ambos de “venderem” favores a russos, chineses e sauditas em troca de doações para a Fundação Clinton. Segundo ele, Hillary transformou sua gestão no Departamento de Estado em um hedge fund que produzia benefícios pessoais e decidiu usar um servidor privado de internet quando estava no cargo para ocultar informações.

Mary Anne Marsh, estrategista do Partido Democrata, observou que os dois candidatos também apresentam visões opostas da realidade dos EUA. Hillary enfatiza a recuperação do país desde a crise de 2008 e fala sobre o futuro, enquanto Trump apresenta um visão “romantizada” do passado com seu slogan “Tornar a América Grande de Novo”. Para a democrata, a América nunca deixou de ser grande, observa a estrategista.

Outra diferença entre ambos é o tratamento de minorias. Enquanto Hillary apresenta um discurso que incluiu brancos, negros, hispânicos, muçulmanos, gays e transgêneros, Trump se caracteriza pelo insulto a muitos desses grupos. Sua principal base são homens brancos insatisfeitos com os rumos dos EUA. “Essa eleição será dividida por raça e por gênero”, disse Marsh.

O republicano Geoffrey Kabaservice afirmou que a campanha também será marcada pela inédita rejeição à política tradicional, refletida na emergência do populismo representado por Trump e pelo democrata Bernie Sanders. Em sua opinião, o desafio imediato de Hillary é conseguir o apoio de Sanders, que ontem prometeu continuar na disputa com o slogan “a luta continua”.

Do lado republicano, a dificuldade será convencer o candidato do partido a abandonar suas declarações controvertidas e se apresentar com uma imagem mais “presidencial”, ressaltou Kabaservice, autor do livro Rule and Ruin, no qual analisa a guinada para a extrema direita do Partido Republicano. A dúvida é se Trump aceitará a mudança. “Até agora, essa estratégia funcionou para ele.” 

Sanders. A esperança de Sanders de conseguir a nomeação democrata foi frustrada ontem com sua derrota nas primárias da Califórnia por uma margem superior à antecipada pelas pesquisas. Hillary obteve 56% dos votos no mais populoso Estado americano, 13 pontos porcentuais acima dos 43% conquistados pelo adversário. Ela também venceu em New Jersey, Novo México e Dakota do Sul.

A pedido de Sanders, o presidente Barack Obama o receberá hoje na Casa Branca. Josh Earnest, porta-voz de Obama, disse que o presidente felicitará o senador por sua campanha e manifestará “apreço” pelos princípios que defendeu.

Obama telefonou para Hillary, sua ex-secretária de Estado, na noite de terça-feira para cumprimentá-la por conseguir o número necessário de delegados para ser a candidata democrata à presidência. 

“Sua histórica campanha inspirou milhões e é uma extensão de sua longa luta por famílias da classe média e crianças”, disse Obama, segundo comunicado da Casa Branca. A CNN afirmou ontem que Obama deverá endossar a candidatura de Hillary até o fim desta semana. “Há meses nós temos dito que o presidente apoiará o nomeado democrata”, afirmou Earnest.

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