EUA criam Iraque cenográfico na Louisiana para jogos de guerra

Cerca de 4 mil soldados auxiliados por mil figurantes, 400 deles iraquianos, treinam em Fort Polk para ir ao Golfo

Patrícia Campos Mello, ENVIADA ESPECIAL, FORT POLK, EUA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2026 | 00h00

Era pouco mais de meio-dia quando um veículo Humvee com cinco soldados americanos encostou no vilarejo de Al-Mawsil. Os militares tinham recebido uma dica de um informante: integrantes da Al-Qaeda estariam escondidos na vila de agricultores. Os soldados foram recebidos a bala. O Humvee foi atingido por uma granada propelida por foguete, que matou dois dos cinco americanos. Vários terroristas da Al-Qaeda surgiram dos fundos da mesquita do vilarejo, empunhando seus fuzis M16. O tiroteio apertou. Vieram reforços - mais dois Humvees carregados de soldados americanos. Enquanto os militares prestavam primeiros socorros aos feridos, uma mulher saiu correndo de dentro de uma casa, gritou "Deus é grande" em árabe e detonou o cinto de explosivos que carregava sob a roupa. Esse poderia ser mais um dia na sangrenta guerra do Iraque, mas alguns detalhes não se encaixam. A mulher-bomba deitada no chão usa calça jeans e tênis New Balance debaixo da roupa de iraquiana. O terrorista da Al-Qaeda é incrivelmente parecido com o ator americano Leonardo di Caprio. As casas são todas "made in Texas" e as cabras estão revirando um pacote de Cheetos no chão.Bem-vindo ao Iraque Second Life - a réplica do Iraque que o governo americano construiu em Fort Polk, na Louisiana. Aqui nesta base do Exército, numa área equivalente a 14 ilhas de Manhattan, o Pentágono montou uma gigantesca cidade cenográfica para treinar os soldados prestes a embarcar para a guerra no Iraque. "Nós fazemos um filme de Hollywood a cada 24 horas", compara o capitão Robert Phillips, oficial de relações públicas do grupo de operações do Joint Readiness Training Center em Fort Polk, Louisiana. Cerca de 4 mil soldados passam pelo chamado "treinamento real" do forte. Eles têm ajuda de mil figurantes, que interpretam vários papéis, desde civis iraquianos até insurgentes, policiais, integrantes da Al-Qaeda no Iraque, mídia estrangeira e representantes de ONGs. O Exército construiu 18 vilarejos iraquianos, onde os soldados aprendem a lidar com insurgentes, carros-bomba, IEDs (sigla em inglês para Dispositivos Explosivos Improvisados) e reclamações de civis e descobrem como evitar gafes culturais e religiosas. A bíblia dos soldados é o "Manual de Contra-Insurgência" escrito pelo general David Petraeus, líder das forças americanas no Iraque. Mas, às vezes, o objetivo é ensinar as coisas mais simples, como a maneira de convencer um pastor de cabras a tirar seus animais do meio da estrada e deixar o comboio do Exército americano passar.Todo o treinamento é filmado, para ser usado posteriormente na avaliação do desempenho dos soldados"Tentamos mostrar aos soldados como se relacionar com os iraquianos; os americanos falam demais", diz o iraquiano Shawn Hassen, 32 anos. Hassen é um dos 400 iraquianos contratados para atuar como figurante em Fort Polk. Ele trabalha 17 dias por mês e ganha US$ 227 por dia para fingir que é um policial iraquiano. Hassen, que é curdo, veio para os EUA há seis anos - ele era professor primário no Iraque. ?PAINTBALL? A LASER"O trabalho é fácil e o dinheiro é bom", diz Farhad Sharif, de 39 anos, sobrevivente do ataque químico de Saddam Hussein contra os curdos no final dos anos 80. "Ensinamos que, ao entrar na casa de um iraquiano, os americanos não podem ir arrastando os homens para fora, humilhando-os na frente da esposa e dos filhos."Os fuzis e as metralhadoras que os soldados carregam são de verdade, mas estão sem munição. As armas foram adaptadas para um sistema de laser e os soldados usam vestimentas que detectam se eles foram atingidos por tiros, granadas ou bombas. É parecido com um jogo de paintball, só que funciona com laser. O treinamento é obrigatório e dura pouco mais de duas semanas. Todo mundo que está aqui embarca para o Iraque antes do fim do ano. Conforme a guerra vai mudando no Iraque, o Exército vai atualizando seus scripts em Fort Polk, inserindo outros grupos de insurgentes, novos tipos de bombas, etc. O sargento Gerard Conklin, de 31 anos, traz para o treinamento elementos que viu no front. Conklin esteve no Iraque por mais de um ano, lutou contra a milícia Exército Mahdi, do líder xiita Muqtada al-Sadr, e foi ferido por bombas no rosto e nas costas. No vilarejo fictício de Al-Mawsil, ele é o líder da Al-Qaeda, e tenta imitar as táticas dos insurgentes que viu no Iraque. Mas nem sempre o Iraque hollywoodiano é verossímil. O script tem alguns momentos de filme B - pseudo-iraquianas gritando o tempo inteiro, balançando os braços maquiados de queimadura, acompanhadas de loirinhos disfarçados de xiitas. "É uma reconstituição, nunca será igualzinho - queremos apenas que eles fiquem menos surpresos quando chegarem lá", diz o major Steve Wood, que já lutou no Iraque em dois períodos e ajuda a escrever os scripts. "Não chegamos ao extremo de reproduzir o cheiro de Bagdá - graças a Deus", brinca um oficial. O objetivo é ser o mais realista possível. "Já fiz de tudo - braço quebrado, perna esmagada, queimadura", orgulha-se a maquiadora Jacqueline Whitsitt. Ela já tem até truques - põe arroz nas feridas, para fingir que são larvas, e a aveia cozida na cabeça faz as vezes de miolos. "Sempre adorei Halloween", conta. "Fico realizada quando vejo a cara de assustados dos soldados ." Não se pode sair do papel nenhum minuto, sob risco de demissão. Certa vez um figurante iraquiano foi "baleado" durante o treinamento - ele já estava havia uns 40 minutos debaixo do sol forte e foi se arrastando para a sombra de uma árvore. "Posso ir morrer na sombra?", perguntou o iraquiano."Não, você fica aí, morre no sol mesmo", teria respondido o comandante.Segundo o coronel Gregory Baines, comandante do batalhão, é importante ter muito rigor nos treinamentos. "Estamos tentando formar unidades muito disciplinadas, que tratam os outros como gostariam de ser tratados", diz Baines. Isso tem a ver com os abusos contra prisioneiros cometidos em Abu Ghraib? "Não", diz Baines. "(A disciplina) sempre foi um alicerce de nosso treinamento militar."O Fort Polk foi criado em 1941 para simular combates da 2ª Guerra Mundial. Na época, o general George Marshall, grande herói da guerra, teria dito: "Eu quero que os erros sejam cometidos aqui na Louisiana e não na Europa." Anos depois, Fort Polk foi usado no treinamento dos militares americanos que estavam embarcando para o Vietnã. "Queremos que o pior dia dos soldados seja na Louisiana, não em Bagdá", diz o capitão Phillips. E torce para que os soldados não cometam com a insurgência iraquiana os mesmos erros da luta contra a guerrilha vietcongue.

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