EUA culpam China por fuga de delator e criticam países que podem recebê-lo

O governo de Barack Obama culpou ontem China e Hong Kong pela fuga do americano Edward Snowden, responsável pelo vazamento de documentos sobre o programa secreto de espionagem dos EUA. A Casa Branca criticou ainda a falta de liberdade de expressão e de proteção aos direitos humanos na Rússia, na China e no Equador, os países mais cotados para receber o delator.

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2013 | 02h07

O paradeiro de Snowden era desconhecido ontem. Com a ajuda da cúpula do WikiLeaks, ele havia desembarcado em Moscou, no domingo, vindo de Hong Kong, onde estava desde maio. Com a fuga, Snowden driblou o pedido de extradição enviado pelo governo americano à cidade autônoma chinesa.

Na Rússia, ele foi recebido pelo embaixador do Equador, Patrício Chávez Zavala e deveria ter tomado ontem um voo para Havana, mas não embarcou. Da Embaixada do Equador em Londres, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, afirmou que Snowden está "são e salvo", mas não disse onde.

Segundo analistas, o fato de Snowden não ter embarcado pode significar que o governo russo tenha detido o americano, seja para colaborar com Washington ou para interrogá-lo, em uma tentativa de obter informações de seu próprio interesse.

Ontem, Assange afirmou que Quito deu ao americano documentos de viagem - seu passaporte havia sido revogado. O chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, afirmou no Vietnã que analisa um pedido de asilo de Snowden e deu sinais de que o aceitaria. O delator teria feito o mesmo pedido a outros países, segundo Assange, para onde poderia seguir viagem. "Se vivêssemos em um mundo melhor, eu daria detalhes. Infelizmente, vivemos em um mundo onde a maior parte das comunicações são interceptados ilegalmente, como o sr. Snowden mostrou", disse Assange.

O americano revelou aos jornais The Guardian, de Londres, e Washington Post a existência do programa Prism, por meio do qual a Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) monitora telefonemas e registros na internet nos EUA e no restante do mundo. Snowden trabalhava como prestador de serviços na empresa terceirizada Booz Allen Hamilton na unidade da NSA no Havaí. Enquanto estava em Hong Kong, Snowden também acusou a NSA de invadir computadores da China.

A Casa Branca pressionou ontem para que a Rússia deportasse Snowden. O secretário de Estado, John Kerry, afirmou que as relações de Rússia e Hong Kong com os EUA serão afetadas se for provado que seus governos sabiam da fuga. A agência de notícias russa Interfax disse que Moscou recebeu um pedido de extradição, mas que ele ainda não havia sido analisado.

Segundo a Interfax, a Rússia não pode deter e extraditar o americano se ele não entrar formalmente no país. Snowden poderia ter permanecido na área interna do aeroporto, anterior ao controle de imigração. Mesmo que tenha sido admitido em solo russo, ele teria outra saída: Vladimir Putin já se declarou pronto para conceder-lhe asilo.

Obama tem protegido sua imagem e evitado comentários. Seus colaboradores, no entanto, adotaram uma estratégia mais agressiva. "A declaração de Snowden, de que seu foco é apoiar a transparência, a liberdade de imprensa e a proteção dos direitos individuais, é desmentida pelos protetores que ele escolheu: China, Rússia e Equador", disse o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney. "Seu fracasso em criticar esses regimes sugere que sua real motivação foi prejudicar a segurança dos EUA."

Carney afirmou que Obama "não compra a versão de Hong Kong" de que a partida de Snowden foi uma "decisão técnica". Ele garantiu que os EUA pediram a Hong Kong a prisão de Snowden no dia 10. O pedido de extradição foi enviado no dia 17. Quatro dias depois, o governo local pediu mais informações e provas. A estratégia parecia uma forma de ganhar tempo e Snowden fugiu no sábado, dia 22. "Essa decisão, inquestionavelmente, tem um impacto negativo nas relações entre EUA e China", disse Carney.

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