Oliver Contreras/EFE/EPA
Oliver Contreras/EFE/EPA

EUA dão apoio público a Israel, mas pressionam Netanyahu a aceitar cessar-fogo 

Política americana é criticada por congressistas democratas e grupos de judeus progressistas americanos; em raro momento de união, árabes israelenses, moradores de Gaza e da Cisjordânia entram em greve e paralisam parte da economia local

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 05h00

JERUSALÉM - Estados Unidos e Europa aumentaram a pressão diplomática por um cessar-fogo em Gaza. Rumores de uma trégua mediada pelo Egito circularam durante a terça-feira, 18, mas não foram confirmados nem pelo Hamas, que controla o enclave palestino, nem por Israel. Segundo o jornal israelense Haaretz, no entanto, as negociações estão próximas de uma conclusão, com fontes militares estimando o fim do conflito dentro de alguns dias.

Segundo autoridades americanas, o presidente dos EUA, Joe Biden, vem pressionando o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, a aceitar um cessar-fogo – embora publicamente a Casa Branca mantenha o apoio irrestrito a Israel. Duas pessoas que presenciaram o telefonema entre Biden e Netanyahu, na segunda-feira, disseram ontem ao New York Times que o presidente deixou claro que não poderia segurar muito tempo a pressão internacional contra os bombardeios israelenses.

A tática – de pressão nos bastidores combinada com apoio público a Israel – vem sendo criticada por congressistas democratas e grupos judeus progressistas americanos. Na terça-feira, porém, a estratégia foi defendida pela porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, como sendo resultado da experiência de Biden em política externa. “Ele está fazendo isso há tempo suficiente para saber que a melhor maneira de encerrar um conflito internacional é não debatê-lo em público”, disse.

A pressão aumentou também na Europa. Reunidos por videoconferência, os chanceleres do bloco pediram um cessar-fogo imediato. Em declaração conjunta, os europeus apoiaram o direito de defesa de Israel, mas alertaram que ele deve ser “feito de maneira proporcional e respeitando o direito internacional humanitário” – apenas a Hungria não assinou a mensagem, por considerá-la favorável aos palestinos.

Apesar da pressão, Netanyahu disse que os ataques em Gaza “levarão o tempo necessário para restaurar a calma aos cidadãos de Israel”. Curiosamente, segundo analistas, tanto o premiê israelense quanto o Hamas têm sido os maiores vencedores do conflito.

Dois opositores do primeiro-ministro, Naftali Bennett e Gideon Sa’ar, que negociavam a formação de um novo governo de coalizão com Yair Lapid, um desafeto de Netanyahu, já cogitam a possibilidade de uma aliança com o premiê.

Segundo fontes militares israelenses, o Hamas também vem cumprindo seus principais objetivos: posicionar-se como defensor da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, fortalecer sua presença na Cisjordânia e reforçar sua posição para suceder ao presidente Mahmoud Abbas no futuro.

Greve

Palestinos em Israel e nos territórios ocupados entraram ontem em greve em um raro protesto coletivo. Apesar de o movimento ter sido pacífico em muitos lugares, com as lojas fechadas nas movimentadas ruas da Cidade Velha de Jerusalém, a violência explodiu na Cisjordânia.

Centenas de palestinos queimaram pneus em Ramallah e atiraram pedras contra um posto de controle militar israelense. As tropas dispararam gás lacrimogêneo. Três manifestantes foram mortos e mais de 140 ficaram feridos. O Exército israelense disse que dois de seus soldados foram feridos por tiros nas pernas.

O conflito começou no dia 10, com a escalada de semanas de tensão em Jerusalém entre manifestantes palestinos, a polícia e israelenses de direita, no contexto da antiga disputa pelo controle da cidade sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos, ocupada por Israel na guerra de 1967.

Protestos começaram por causa de um julgamento da Suprema Corte – que acabou sendo adiado – a respeito do despejo de quatro famílias palestinas do bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, habitada predominantemente por palestinos. Muitos árabes qualificaram o processo como parte de uma campanha israelense mais ampla para expulsar os palestinos da cidade, descrevendo o processo como limpeza étnica.

No dia 10, a polícia israelense e palestinos entraram em choque na Esplanada das Mesquitas. Centenas de palestinos e alguns policiais ficaram feridos no confronto. Militantes em Gaza, então, começaram a disparar foguetes na direção de Jerusalém, e Israel respondeu com bombardeios aéreos.

Pelo menos 217 palestinos foram mortos em ataques aéreos, incluindo 63 crianças, e mais de 1.500 ficaram feridos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, que não divide os números em combatentes e civis. O Hamas e a Jihad Islâmica dizem que pelo menos 20 de seus combatentes foram mortos, enquanto Israel diz que o número é de pelo menos 130. Doze pessoas em Israel, incluindo um menino de 5 anos, foram mortas em ataques com foguetes.

Salvas de foguetes foram disparados na terça-feira de Gaza contra Ashkelon, Ashdod e outras comunidades no sul de Israel. Projéteis atingiram uma fábrica de embalagens em uma região na fronteira com o território, palestino matando dois trabalhadores tailandeses.

O serviço de resgate Magen David Adom de Israel disse que levou outras sete pessoas para o hospital. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Tailândia, Tanee Sangrat, disse que os feridos também eram tailandeses.

Segundo os militares israelenses, foguetes também foram disparados contra a passagem de pedestres em Erez e na passagem de Kerem Shalom, onde ajuda humanitária estava sendo levada para Gaza, forçando o fechamento das duas.

Suprimentos médicos, combustível e água estão acabando na Faixa de Gaza, que abriga mais de 2 milhões de palestinos e está sob um bloqueio israelense-egípcio desde que o Hamas tomou o controle do território após entrar em choque com o Fatah, em 2007. Quase 47 mil palestinos fugiram de suas casas.

Para Entender

As origens do conflito entre israelenses e palestinos

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Ataques israelenses danificaram pelo menos 18 hospitais e clínicas e destruíram um centro de saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Quase metade de todos os medicamentos essenciais no território acabou.

A OMS disse que o bombardeio de estradas importantes, incluindo as que levam ao Hospital Shifa, o principal de Gaza, atrapalhou ambulâncias e veículos de abastecimento no território, que já estava lutando para lidar com um surto de coronavírus.

Entre os edifícios destruídos por ataques aéreos israelenses, havia um que abrigava o escritório da agência Associated Press em Gaza e os de outros meios de comunicação. Netanyahu, alegou que a inteligência militar do Hamas estava operando no prédio. / AP, NYT e AFP 

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