EFE/ Shawn Thew
EFE/ Shawn Thew

EUA dão mais tempo para sauditas esclarecerem desaparecimento de jornalista

Secretário de Estado, Mike Pompeo, recomendou ao presidente Donald Trump que aguarde mais alguns dias para 'ter uma compreensão completa dos fatos' sobre sumiço de Jamal Khashoggi; secretário de Tesouro cancela ida à cúpula em Riad

O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2018 | 16h51

WASHINGTON - Os Estados Unidos decidiram dar à Arábia Saudita mais alguns dias para explicar o desaparecimento do jornalista Jamal Khashoggi há mais de duas semanas, reforçando a impressão de que  Washington procura proteger seu aliado no Oriente Médio.

Negando qualquer intenção de "encobrir" Riad, o presidente Donald Trump ressaltou nos últimos dias os interesses estratégicos que ligam seu país ao reino sunita, citando a luta contra o terrorismo, a necessidade de conter a influência do Irã xiita, bem como os contratos bilionários de armas. 

No único indício de uma posição americana mais firme neste contexto, o secretário do Tesouro Steven Mnuchin cancelou, nesta quinta-feira, 18, sua participação em uma conferência de investidores em Riad.

O encontro, marcado para 23 a 25 de outubro, sofreu diversas deserções com a crise provocada pela suposta morte de Khashoggi no consulado saudita de Istambul.

"Eu disse ao presidente Trump esta manhã que deveríamos dar a eles mais alguns dias, para que nós também tenhamos uma compreensão completa dos fatos" em torno do desaparecimento de Khashoggi, afirmou o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo.

"Nós deixamos claro que levamos este caso muito a sério", acrescentou ele depois de uma reunião no Salão Oval com o presidente Donald Trump.

No Twitter, o presidente americano garantiu que discutiu o caso "em detalhes" com seu secretário de Estado, mas não disse uma palavra sobre possíveis medidas futuras.

"Grande mala"

A publicação de novas imagens das câmeras de segurança mostrando os movimentos em Istambul de um oficial dos serviços de segurança próximo ao príncipe herdeiro saudita aumentou ainda mais a pressão sobre Riad.

Segundo o jornal New York Times, o homem em questão, Maher Mutreb Abdulaziz, que foi identificado pelas autoridades turcas como um dos membros de uma equipe de 15 agentes enviados por Riad para assassinar o jornalista, faz parte da comitiva do príncipe herdeiro e homem forte da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.

Nas novas imagens divulgadas nesta quinta-feira pelo jornal pró-governamental turco Sabah, é possível ver um homem apresentado como Mutreb chegar às 6h55 ao consulado da Arábia Saudita, e às 13h53 em frente à residência do cônsul.

Khashoggi havia entrado no consulado por volta das 10h15 e nunca mais saiu.

Mutreb pode então ser visto em fotos deixando um hotel de Istambul com uma "mala grande" e acompanhado por um grupo de homens às 14h15. Ele chega 45 minutos depois no aeroporto de Istambul para pegar um voo.

A imprensa turca, alegando usar como base gravações sonoras feitas no local, já havia publicado na quarta-feira novas informações contundentes segundo as quais Jamal Khashoggi foi torturado e assassinado no consulado no dia do seu desaparecimento.

Investigação da ONU

O Washington Post divulgou na quarta-feira o que apresenta como a mais recente contribuição de Jamal Khashoggi, um texto em que o repórter discute a falta de liberdade de imprensa no mundo árabe.

"Infelizmente, essa situação provavelmente não vai mudar", lamenta o jornalista nesta coluna transmitida por seu tradutor no dia seguinte ao seu desaparecimento. 

A Anistia Internacional, a Human Rights Watch, os Repórteres Sem Fronteiras e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas pediram à Turquia que solicite uma investigação da ONU sobre o caso Khashoggi.

"O envolvimento das Nações Unidas é a melhor garantia contra a mentira saudita ou contra tentativas de outros governos de ignorar o problema, a fim de preservar lucrativas relações comerciais com Riad", disse Robert Mahoney, diretor executivo ajunto do Comitê de Proteção dos Jornalistas, citado no comunicado.

"Dado o possível envolvimento das autoridades sauditas no desaparecimento forçado de Khashoggi e em seu assassinato, bem como pela falta de independência do sistema de justiça penal saudita, a imparcialidade de qualquer investigação por parte das autoridades sauditas seria questionável", acrescenta a declaração.

A Promotoria de Istambul divulgou uma declaração dizendo que informaria ao público sobre o andamento da investigação "se necessário". / AFP

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